Um Alguém Apaixonado

Abbas Kiarostami, 2012

Em Um Alguém Apaixonado o tema que prevalece é a violência. O filme parte da disputa entre dois homens, um velho e um novo. Da primeira vez que vi pensei na moça como o tema central da disputa, mas depois percebi que eles não dão a mínima pra ela, são ambos vaidosos, e ela um mero troféu. Um, o velho, com todo o aquele conhecimento, aqueles livros, a importância que outros na sociedade lhe dão, um doutor; o outro, o rapaz, com a total ausência dos saberes que vem dos estudos, um fracassado que não se deixou vencer pelas vicissitudes da vida, um anônimo, que forçou um lugar no mundo e teve sucesso na sua empreitada. Um é doutor em sociologia. O outro é a rua, a vida prática. Ela é o elo entre os dois, um acaso, ou a força que os atraiu, apesar do filme nunca a tratar assim. O doutor está escrevendo outro livro sobre violência nas cidades, tema que, pelo menos é o que parece, muito lhe interessa, e isso não impede que ele se torne uma presa fácil, que caia na armadilha sem nem se dar conta de que caíra num ‘experimento’ sobre violência.

Na sequência dentro do carro, enquanto a moça está fazendo sua prova, os dois conversam, depois que ouve as justificativas do rapaz quanto ao casamento com a moça, ele assume uma postura de sutil arrogância, de quem possui a resposta pra todos os males: a experiência é a chave. Chega a ser patético perceber o professor diante de tudo que ele mesmo provoca por aparente desconhecimento e por pura prepotência, como um tolo: todo aquele conhecimento e toda aquela tolice… Ao não se importar pelo que o rapaz lhe revela, não entrever a sua vida pregressa, reconhecer a particularidade dessa vida, o sociólogo se perde diante de sua paixão e, concomitantemente, perde o combate. Mas a verdade é que o doutor sai em desvantagem, ele perde o duelo já de antemão, uma vez que ignora a loucura da vida real, com todas as imbricações que a teoria não consegue alcançar: talvez porque não enfrentou a vida como o rapaz, e ignore os mecanismos nefastos do tal sobreviver, e não entenda a vida como uma complexa selva, não alcançando o que significa flutuar pelas águas turbulentas da marginalidade, resistindo, em postura de combate, porque é essa a única postura que se pode ter: e é isso que o rapaz lhe argumentaria, toda essa coisa de sobrevivência, caso dominasse algum discurso! Não sei se faltou ao doutor entender ou diante da realidade ignorou as paixões como um ingrediente fundamental pro caos, não sei… Mas a paixão é o encantamento mais comum ao ser humano, e um dos fatores da frequente violência nas cidades, consequência do jogo entre desejo e falta que põe a cidade em movimento.

Pela experiência não se perde o controle, e não se é carregado pelas águas turbulentas de um presente caótico, sustenta o velho nas entrelinhas: a experiência é como um porto seguro. E assim, irresponsavelmente, ele estende a brincadeira com seu oponente, expõe a moça, que já possui tantos problemas na sua vida, a um joguete tão tosco quanto mesquinho. Vaidade. Enfim, e como era esperado, o rapaz descobre que ele não é avô dela. E sai à caça dos dois. Por fim o velho se torna um agente da violência urbana que tanto estudara. E pelo jeito não vai ter tempo de percebê-la como pesquisador, já que como ator do caos não pode lançar mão de instrumentos nem ferramentas de pesquisa, e o ator, na vida real, só pode, e apenas isso, ser levado pela correnteza atordoante do momento presente.

Ao sair pra comprar remédio pra moça ferida por um golpe que não vemos, dado por aquele rapaz furioso, o velho quase atropela uma criança e sua mãe, que distraída não percebe o carro, um quase acidente. É como se Kiarostami contestasse todos os modos de vida, mostrasse como as coisas se confundem e engolem a todos, pessoas anônimas famosos doutores e artistas, todos no mesmo barco, reféns de todo tipo de desdobramento de atos apaixonados. Mas o autor pontua com precisão. Sabe como se movimentar dentro do filme. A arte da multiplicidade: Kiarostami nos entrega uma montanha de possibilidades de reflexão, e mantem preservada a camada puramente cinematográfica que, intacta e cheia de armadilhas, assume a sua bela embalagem e reivindica seu lugar na estante da cultura e da arte. No final o velho cai, a vidraça quebrada é o fim da linha, é a morte, o preço pela, eu insistiria nessa coisa de descuido, mas vou terminar com outra palavra: aventura: o preço pela aventura.

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