A Derradeira Imagem de Minha Vó

Ontem, ouvindo Tristeza e Solidão de Baden Powell, veio, por fim, a imagem de minha vó no caixão. Ela vestia uma roupa corriqueira, um vestido de estampa florida; ela, miúda, estava meio desajeitada num caixão sem ornamento algum, a cor opaca da madeira dava uma impressão distante da que usualmente eu assimilava ao ritual do velório: talvez fosse a luz, ou a minha recente resistência à vê-la ali, que fora vencida pelo que minha companheira me dissera pouco antes, com um tom irresistível: Vai lá, é como se ela tivesse dormindo.

Uma mancha de sangue brotava de seu peito e invadia os desenhos florais, acentuando a beleza austera que definia aquele momento: ela havia acabado de chegar da autópsia. Na outra sala minha mãe negociava algo com o rapaz da clínica que prepararia o corpo pra cerimônia funeral. Os outros irmãos não queriam arcar com aquele gasto, achando-o desnecessário: para que o corpo passasse pelo funeral sem deformações drásticas e ainda não emanasse odores desagradáveis durante processo de decomposição que não cessaria durante o velório, seria necessário, portanto, um preparo mais cuidadoso. Minha mãe assumiu mais aquela condição. Mas ela não tinha o dinheiro ali, então minha esposa pegou um cheque de terceiro e deu pro rapaz da clínica, pedindo 20 dias pra levantar aquela quantia. Minha mãe me disse, depois, e aos prantos, que a única coisa que minha vó pedia era que não a enterrassem nem feia nem fedendo. Era vaidosa, e sentia horror de ser enterrada assim. Voltei até o caixão e minha vó lá, sustentando aquela beleza em seu tom um tanto misterioso e assombroso, silencioso e profundo.

Ontem, ouvindo Baden Powell, essa imagem voltou com uma força descomunal. Desde então, passado lá seus quatro meses desde o velório, ela ainda não tinha vindo me visitar, apesar de eu a esperar, de alguma forma: eu sabia que aquele momento havia sido algo excepcional, mas estranhava o fato dela, essa singular imagem, que havia me impressionado tanto, ainda não ter vindo me visitar. Desde então não havia pensado em nada daquilo com a justa imersão.

Minha vó era uma pessoa difícil de lidar, amarga, dura, distante. Não são poucas as vezes que me lembre das suas grosserias comigo e com meus irmãos. Seus filhos viviam em contenda eterna, traziam do Maranhão profundo suas desavenças que se expandiam de forma a acentuar em mim uma sensação de desolação diante do futuro da família. Eram muitas as brigas que testemunhei desde bem pequeno. Com o tempo me distanciei de vez. Mas minha mãe permanecia na batalha. Que eram muitas. Com o avançar da idade, Dona Rosa foi se fragilizando. E aquele fragilizar encontrava um correspondente, porque algo em mim se fragilizava também: nos últimos anos ela não era mais aquela pessoa ácida e, vencida pelos anos, e pelas contendas, eu percebia em seu rosto o desenho de todos os sofrimentos, e fixado em cada um dos sulcos que compunham seus últimos rostos, uma vida de dor e penúria. Minhas filhas gostavam muito dela, indiferentes ao que ela fora, ao que havia acontecido pelos tempos idos. Sempre achei bonito o carinho que minha filha mais velha, principalmente, dedicava à sua bisa; e como ela chorou, diante do primeiro ente querido que ela via partir.

Passado todo esse tempo veio, por fim, a última imagem de minha vó, ali num caixão sem ornamentos, com sua roupa em estampas florais de domingo. O lugar emanava uma luz esverdeada, passava das duas da manhã. Eu velei ela ali, sozinho, por alguns minutos, num raro e derradeiro momento de intimidade, de uma intimidade sem entraves, e consegui compreender tanta coisa, foi como receber algo dela: não sei bem precisar.

Ontem percebi que a imagem está preservada. E como é avassaladora, de tão grandiloquente. E nada havia se perdido nela, muito pelo contrário: estava mais forte: ela, essa imagem, é geniosa como minha vó, e deve ter se manifestado quando achou mais conveniente, me pegando desprevenido em meu esquecimento: a última imagem, a que vai ficar pelos tempos que restam da minha aventura nesse plano, uma imagem de uma beleza devastadora.

Até logo, dona Rosa.

Ontem, ouvindo Tristeza e Solidão de Baden Powell…

Fevereiro, 2018

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