Estamira

Estamira, Marcos Prado, 2001

Obs.: primeiro texto que escrevi sobre um filme: texto encomendado pelo meu amigo Cid Nader, que descanse em paz. Eu praticava a escrita sobre filmes em diários, blocos de anotações, mas nada tão sério. Quando o Cid me pediu o texto, tremi. Por isso há todo um contorcionismo nele: um contorcionismo que ainda continuo recorrendo pra conseguir dar expressão a algo, mas talvez com um pouco menos de intensidade, e não que esse contorcionismo seja ruim, ou melhor, não sei qualificar ao certo… Bom, fato é que a aventura se inicia com esse texto, escrito em 2017, e que desde então venho praticando regularmente, mas que neste possui o desvario próprio do início de um processo.)

O pior de tudo é não saber por onde começar a escrever. A falta de tato pode me empurrar pra bem longe do meu objetivo, que , em verdade, me escapa com uma fluidez impressionante; e deve ser por isso que me sinto tão deslocado ao tentar escrever este texto: parece que nada demais vai sair disso aqui, já que não possuo domínio algum da crítica como ofício e não sei como enfileirar as ideias que me surgiram durante e após a exibição de um filme. Mesmo assim tentarei, apesar de todos os contratempos. E com a alta possibilidade de naufrágio, nem sei se deveria escolher logo Estamira para uma primeira tentativa… Aliás, não tenho o menor senso de direção aqui, é como desbravar um matagal com um facão cego, tem de haver muito esforço pra vencer o capinzal, ao mesmo tempo que se precisa de sorte para não se perder em círculos no meio da mata fechada, correndo o risco de não se chegar a lugar algum!

Estamira. Veja bem onde vou me meter. Pra mim é um documentário daqueles. (Um aviso: as expressões de sobressalto, frases de efeito e dentre outros deslizes amadores são de inteira responsabilidade do autor do texto.)

Pois bem. Filme é um troço que acontece na gente, sabe?, precisa da gente para que suas molas engrenagens e parafusos consigam alcançar o movimento e assim entregar o que carrega em seu âmago. É bom ver o mesmo filme em momentos diversos, com senso de investigação, buscando descobrir se eles realmente funcionam, se o tempo os desmascaram, embusteiros que são: já que se valiam mais do imediato na gente, criando ilusões de mergulho, quer dizer, nós é que, predispostos sabe-se lá pelo quê, inventamos correções onde as engrenagens molas e parafusos não conseguiram se manter, se sustentar e portanto nada demais havia para ser entregue (e olhe lá hein, que isso nem sempre é ruim).

Assisti Estamira em três momentos distintos e sempre me entregou algo. Estamira possui três filhos: o filme não demora muito em apresentar dois deles, o filho mais velho Hernani, e logo em seguida Carolina, a do meio. Só mais adiante surge a filha mais nova, Maria Rita. Ela demonstra possuir a delicadeza que falta aos outros dois, mas também falta a ela o que sobra nos outros dois: certa aspereza, ou dureza, ou uma combinação das duas coisas. Parece que o autor quer dizer algo com essa organização narrativa: parece que é por aquela menina que Estamira não desiste de uma vez do mundo, já que motivos pra isso não lhe faltam. Num dado momento Carolina diz que se preocupa com a irmã, pois parece que a mesma ainda não se encontrou na vida. Depois vemos a menina falar sobre a amargura que sente por entender que lhe foi roubada a possibilidade de ter vivido as mesmas dificuldades que os dois irmãos passaram ao lado da mãe, e assim percebemos que há um sofrimento, talvez revolta, por se sentir preservada de algo que talvez agora lhe serviria de alicerce para se encontrar no mundo.

Durante as exibições eu ficava imaginando, tentando me pôr no lugar do autor do filme buscando entender como foi vivenciando todo o processo, que talvez eles avançavam durante as filmagens sem saber ao certo onde chegariam com tudo aquilo, que a coisa se desenvolvia de maneira (penso eu) caótica diante das câmeras.

E Estamira vocifera contra Deus: o Deus do filho Hernani. Deus que é um personagem presente em todo o filme, paradoxalmente cumprindo a função de se manter ausente, já que em momento algum se defende das acusações de Estamira, ou no mínimo vem ajudar o filho Hernani a vencer os ressentimentos que o afasta de sua mãe.

Marcos Prado demonstra que teve acesso aos dados mais importantes da família e nos dá o que lhe convém para que a narrativa seja construída de acordo com seu sadismo, o cineasta como um Deus, este sim, onipresente!

Estamira é um documentário cheio de desvios, acidentes, e armadilhas, e é por caminhos espinhosos que nos vemos refém das armadilhas dispostas em lugares previamente pensados. Parece que Estamira entende e de bom grado atua, como se possuísse um entendimento profundo sobre todo o processo que está envolvida. Ao mesmo tempo parece que tudo foge da alçada da equipe: parece que no instante seguinte tudo vai se desfazer como que por meio de uma tempestade. Estamira é uma provocação premente, é a linguagem marginalizada e ainda por cima ostentando a mesma pompa da linguagem oficial, demonstrando ser capaz de, pelos deslocamentos poéticos, apontar pro mundo e tentar explicar todos os seus fenômenos tortos que estão lá dentro e em silêncio, causando todos os sofrimentos que mantém o mundo no seu rumo desalentador.

Estamira explica os fenômenos e tensões do mundo recorrendo a termos que nos desperta a curiosidade: e por meios deles ela desmembra a mecânica sombria da sociedade e aponta a causa da doença e a sua possível cura: quase como um Buda observando o mundo de cima da montanha de lixo. O que é realmente a loucura? Algo não treme lá no fundo da gente quando ouvimos Estamira esbravejar, como um trovão, contra tudo que estamos acostumados e por demais afeitos, como animais na fila do abate? Será que não sentimos uma ponta de inveja da lucidez de Estamira? Ou medo de estarmos nos desperdiçando? Ou o que mais? O que é realmente loucura? O que será que de fato vibra em nós? Acho que é esse o mote do filme: fazer vibrar algo indefinido lá no fundo.

É o senhor que dorme perto do fogo, o chorume, máquinas escavando sem se perturbarem com os humanos com seus surrados sacos catando o que as máquinas revolvem; os alimentos encontrados, a macarronada com palmito, Estamira mostrando donde veio a filha ao abaixar a calça pro neto após ele questionar por que ela insiste em dizer tudo aquilo sobre Deus. Estamira passa por barracos em chamas, Estamira vai ao médico, Estamira se lembra de todo o sofrimento que lhe serviu de sustento para encontrar sua ácida filosofia de vida… Ao certo não sei, e esse é o mérito do filme: nos deixar com mais dúvidas, potencializar as dúvidas que já estavam com a gente mas que por força da rotina nós nos acostumamos com elas, inventando meios de torná-las inofensivas.

Mas algo vibra e o mundo se abala e parece que nada ficará de pé assim que o filme terminar. Mas o mundo permanece de pé, e é nessa permanência do mundo, resistindo às acusações de Estamira, que Marcos Prado aposta a existência de seu filme, claro, creio eu. O mundo é tudo isso e muito mais. O filme termina com Estamira diante do mar, lutando contra a maré quebrando na praia enquanto prolifera em voice-over o que há de mais caro às suas concepções filosóficas:

Sabia que tudo que é imaginável existe e é e tem?

O mundo pode permanecer de pé, mas ele foi abalado, sentiu o tremor, e quase caiu. E esse quase é muita coisa!

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