Dez Curtas

Resolvi escrever sobre alguns dos curtas que gosto muito. Os revi na sequência em que surgem nos textos, segue as impressões que vão ou se desmantelando ou se potencializando, mas que parecem nunca se manterem inertes… (Há uma playlist com os curtas na sequência, onde dois deles foram excluídos, Da janela do Meu Quarto E Onde São Paulo Acaba, esse último pode ser encontrado no Porta Curtas)

Da Janela do Meu Quarto, Cao Guimarães, 2004, 5′

Talvez na vida o trágico e o cômico se confundam ou se amalgamem nos mais banais gestos cotidianos. Talvez você consiga perceber isso numa fila de banco ou observando uma brincadeira de uma criança qualquer: talvez porque na vida, parece, tudo não passe de uma grande encenação onde, ao tentarmos fingir algo, deixamos entrever tudo o que escondemos. O autor do filme parece entender bem isso. E a sua câmera é como uma ferramenta que busca encontrar algo a mais naquilo que a simples aparência das coisas tenta nos entregar. Cinema é escavação sem precisar abandonar a superfície. Se se demorar na observação do mundo você vai descobrir algo mais. E acho que é o que Cao Guimarães tenta nos sensibilizar com sua prática audiovisual: ver, rever, demorar, até que consigamos ver mais, e assim ir além.

Dias de Greve, Adirley Queirós, 2009, 24′

Aqui você encontra uma rara amostra da melancolia que contorna os traços do rosto do homem que habita o cerrado (uma variação do mesmo sentimento que habita o homem do resto do país, mas com sutis peculiaridades). O autor ou autores (algo assim não se constrói sozinho, parece exigir contribuições de mais gente) compreendem cada movimento, parecem entender bem a formação daquele mundo, parecem olhar de dentro, entendem as contradições que nos justificam. Que greve é essa?, não pode ser séria, diz um dos personagens. E é séria, tudo no filme é demasiado sério. E as frustrações que apontam lá no horizonte? E não deve ser a primeira vez que ela dá as caras por aquelas paragens. Um mal-estar atravessa todo o filme. No fundo eles sabem que nada vai mudar, mas não tocam diretamente no assunto, acho que é aqui que reside a melancolia e a beleza do filme, nesse silêncio que é sustentado com as atitudes mais corriqueiras. Não sei ao certo se durante o desfile Assis é tomado de uma vez por esse mal estar, se se dá conta dele, ou se apenas sente dores no joelho, mas parece que algo de muito importante acontece ali. Mas há o dia seguinte…

Pouco Mais De Um Mês, André Novais, 2013, 22′

Gosto desse filme porque parece encenar algo que já vivenciei, aliás, que todos já vivenciamos de alguma forma, guardadas as proporções e variações de ritmo. O filme versa sobre um entretempo, sobre o processo de se ajustar ao outro, sobre o que há de mais banal nesses processos, e também o que há de mais singelo. Percebo nele todas as minúcias que permeiam aqueles instantes e ainda as pequenas tentativas de superar os sutis incômodos que vão se escondendo e se revelando a cada pequeno gesto encenado. Se conseguirem vencer essa pequena aventura, outras virão, e assim a vida seguirá… e não é ela, a vida, uma coisa fantástica?

Nego Fugido, Cláudio Marques, Marília Hughes, 2009, 16′

Quando o companheiro entra no personagem do nego fugido, o que será que ela vê? Percebo que seu olhar de interesse muda, as mãos que seguram a câmera vai perdendo o enquadramento, ela vai se afastando aos poucos enquanto o companheiro mergulha cada vez mais fundo no personagem. Em voz off, logo no início do filme, ele diz: “a carta de alforria de cada um já esteja escrita, quem irá ler em voz alta?” Seria aquela a leitura em voz alta da carta de alforria da menina? Ou a de seu companheiro? Trata-se de um jovem casal interessado pela cultura popular, caçando seu lugar no mundo, tentando descobrir sentidos num mundo louco, e o filme parece ser sobre um fugidio instante de descoberta. O mundo é um lugar instável e de projetos simples para um dia qualquer podemos encontrar as sombras que podem nos dar as respostas que tanto buscamos.

Nada Levarei Quando Morrer Aqueles Que Mim Deve Cobrarei no Inferno, Miguel Rio Branco, 1981, 19′

Tá aí um dos meus curtas favoritos de todo o mundo. É ácido. É violento. É brutal. Quantas e quantas vielas e guetos como aqueles não há por aí neste Brasilzão de meu deus? E o que sabemos, em verdade, sobre o Brasil? O Brasil é um monstro e não sabemos nada mais que isso sobre ele; e estamos sendo arrastados enquanto tentamos escapar de suas entranhas, enquanto viramos o rosto quanto às suas vísceras, e negamos nossa responsabilidade quanto à sua construção, ou invenção. O filme de alguma forma versa sobre tudo isso. Num movimento bem pensado ele adentra com coragem no DNA desse monstro que chamamos de Brasil. Miguel Rio Branco é também artista visual, mas parece atuar como um médico que recorre a procedimentos nada ortodoxos para revelar o que não aceitamos: é como se ele dissesse: somos isso, não há pra onde correr. E assim, com seu filme, ele faz uma cisão precisa e mostra o que estamos habituados a fingir não ver, e ele corta a partir de dentro, ele também está lá dentro, nós nos percebemos lá de dentro, não há fora algum! Somos vizinhos dessas vielas, somos essas vielas. Não há pra onde fugir. O Brasil nos arrasta…

O Som e o Resto, André Lavaquial, 2007, 22′

Após chegar atrasado na igreja e levar uma bronca daquelas, Jair deixa sua música escapar de vez, e das regras estabelecidas ele faz viradas virtuosas na bateria, revelando outra possibilidade musical para exprimir sua insatisfação. À partir dali tudo começa a se desfazer. E a se consolidar. Não é a narrativa de uma derrocada, mas a de sua reinvenção enquanto pessoa e artista. Depois de expulso da igreja ele corta a cidade com sua bateria num carro de mão. E depois de vários percalços, ao parar num espaço público, ele volta deixar sua música sair. Um policial chega e Jair o enfrenta. Tudo construído com muita garra, com força, com vontade, um filme que tem esse lance de guerrilha, de desejo de dizer algo, de fazer algo. Oxalá todo mundo dissesse o que pensa expresso pela arte, ou pela indignação furiosa, como fez Jair…

Malunguinho, Felipe Peres Calheiros, 2013, 15′

O que perfaz o homem negro é a impossibilidade de encarar a si mesmo de uma maneira correta dentro de uma sociedade que prefere fingir não ter responsabilidade alguma pelos males causados aos seus ancestrais e por conseguinte à sua pessoa. Nós não nos vemos direito, porque o problema em verdade nos abraça a todos: brancos pretos amarelos índios. Vivemos tortos, se adaptando ao que insiste não nos acomodar com afeto, fluindo no que há de mais sujo e nocivo, e fazendo de conta que nada demais está acontecendo, tão acostumados estamos com o que nos cerca. O fogo no filme é algo que me incomoda muito e parece denunciar tudo o que foi dito acima. No Brasil a prática da destruição das matas parece simbolizar o anseio secreto da dizimação da culpa! sim, talvez acabando com as matas conseguirão acabar com todos os vestígios de um passado usurpado. Pode ser uma impressão errônea, mas ela vem e fica, e ainda mais com Miró da Muribeca derramando sua oralidade cheia de dor, iluminado por um dourado fogaréu corroendo a mata, que parecia ser um dos personagens principais do filme: a mata que aceita a todos e que vai sendo dizimada, talvez por isso, por aceitar a todos…

Brasília, Contradições de uma Cidade Nova, Joaquim Pedro de Andrade, 1967, 23′

Brasília foi sonhada como uma utopia e ao se tornar realidade tomou outro rumo, como é natural: a realidade destroças sonhos e utopias. Creio que o filme não revela apenas as contradições da nova capital, mas sim de todo um sistema que não está em crise, porque é a crise, ele trabalha por meio da instabilidade, ele precisa dela para se perpetuar e é por isso que continua em funcionamento, já que compreende e bem a mecânica da contradição humana, e trabalha com ela. Este filme não é só sobre Brasília mas sobre o Brasil, é uma amostra de como as coisas se dão, desde há muito tempo.

Onde São Paulo Acaba, Andréa Seligmann, 1995, 12′

É um filme mas é como se fosse uma música, um rap. É um rap, porque é também uma denúncia. Revela as particularidades periféricas daquela época. O filme é um canto contra o crime, porque não quer apenas retratar, mas sente solidariedade pelos moleques, sente que deve dizer pra quem for assistir que o perigo está na forma como você se submete ao jogo, mas também nas solidões e angústias que tão lá desde cedo roubando o sentido de tudo. Quando vi esse curta pensei no impacto que teria tido sobre a gente (meus amigos e eu que estávamos sobre influência do rap ainda quando moleque) se tivéssemos visto na época de seu lançamento. Consumíamos o que a televisão mostrava sobre o movimento lá fora, e aqui, quem carregava as informações e imagens eram as letras de rap, as batidas, a atitude. Mas foi ali que o rap surgiu, naquele lugar onde o filme acontece, daquela forma, então é um filme-atestado, um grande serviço à história do rap nacional que parece não possuir um passado pros mais novos, mas que precisa ser resgatado…

O Porto de Santos, Aloysio Raulino, 1978, 19′

È impressionante como Raulino controla os elementos do filme, como parece possuir pleno conhecimento dos valores de cada um deles: cada plano, cada corte, o tempo. E mais: ele avança, sem perder o fio da meada, enquanto desafia os mesmos elementos documentais. Quase que deixa de ser um documentário e se torna quase como uma sinfonia de imagens sons e movimento sobre o real, mas sem o estatuto de antes. Não apenas neste filme mas em quase todos de Aloysio Raulino. Ele tenta dominar o que tem em mãos e quando algo escapa sinto que ele o persegue, faz, dessa caçada, o personagem principal do filme a ser feito, pelo menos é o que me parece. É possível aprender muito com Raulino e sua obra, um dos documentaristas mais originais e que me influencia muito.

Na sequência uma playlist com todos os filmes citados.

E o Som e O Resto na íntegra e numa qualidade melhor:

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