Um Assassinato Qualquer

Um boteco é como uma zona livre, um espaço autônomo perdido nas entranhas da cidade: ideias irresponsáveis, casos fantásticos, personalidades em ebulição, e o companheirismo que parece se afirmar autêntico e livre das amarras da competição, e às vezes o oposto também, como uma guerra fugaz e furiosa, uma tempestade assustadora que de repente se desfaz para que tudo volte ao normal, por pouco tempo. É o melhor lugar para se estar e ir desaparecendo aos poucos. Dá pra aprender muito, apesar da teimosia e da resistência que o álcool edifica e sustenta, mas que não é impossível de se vencer, desde que se saiba como e quando ceder.

Foi numa dessas que me perguntaram se eu já havia matado alguma vez na vida. Disse que não. E o sujeito resolveu ser mais específico: queria saber se eu já, com minhas próprias mãos, havia tirado a vida de outro ser. O álcool tira o estranhamento de tudo e faz com que você participe dos jogos que surgem sem ressalva alguma. Perguntei se vermes e baratas serviam. Era uma piada, mas ele não sorriu. Então respondi, cedendo à sua feição endurecida, que não, que nunca havia tirado a vida de nada, a não ser insetos ou bichos peçonhentos que invadiam minha casa nas épocas de chuva. Ontem experimentei algo do tipo, ele me disse e deu um gole na cachaça e depois um longo gole na cerveja, que estavam dispostos na sua frente como os cálices de hóstia e de vinho diante de um padre em plena missa. Eu tive de fazer, não tinha outro jeito! O vira-lata vivia adoentado, eu precisava, tá me entendendo? Precisava de ser feito. Meu moleque saiu pra casa de uns amigos, jogar bola, sei lá, era finalzinho de tarde, aquele crepúsculo melancólico… Foi quando decidi matar o bicho. Peguei um saco, uma sacola, algo pra sufocar, cortar sua respiração; se eu fosse me matar, pensei na hora, enforcamento, recorreria ao enforcamento! Sempre essa coisa do enforcamento né… Tive um amigo que chamava a corda de solução, dá pra acreditar?

Ele fez uma pausa.

Então cara, procurei as luvas do meu trabalho e não achei, na pressa decidi que não precisaria delas. Coloquei o primeiro saco que achei, de um supermercado lá de perto de casa, e coloquei na cabeça do animal, e a logo do mercado ficou bem no focinho do bicho. Ele sabia o que ia acontecer, se debatia, mesmo cansado ele extraiu energia sabe-se lá de onde. Senti pena, mas fui em frente, seria pior deixar o bicho ali, daquele jeito, mais uma noite de sofrimento, meu filho chorando no meu pé, pedindo pra fazer alguma coisa. Com o saco na cabeça passei a mão no pescoço do bicho. Coisa estranha, cara, bem estranha.

Tomou outra dose de cachaça e depois outro longo gole de cerveja. Reiniciou a sua história sem parecer mais bêbado, ou menos lúcido.

Ele se debateu e muito. Então concentrei e apertei ainda mais forte. E fiz assim ô!

Desenhou no espaço vazio com um gesto, como se torcesse uma roupa recém tirada da máquina de lavar e consegui imaginar o bichinho desvanecendo.

Ele foi parando de se debater e eu fiquei assim, sabe, segurando ele, sei lá, por uns cinco minutos ou mais. O corpo do bichinho foi endurecendo, endurecendo até que endureceu de vez. Eu respirei, pronto, resolvido. Foi um alívio estranho. E o bicho ficou ali duro no chão!

Ele parou de falar e ficou pensativo. Aquilo me causou uma forte impressão, a imagem se estabeleceu com força na minha imaginação e me senti cúmplice de tudo aquilo.

E aí? perguntei, mesmo sentindo ultraje na pergunta eu a fiz. Uai, ele respondeu, matei o bicho e joguei fora. Mas o que cê sentiu depois? ele respondeu indiferente: Nada. Matar não é nada disso que falam por aí não. O processo é penoso, precisa de força, mas se tiver um pouco de determinação, já era. Por isso se mata tanto pelo mundo, não tem nada demais. Você pode matar outro ser e ter duas reações, culpa ou indiferença. Eu não senti nada. Você precisa passar por isso pra entender a vibração, só passando, tá me entendendo?… Ele continuou seu ritual diante das bebidas e eu permaneci em silêncio.

Outro cara que tava por perto iniciou sua contestação, mas aí eu já tinha perdido o clima. Algo se instalou no meu espírito. Enquanto o outro falava sobre moral e Deus e a diferença entre matar seres humanos e animais, eu evitei o embate, decidi ir embora. Tava ficando tarde. Na rua a chuva me pegou desprevenido, tive de correr, cheguei em casa já quase curado da embriaguez: tinha esquecido completamente da história do cãozinho.

Mas ela voltaria em sonho, numa das noites seguintes, com todas suas cores preservadas, aliás, com muito mais contrastes.

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