Os Remanescentes

Moro bem ali, naquele prédio amarelo – disse enquanto lutava contra as imperfeições da pista. No meu andar quase todo mundo se foi…

Pisou no acelerador tentando aproveitar o sinal amarelo.

Somos três, os remanescentes. Eu, pra lá dos setenta; um outro, deve ter passado dos oitenta, um velho rabugento; e uma senhora, também com uns oitenta e poucos anos, ela foi muito amiga da minha falecida mulher. Esses dois quase não saem: não faço a menor ideia do que eles passam o dia fazendo. Eu não dou conta não, preciso fazer alguma coisa. Trabalho por prazer, sabe? Gosto do que faço. E esse negócio de aplicativo eu tiro de letra. Me dou bem: as pessoas não acreditam que um velho como eu consegue trabalhar como motorista de aplicativo. E olhe aqui, trabalho com vários apps.

Para o carro quase em cima da faixa. Ele se mantem calado, como se estivesse repassando tudo o que tinha me dito. Assim que o sinal abre o carro se põe em movimento e ele retoma a palavra.

Apenas três: os remanescentes dessa guerra absurda. A vida é uma guerra, moça! Pareceu pensar em algo mais elaborado, mas desistiu de dizer. Durou um pouco mais esse último silêncio.

Por esses dias resolvi descer um pouco mais tarde, não lembro se ia trabalhar… nem sei o que ia fazer naquele dia… Não preciso trabalhar, trabalho porque gosto, igual falei pra senhora: trabalho quando quero. Então, nesse dia desci às nove. E nós três nos cruzamos. Acho que fazia uns seis meses que não nos víamos. Nem bom dia, moça, qual seu nome?

Lívia.

Então, dona Lívia, nem bom dia…

Pode me chamar só de Lívia.

Oxe, nunca, dona Lívia. Pareceu perder o fio da meada.

Eu não vou dar o braço a torcer, se eles não querem falar comigo, também não falo com eles.

Silêncio.

Da parte deles sei que morreram todos! Nem um neto, primo, sobrinho, nada! Só nós três nesse mundo, morando no mesmo andar, vizinhos, companheiros de viagem, e ninguém se fala, ninguém se cumprimenta, nem nada, como se fôssemos estranhos… E aí eu pergunto: pra quê tudo isso? Sabe…

Dobrou à esquerda.

Droga, não era por aqui, mas ali eu dou um jeito, conheço isso aqui como a palma da minha mão. Vai ser até melhor. Pego a Rua X, viro na… humm.. Ali na segunda esquina e vai ser até mais tranquilo chegar até o elevado.

Outro silêncio.

Tô perto, entende?

Perto do quê?

Da morte.

Não diga isso não, o senhor tem muito chão pela frente.

Ou pro fundo. Ele gargalhou e complementou de pronto: Aos oitenta anos você pode precisar de ajuda. Sem falar na solidão.

Fiz um gesto afirmativo com a cabeça e desviei o olhar pra fora do carro.

A senhora mora lá na saída pra rodovia, né? É muito perigoso?

Depende, hoje em dia tudo anda tão perigoso: é preciso ter cuidado o tempo inteiro. Mas antigamente não era muito não.

Tô pensando em me mudar pra uns predinhos ali, perto da saída, tem um panfleto em algum lugar… ali, isso! Tá vendo? Parece um bom lugar.

Sim, parece mesmo…

Vou largar aqueles dois fantasmas pra lá… – disse como que pra si mesmo.

Passou o elevado e a cidade pareceu que fora construída dentro de um buraco. O sol já declinava e pareceu um sonho tudo aquilo. Depois de algum tempo adentramos as ruas do meu bairro.

Mostrei os predinhos, tentando me reconectar com o motorista, que se mantinha ensimesmado. Mas não adiantou muito: terminamos a viagem em silêncio.

Pronto! Tudo certo, Dona Lívia – disse enquanto encerrava a viagem no aplicativo.

Enquanto eu saía ele me disse:

A vida é curta, dona Lívia, jamais se esqueça disso.

Apenas sorri, enquanto um irresoluto gesto escapava da minha mão direita antes de fechar a porta do carro.

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