Breve Nota Sobre Arábia

Affonso Uchoa e João Dumans, 2017

Texto escrito sob o calor da exibição de Arábia no Festival de Cinema de Brasília, em 2017, revi o filme tempos depois e outras considerações surgiram, mas não vou alterar nada neste texto: primeiro porque sinto nele uma certa energia, e ele é também quase uma fotografia daquele instante, a captura de uma força, um registro de um momento, escrito sob uma forte emoção, algo que foi importante naquele momento)

São tantos os filmes hoje em dia que assumem uma postura política que visa subverter as limitações do enquadramento para ganhar força nos corações dos expectadores e, assim, startar um processo mais duradouro de reflexão, processo esse que sonha em influenciar os atos dos que enveredam por essa reflexão iniciada, mas que, mesmo havendo algum esforço honesto em alguns desses filmes que assumem essa postura política em voga, falham quando sucumbem ao enquadramento, não conseguindo nada mais que, e isso durante os debates pós-exibição, levantar fervorosas discussões especializadas e pontuais, (e sempre se amarrando aos festivais que se inserem), para logo serem esquecidos sem que alcancem outras paragens.

Arábia conseguiu me atingir como há muito um longa nacional não me tocava. Sinto ele durando em mim. Percebo que ele vai e volta no meu pensamento. E isso porque parece que há uma dimensão na gente que não se compreende bem, que é misteriosa e difícil de acessar, e sinto que o filme se aproximou e pincelou algo: ali onde os atos se formam ou se recompõe, que visam encontrar o mundo, desejar o mundo, chocar com o mundo, mas que se emaranham, se confundem, quase se perdem: e antes de se desfazerem de vez partem em direção ao mundo, completamente modificados.

E você vai desvendando (recordando?) esse processo abstrato de ordem psíquica pelos acidentes que compõem a vida do personagem do filme, um trabalhador que não possui um lugar fixo no mundo, jogado de um lado a outro pelos acidentes: e sinto tudo como se eu conseguisse assumir o seu lugar, é como se sentisse que aconteceu algo parecido comigo, já que toda a solidão do personagem me parece muito familiar.

A política que não compreende as solidões, os acidentes, os impulsos, os medos, a falta de perspectiva, os sonhos que se desmancham; a política com um inimigo bem definido, a política rígida e segura do que devemos fazer pra vencer o caos do mundo: são tantas as coisas díspares que posso evocar pra compor um quadro confuso, para com essa confusão conseguir sugerir a desordem onde cada ser humano formula sua resistência e pensa a sua luta, sem fugir da luta pela sobrevivência, as contas do dia a dia, saúde, lazer, tudo que nos falta… Vivemos tempos urgentes, todos dizem, e essa urgência é a desculpa perfeita para se resumir essa complexidade e dar ao desejo de uma luta definitiva, onde o mal por fim será esmagado, mais potência, criar com ela uma legitimidade, inventar com ela um sentido pro mundo. E mesmo aí vemos uma das facetas do humano, vemos nossa tragédia se desenhar: esse desejo de vitória definitiva sobre algo diluído e vasto: o mal.

Arábia, na solidão da aventura de um trabalhador brasileiro, me apresenta um Brasil único, áspero, com seus caminhos emaranhados, um país amargo, cruel, e tudo ao mesmo tempo; nele percebo a dinâmica das emoções que vão sendo domadas por nós mesmos, de forma a evitar maiores sofrimentos para que se possa suportar a aventura de dor e falta que tá a nos esperar todo santo dia no mesmo lugar de sempre e que determina tudo ao nosso redor…

Eis aí um filme estranhamente político, um filme que é como um espelho, e ao me ver nele sinto vontade de gritar e soluçar e deixar tudo aquilo extravasar, quando na verdade já está extravasando: o filme me faz perceber algo que já está em movimento e depois, quando saio da sessão, sinto vontade de olhar pro mundo com outro entendimento, que já estava aqui mas que eu não conseguia assumir porque eu também queria simplificar pra vencer o inimigo, sendo que não há um inimigo: o que há é isso aí, a vida com tudo que lhe é possível, pro bem e pro mal, e que parece nos escapar do entendimento pra voltar em pequenas doses, minúsculas pedras no sapato, formando, com o tempo, grandes obstáculos…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s