Rashomon e a Descoberta do Cinema

Photo by Daiei/Kobal/REX/Shutterstock (5882085q) Masayuki Mori, Toshiro Mifune Rashomon – 1951 Director: Akira Kurosawa Daiei JAPAN Scene Still

Minha família conseguiu um vídeo cassete ali pelo início dos anos 2000, época do boom de locadoras nas periferias, sinais de que algo na economia estava mudando. Com o recente poder de locação podíamos escolher e experimentar mais títulos, escapando de vez da rigidez programada pelos canais de televisão. Meu primo e eu gostávamos mais do que de simples filmes de ficção científica, queríamos filmes que conseguiam ir além, filmes em que o herói, graças ao esforço dedicado em sair da espiral que o envolvia, nos apresentasse uma característica nova durante essa escapada, ou no mínimo desse um nó na nossa percepção. Percorrer os corredores de uma locadora era como percorrer um labirinto em busca de um portal. Uma vez encontrado um filme interessante, assistíamos quase que imediatamente, às vezes, caso o filme fosse muito bom, a gente pegava um segundo videocassete emprestado e copiava a fita: era preciso ter aquele filme por perto para sempre! Aí sempre que a gente se encontrava a primeira coisas que discutíamos passava por aquele filme. Isso se tornou um ritual pra mim: eu passava horas dentro de  locadores (passei a procurar por locadoras cada vez mais distantes, em busca de novos labirintos), na esperança de encontrar uma boa fita. Foi numa dessas que encontrei um filme chamado Ghost Dog, filme que trazia alguma coisa sobre filosofia oriental, espadas samurais, e gangsters, tudo isso permeado por uma trilha sonora inteiramente composta por black music, salve RZA, Wu Tang Clan. Lembro que na época havia me causando mais impacto que Pulp Fiction e Snatch, e até mais que Clube da Luta, que eram os queridinhos dos ratos de locadora.

(Era comum naquela época ninguém saber o nome dos autores dos filmes, e muito menos se interessar por esse dado, pareciam invisíveis; o pessoal usufruía do enredo, quando um ator aparecia em diversos filmes diziam: esse cara aí é bom! Ou aprendia alguns nomes fundamentais, Van Damme, Stalone… Ou confundir personagem com autor: E esse filme aqui com Ivan Drago? A verdade é que aprendemos a desfrutar dos filmes assim, com essa leveza marota e sem maiores pretensões: se nós era dado o enredo e disso vinham algumas sensações, então tomávamos isso pra nós e pronto! Quando a pirataria chegou, com suas centenas de títulos  semanais, essa prática já estava instaurada: são apenas filmes, que que tenho eu com seu autor ou com sua equipe de produção e mais: que diabos de autor pode ter um filme de ação? É só pancadaria!).

Lembro que estavam surgindo pelo bairro as incipientes lan-houses, e foi numa delas que pela primeira vez que dediquei um tempo, de forma interessada, ao diretor de um filme: procurei compreender mais ou menos o processo de criação Ghost Dog, entender o que queria seu diretor, Jim jarmusch, dentre outras coisas. Aquele filme havia me impressionado, como citei antes, por conta da trilha sonora, espadas samurai, das citações do Hagakure, etc., mas havia algo mais: um detalhe no tempo, algo que eu não entendia direito, mas que se dava na (a expressão a seguir só a alcancei depois de muito tempo de pesquisa) montagem do filme: eu tentava compreender como aquele filme conseguia se diferenciar de tudo que eu já havia visto. Naquela primeira pesquisa descobri muitas referências soterradas no filme de Jim Jarmusch, e numa dessas li pela primeira vez o nome de Akira Kurosawa.

Por essas bandas e talvez em muitas outras por aí, era (ou ainda é) comum a concepção de que filme é filme e cinema é cinema, tipo: cinema é o lugar no shopping onde se exibem os filmes. E cinema era algo distante, inacessível, com seu ar imponente, preços surreais, poltronas vermelhas ou azuis, ar gelado e pipocas em vasilhames gigantes. São tantas as coisas que prejudicam o acesso à arte e marginalizam o entendimento, e falo do lugar de onde vim, do meio do povo das periferias, lugar onde acessamos compreensões errôneas, mantemos preconceitos, e se livrar dessas coisas é muito complicado, porque são multiplicadas pelas necessidades e carências… Acidentalmente fui, ao longo dos acidentes e encontros, desconstruindo conceitos, mesmo sem saber direito o que estava acontecendo, mas a cada parede derrubada me apetecia destruir tudo que obstruía minha visão. A descoberta de Ghost Dog iniciou uma revolução na minha vida, ou ordenou-a. Lembro que eu possuía uma certa e frágil intuição na qual eu me agarrava com unhas e dentes e que se fortaleceu graças ao encontro com a internet, onde passava horas pesquisando, vasculhando, inventando uma forma de usar aquela nova ferramenta. Um belo dia, passando pelas locadoras do centro da cidade, descobri uma fita no canto mais distante das intermináveis prateleiras, estava escrito Rashomon, havia a imagem de Thoshiro Mifume na capa, e logo abaixo o nome de Akira Kurosawa, o mesmo que havia sido citado como referência de Jarmusch. Foi meio complicado fazer a ficha para locação ali, mas consegui. Dali a ver Os Sete Samurais, que encontrei na mesma locadora, assim como Trono Manchado de Sangue, Taxi Driver, 2001 Uma Odisseia no Espaço, Apocalipse Now, Psicose… foi um pulo! Esses filmes sempre estiveram por ali, alguns inclusive pelas locadoras do meu bairro, mas não conseguia ver porque era preciso escapar do condicionamento que obedece a um fluxo criado pela televisão e que cerceava a minha imaginação, portando, condicionava o meu querer. Foi como se um mundo se abrisse a cada filme visto e a cada ida até a lan house para uma leitura sobre o que acabara de ver, me induzindo a novos títulos.

Eu havia descoberto a arte cinematográfica.

Revi Rashomom várias vezes desde então e sempre me impressiona! O filme é baseado em dois contos do escritor Ryunosuke Akutagawa: Dentro do Bosque e Rashomon. Tempos depois adquiri o livro Contos Fantásticos que continha esses contos, tamanha era a minha fascinação. No conto Rashomon, um samurai dispensado pelo seu mestre espera a chuva passar debaixo de um imenso portal, haviam cadáveres na torre, (naquele tempo as tragédias eram frequentes e pululavam cadáveres por todos os feudos), ali ele descobre uma velha roubando fios de cabelo e a mesma lhe apresenta aos tempos (ou o revela) em quem ele se encontra. No filme a figura da velha e também, porque não, do samurai, (em relação ao conto Raehomon), é representada (no filme) pelo personagem que atravessa a tempestade e procura sob o portal proteção da chuva, é como se ele amalgamasse os dois personagens, gerando um terceiro, mais cruel e mais cínico. E assim, ao se abrigar da chuva e ao perceber um camponês e um monge suspirando, ele os provoca, na tentativa de saber o que lhes causava tanto espanto e também pra afastar o tédio proveniente daquela maçante chuva. O filme se estrutura principalmente no conto Dentro do Bosque: houve um crime, e ouvimos as partes, e a cada depoimento somos levados a desconfiar de todos os envolvidos. Apesar de partir da estrutura dos contos, Kurosawa cria episódios novos, revela outros detalhes, nos induz a erros, ou abre demais, propositalmente, a sua lente… por exemplo: ele explora o ponto de vista do camponês, revelando sua participação no crime. No conto tudo fica em aberto, no filme Kurosawa fecha o círculo. A criança descoberta no grande portal ao fim do filme revela o nível de desumanidade daqueles tempos: o personagem que atravessa a chuva e encontra monge e camponês conversando, rouba o tecido que envolve a criança, como o samurai rouba o quimono da velha no conto Rashomon, não antes de justificar a crueldade própria daqueles tempos.

A versão do camponês talvez seja a que mais se aproxime da verdade dos fatos, mas após seu crime ser revelado, não temos mais certeza de nada, ele pode ter feito algo ainda pior. É como se tudo fosse sempre um jogo entre criminosos, e é isso que preocupa o pobre monge. Ao perceber a criança desamparada o camponês decide adotá-la, como que expiando seus crimes, e o personagem do monge entrevê ali a possibilidade de manter a fé na humanidade.

Há algo na luta pela entre Tajômaru e o Samurai, sob o ponto de vista do camponês que só vim perceber há pouco tempo: uma luta totalmente esvaziada da famosa graça e controle de técnicas que os filmes, contos e lendas de samurai tanto se vangloriavam. Tajômaru parece viver apenas da fama, assumindo fatos desencontrados como se fossem seus, criando uma falsa narrativa de feitos maldosos; ele e o Samurai lutam de tal maneira que suas espadas tremem, mal se encontram, eles mal se olham, tropeçam, rastejam pelo chão, desmentindo os 23 cruzamentos de espadas citado pelo bandido no depoimento. Provocados ou manipulados por uma mulher totalmente descontrolada, eles se veem obrigados à luta; antes, acusam a mulher de ser um ser fraco, e depois revelam-se pusilânimes, e covardes. A fama é uma forma de mentira, ela se antecipa e sustenta as ficções, as pessoas sabem construir reinos inteiros em cima desse alicerce fantasioso, há de se desconfiar de tudo nessa vida, parece nos provocar o filme.

Não vou entrar no mérito da montagem e aspectos técnicos, qjeria apenas celebrar uma descoberta, Eis uma grande obra, que sabe como escorrer pelo tempo! E que está entre os dez mais na minha listinha desengonçada dos melhores filmes que já vi, listinha essa que começou a ser arquitetada graças ao encontro com Ghost Dog.

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