Cópia Fiel

Abbas Kiarostami, 2010

Cópia Fiel parece mergulhar na neurose européia, ou no modelo europeu de viver e entender a vida, sempre de mãos dadas com sua rica cultura. Ali, me parece, Kiarostami não quer saber pra que serve a arte mas sim por que entender e consumir arte de uma certa maneira. Ele parte do mote da cópia. Vemos um homem e uma mulher se tornarem um casal, sem o ser. O autor prova facilmente seu ponto de vista quando percebemos naquele jogo a transmutação, quando reconhecemos ali, por alguns instantes, um legítimo casal, apesar de ainda ser apenas um jogo, dentro de um simples filme, que simula o real, quer dizer, outro jogo. Que diferença faz se não são um casal se quando fingiram o fizeram tão bem que inclusive consegui refletir sobre as coisas próprias de um casal? A arte como um veículo que nos desloca até zonas desconhecidas, onde podemos ter experiências que refletem ou não as nossas vivências: que são meros espelhos ou buracos escuros que nos hipnotizam. Mas a arte é tratada como um fetiche, e também um objetivo, uma meta, e um movimento de separação! A arte eleva, destaca, possibilita o encontro com algo superior. Ao acessá-la é como se destacar de tudo o que é comum aos párias desta terra devastada. Mas ao mesmo tempo que se imagina alcançar essa elevação não acontece elevação alguma, nem se destaca de absolutamente nada, tal desejo e ilusão é apenas mais um indício da neurose que contamina o usufruto do objeto artístico.

O crítico de arte, quando no porão-galeria, logo no início do encontro, ao dizer que não é bom ter objetos de arte em casa, talvez queria se referir a essa separação, quando o mais adequado seria a nossa presença real e intensa (Mano Brown, op. 2002), diante de tudo o que nos acontece, evitando o pedágio de nada que não dê conta da mais simples banalidade do dia a dia: e por conta dessa paranóica ideia de elevação e distanciamento a gente não consiga, na real, aproveitar a arte como deveria: e assim ela se torna um mero empecilho.

A boa arte deveria ser algo que nos levasse de volta pra vida, simples assim: perceber nela o reflexo de algo que estava na vida mas não percebíamos, mas que graças ao encontro artístico uma mudança acontece. Entendido que há essa coisa de arte sagrada, fechada em si mesma, cheia de empecilhos para alcança-la, mas que quer justificar, por conta da sua sacralidade, as inerentes dificuldades de acesso, não vejo nada que nos ensine a olhá-la de outra forma, longe dessa neurose, distante dessa pretensa ideia europeia de arte. Há instantes, que imagino ser momentos onde Kiarostami arma algumas das suas, quando, por exemplo, a protagonista vai saber a opinião de passantes sobre certa escultura, e o protagonista passa a observar uma moto: é uma motocicleta dessas de motoclube, toda imponente. É como se isso lhe chamasse mais atenção, lhe interessasse mais. Talvez pela função, talvez pela possibilidade de deslocamento, de viajar, de sentir o vento no rosto, de ver, viver, sentir-se vivo. Um meio pra uma porrada de experiências! E nisso me lembro que era esse seu desejo, logo que entrara no carro, no início da aventura: perceber o mundo, ter algumas experiências por aí, mas acabou se perdendo nas duplicações de uma vida ruidosa e maçante.

Mas nós temos nossa experiência como espectadores, podemos refletir a partir de todas as armadilhas deixadas por Kiarostami: um filme que tende a revelar sempre algo novo a cada nova visita. Claro, no que concerne ao relacionamento homem e mulher há muita coisa ali também, com possibilidades de leituras que podem ou não demorar a serem feitas, mas que exigem um novo texto. Mas o que prevalece em mim é uma tentativa, do autor, de esvaziamento dessa coisa chamada arte, da forma como é imposta.

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