Certo Agora, Errado Antes

Hong Sang-soo, 2h 1m, 2015

Dividido em duas partes, o filme relata um mesmo encontro com dois desdobramentos distintos; mas as duas coisas dialogam de forma a expandir as ideias secretas do autor do filme, dando algumas pistas sobre as potencialidades dos encontros sob a tutela das nossas emoções e intenções, forjadas por um jogo de interesses e improvisos, que vão se abrindo a cada gesto, a cada olhar, a cada tom de voz, ou se fechando a cada um dos acidentes que perfazem todo o caminho, como um árbitro, validando ou invalidando as jogadas que alterariam ou não o fluxo da partida.

Ham Cheon-soo chega, devido a algum erro de comunicação, com um dia de antecendência na cidade em que vai exibir seu filme. Vindo da capital Seul, além de exibir seu filme ele terá de palestrar algo sobre seu trabalho. depois daquela exibição, num processo típico de festival de cinema. No auge do tédio ele avista uma moça bastante bonita, Yoon Hee-jeong, e ali começa a sua sutil caçada: ele passa a calcular um modo de forçar um encontro, procura um jeito de cruzar o caminho dela, quem sabe puxando uma conversa qualquer. O filme, na sua primeira parte, é conduzido pela voice-over de Ham Cheon-soo, que vai deixando sutis sinais aqui e ali sobre sua persona. Na segunda parte não: acompanha-lo-emos sem o privilégio desse recurso, e, portanto, somos levados propositadamente a cometer alguns erros, já que fomos abandonados aqui a um novo fluxo, e quando nos damos conta da ausência do voice-over o filme está perto do fim.

No templo ele fica de campana. Quando a srta Yoon Hee-jeong senta-se ali por perto ele não perde tempo: em ambas as partes é ele quem inicia o diálogo. Pequenos detalhes variam em ambas as partes mas o que se sucede nas duas, após esse primeiro contato, é a sequência no café onde conversam trivialidades, e ele mantém seu olhar transbordante, o gesto impaciente, tudo na tentativa de fazer com que ela compreenda a dinâmica do afeto que o perturba, ou melhor: ele quer que ela perceba o quanto a sua beleza o encanta e como ele, enfeitiçado por tamanha graça, não consegue mais escapar dela. No ateliê da srta Yoon Hee-jeong as duas partes do filme se distanciam uma da outra e dali por diante a divergência entre as duas se tornam mais clara, menos uma coisa: o duplo encantamento que passa a predominar: o dele pela beleza dela e o dela pela forma como ele, enquanto atua, demonstra o efusivo e recente afeto e como, por conta de tudo aquilo, a envolve naquele jogo. E assim ela vai usufruindo dos olhares dele, deixando-se à mercê de ser sugada pela espiral. Na primeira parte do filme ele é oralmente menos interessante, recorre a recursos fáceis e até preguiçosos, e só depois entenderemos aquela automática análise da arte dela no ateliê: não sei se na primeira parte o arrebatamento pela beleza da moça é mais forte que na segunda parte e por isso ele atue de modo menos racional e mais displicente, ou se aquilo é como uma ferramenta necessária para, nessa primeira parte, sua estratégia de conquista, talvez percebendo a profunda solidão da moça imaginasse não ser preciso muita coisa para conquistá-la. Fato é que na segunda parte ele age com mais sinceridade, revelando, quando questionado sobre o quadro que ela está pintando ele tece uma leitura que ultrapassa o âmbito artístico e que invade a vida pessoal da moça, entrelaçando as duas coisas pra concluir que a arte dela precisa resolver todos os entraves perceptíveis, ou no mínimo se acertar com isso, pra alcançar um caminho mais claro e atingir um objetivo mais justo. Em ambas as partes ele consegue causar fortes impressões na moça.

Não a percebo apática em nenhuma das possibilidades levantadas pelas partes do filme: ela também está atuando, usufruindo do desconhecido, está deixando o jogo acontecer. Ela talvez estivesse tão ou mais entediada que ele (e nada tendo a ver com solidão) naquele dia frio. No bar há outra cisão ainda mais abrupta: na primeira parte ele mente, investe na irresponsabilidade diante da beleza dela, bebe com voracidade, e os dizeres saem pela sua boca sem muito apuro mas com muita intensidade: ele a corteja o tempo inteiro, e ela se sente lisonjeada e atraída por aquilo; num dado momento ela o provoca a expressar o quanto a vê como mulher e ele diz ser impossível se expressar por palavras. Parece fugir delas, das palavras, ou fugir de um uso mais formal, e prefere se valer delas com desleixo e parcimônia: por isso investe mais no olhar e na entonação, até sendo demasiado repetitivo mas também se valendo disso como meio de fazer com que a sua sinceridade prevalecesse diante de toda a beleza da moça. Na segunda parte do filme, também no bar, ele parece mais sincero, assim como foi diante do quadro no ateliê, e agora quanto ao fato de ser casado: e ali as suas emoções transbordam, indiferente aos constrangimentos que poderiam causar. Ali ele é mais generoso ao se expressar com as palavras e o encantamento continua lá, intacto, às vezes até com a mesma força, e esse encantamento é como o centro nevrálgico do filme.

Em ambas as partes ela reclama da falta de amigos verdadeiros (talvez contagiada pela energia do encontro, ou apenas entrando por entrar no jogo). Na sequência seguinte, na primeira parte principalmente e na segunda de forma mais sutil, quando durante o encontro na casa de uma amiga, é possível perceber como são mesquinhas e egoístas aquelas pessoas que participam do círculo de vivências da nossa protagonista Na primeira possibilidade elas desmantelam todas as peças do jogo: o que ele disse sobre o quadro, uma delas revela, parece ser recorrente em suas entrevistas, a amiga afirma que havia lido nalgum lugar aqueles mesmo dizeres, e mais: ouviu por aí que ele é um mulherengo inveterado e, ainda por cima, que é casado e possui filhos. A srta Yoon Hee-jeong permanece com o olhar rígido, porém distante, parece atônita, o jogo foi encerrado ali, ela diz precisar descansar e sai da sala. Não sei se o desapontamento dela é com as amigas que intervém onde não precisava, uma vez que estava tudo sob o seu controle, ou com o diretor, que ao se valer de uma manobra tão medíocre causa todo aquele constrangimento: ou quem sabe com as duas coisas ao mesmo tempo. Na segunda parte a srta Yoon Hee-jeong já está tirando um cochilo quando ouvimos as amigas exteriorizando as suas ressalvas e depois o elogiando como se, por fim, tivessem chegado à conclusão de que, ao contrario do que pressupunham, ele era um homem bom. De repente Ham Cheon-soo, o nosso personagem-diretor, põe-se a atuar e promove uma cena inusitada, horrorizando as duas mulheres. Ainda nessa segunda parte, depois abandonarem o jantar na casa das amigas, andam pelo frio, dando sequência ao encontro, parece madrugada, ele vai até perto da casa dela, ela o beija de maneira desconcertada, quase inocente, ele não esperava por aquilo e a cena se torna uma das mais cômicas do filme: e então ela corre pra casa e promete que logo voltaria e lhe daria um outro beijo, um beijo melhor que aquele. Talvez algo parecido poderia ter acontecido na primeira parte do filme, caso as amigas tivessem sido mais tolerantes quanto ao jogo em andamento e ele mais cuidadoso. O final, ou melhor, cada um dos dois finais, carrega a energia resultante da aventura anterior: no primeiro ele está mais sisudo e áspero, vocifera, depois de questionado diante de sua platéia, quanto ao alcance das palavras, da incapacidade delas expressarem verdadeiramente algo, como se fossem elas o entrave que perturba a verdadeira comunicação; enquanto na outra parte ele parece mais solícito e até mais generoso: mais servil ao poder das palavras. Um detalhe interessante acontece quando, na primeira parte, após a catástrofe do debate, ele, que havia confrontado o valor dado às palavras na mesa de debate e que havia, quanto às mesmas palavras, sido reticente e até irresponsável no dia anterior, as utiliza, quase que poeticamente, para de alguma forma dar incentivo a srta. Bora, que no início do filme havia pedido uma chance de ser sua assistente, mesmo já tendo trabalhado em alguns filmes antes ela não se sentia segura para tocar um projeto por si mesma. Na segunda parte eles mal se falam ao final, há inclusive um distanciamento. E percebemos as diferentes consequências que silenciosamente se alastram ao variar das resultantes.

Por vezes tento entender qual sentimento norteava o protagonista: um encanto profundo e verdadeiro pela beleza da moça ou tédio e um vil desejo pelo jogo? Fazendo um movimento de subtração entre as partes fico meio receoso, percebo, pela diferença, que no final das contas as coisas não oscilam tanto assim, e que em cada uma das partes do filme, os acidentes geram desvios e esses desvios nem são lá grandes coisas, e ao mesmo tempo penso nas duas partes como uma só, já que somos essa aventura interior ininterrupta: estamos escolhendo o tempo inteiro e colhendo as consequências dessas escolhas, mas não é tão simples e linear como propõe a junção das palavras na última sentença: a coisa se dá por meio de uma tempestade avassaladora apesar da quietude dos gestos envolvidos. O filme parece não se interessar pelo duo verdade/mentira e joga toda sua luz sob as intenções, os acidentes e acasos, que vão se dilatando ou se subtraindo de acordo com a energia do momento seguinte. As intenções, aqui como um personagem principal, se revelam pelos tons, pelos olhares, pelos gestos, e elas precisam ser remanejadas, refeitas, reestruturadas em frações de segundos diante de cada possível entrave que possa surgir! A srta Yoon Hee-jeong inicia a sua aventura ao perceber o diretor mais pelas imagens que seu corpo fornece, e isso desde os primórdios do encontro, do que pela configuração de um vocabulário que vai se mostrando recorrente, e é diante dessas imagens que ela vai decidindo se é possível crer apenas nas ficções que surgem das sequências de imagens que saltam dos gestos do diretor ou se é preciso desviar das mesmas imagens forçando-o a criar outras imagens, ou forçando-o a se valer do uso das palavras, para complementar as imagens corporais, investindo mais tensão, mais força, pra ver como ele sai daquela armadilha.

Mas antes de resolver de vez o enigma, eu me estaciono entre as duas partes e as lembranças do filme vão oscilando, mas o que prevalece é esse entre-estar irresoluto, essa posição arredia que estanca entre as duas partes validando-as, sem conseguir se resolver de vez, e isso dura todo o dia após eu ter assistido o filme. A realidade é linear e bem mais severa, diferente da malemolência que o cinema consegue arquitetar ao contar uma história. Mas essa reflexão proposta pelo filme me faz perceber o quanto tudo está carregado de nós mesmos, e só isso: nós em tudo, em todas as coisas, em todos os gestos, em todas as imagens, o tempo inteiro, e isso independente da estratégia escolhida para enfrentar seja lá qual aventura desconhecida, e como as coisas vão sempre depender do que os pequenos acidentes vão nos proporcionar; tudo oscila muito, tremula com muita força, como as folhas do coqueiro mais alto recebendo do vento a notícia da proximidade das chuvas de verão, e o outro, o encontro, é o vento, e a possibilidade de chuva, o provocador de toda ação.

Ok, nó somos possibilidades, intenções, tensões, oscilações, mas o que em verdade em verdade sabem as palavras sobre tudo isso, já que elas não conhecem o que é este precipício-presente? A realidade se dá com as escolhas, as decisões, e disso ou uma ou outra consequência, extraídas de um leque de inúmeras coisas possíveis, irá nos acontecer por conseguinte, mas é certo que uma consequência será evocada por uma de nossas escolhas: mas dentro da gente ficam tantas outras possibilidades que poderiam ter sido, que desejávamos terem sido, e que talvez vão se acumulando, como entulhos, como resquícios e até arrependimentos e talvez por isso continuem tentando ser, tentando sair, encontrar onde se desmanchar, e se embaralham aos novos atos, complicando a prática do bom senso, tornando o jogo todo uma bagunça danada. O que resta do filme em mim é isso: olha como a gente funciona, quer dizer: como tentamos fazer as coisas, como inventamos nosso caos, e como seria a vida uma coisa chata sem essas incertezas todas. Sem a coragem de provocar esses encontros. É preciso aprender a participar de todo e qualquer encontro com a maior das boas vontades.

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