Tolstói

imagem de Rei Souza

Entrei na panificadora e não havia movimentação, bocejava enquanto protegia meus olhos da luz do sol refletido pelos vitrais do balcão. Eu não fazia a menor ideia do que compraria pro café da manhã. De repente, sem que me desse conta, estava tudo muito tumultuado. Eis que surge uma mulher sorridente, loira, cabelos lisos, alta, trajava calça jeans, blusa branca e jaqueta jeans, do lado uma bolsa singela, no rosto um riso matutino de quem parecia ter tido uma noite de sono agradável, povoada de sonhos que não exigem da manhã lembrança alguma. Falava, com alguém ao seu lado, algo sobre ter esquecido sua garrafa de água. Disse, antes de pedir alguma coisa pro atendente, um suave bom dia a todos ali, eu não respondi. Busquei, tentando disfarçar ao máximo, olhá-la umas duas vezes depois disso e não a encontrei. As pessoas se amontoavam diante do balcão, ouvia apenas a sua voz que parecia contente com tudo. Consegui vê-la apenas enquanto saía, com um olhar ligeiro, tímido, de quem quer ver mas também quer se conservar à espreita.

Estava pra completar o terceiro ano do colegial. Não sei como me tornei representante de turma. Eu fingia olhar os cadernos dos companheiros de sala: na minha gestão todos sempre haviam feito a tarefa de casa. Éramos uma turma unida, uma boa turma, os professores sabiam das coisas erradas, mas toleravam porque tudo naquela turma fluía de forma tranquila. Das aulas eu aproveitava História, Geografia e as aulas de Redação, o resto estava cambaleando da média pra baixo. Mas era a professora de português e redação que mais gostar de mim. As minhas redações eram as que mais lhe dava gosto de ler, ela dizia. Perguntava o que eu gostava de ler, me trazia livros, e conversava comigo de uma forma que me deixava ainda mais tímido. Certo dia levei um livro pra escola, A Morte de Ivan Ilitch, ela e me perguntou sobre, contei sobre o enredo e como aquela história havia me impactado. Ela pediu o livro emprestado.

Estava pra encerrar o ano letivo, eu estava conversando com meu primo quando a professora surge no pátio, alta, loira, cabelos lisos, calça jeans, blusa branca, jaqueta jeans, um riso plácido, e me chama num canto. Fala sobre o livro, diz que algo nela mudou depois daquela leitura. Contou como percebeu que tudo era tão frágil, como ela sentiu a solidão de Ivan, que teve medo da solidão, mas que havia entendido tudo que a cercava de outra forma, a partir do sofrimento de Ivan. E, concluiu, disse que decidiu encerrar muita coisa na sua vida. Semanas antes, um homem veio lhe buscar ao término da aula, era um homem de feições duras e um bigode grande que me causava medonhas impressões. Enquanto ela falava lembrei daquele homem, imaginei, ou desejei, que ela estivesse falando especificamente dele, como que terminado com ele, queria que fosse algo do tipo. Seus olhos brilhavam, e eu, tímido, fiquei com a face ainda mais corada ao ouvir ela me encher de gratidão por ter emprestado o livro, finalizando o encontro com um abraço apertado. No dia seguinte ela me trouxe um livro de poesia de presente, escreveu uma dedicatória e disse que estava saindo da escola. Sorriu e desapareceu de vez da minha vida.

Foi como revê-la. A moça desapareceu da panificadora como surgiu: como um fantasma. Ao voltar pra casa um sentimento amargo me trespassou por todo o caminho. Coloco café no copo e me sento sem tocar nos pães que comprei. Minha filha mais velha surge, me dá seu típico beijo de bom dia e então retorno à realidade. O mundo que não para um minuto sequer. Já tentei de todas as formas mas não consigo me lembrar do nome da professora e me esforço para que isso não me deixe mal, mas acho que já não adianta. Muito menos me lembro onde está o livro que ela me presenteou, perdido entre os inúmeros extravios causados pelas incontáveis mudanças de casa que passei desde então. Mas pra quê nome se a sua imagem está intacta, preservada no lá no fundo da memória? Tento com isso me reconfortar: lá está ela, alta, loira, cabelos lisos, calça jeans, blusa branca e jaqueta jeans, um riso plácido…

O que será que foi feito dela? Sorvo outro gole de café. Enfim vai começar meu dia.

Agosto, 2017

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