Tropa de Elite e o Imaginário Reacionário

Lembro que fui na loja de um amigo e ele me mostrou um dvd pirata com um policial de farda preta na capa, nem nome o dvd tinha. Cara cê tem que ver isso, que filme foda! foi o que ele me disse. Num tinha botado fé não. Achei que era mais uma tentativa de emplacar um híbrido de Cidade de Deus com Carandiru, um subproduto mal realizado e entediante. Brasil não sabe fazer filme policial não, eu vivia dizendo, por isso nem dei moral, mas mesmo assim levei o dvd pra casa. Lembro que pouco depois daquele primeiro encontro o que sucedeu foi uma febre geral, só se falava nesse tal Tropa De Elite. Acabei vendo o filme na mesma semana e sim, era muito bom: melhor que Cidade de Deus, e bota melhor nisso, porque era mais cru, porque metia o dedo na ferida, porque era a real.

Fui pego desprevenido como todo mundo.

O ano era 2007, um ano em que já estava estabelecido um novo modo de viver no Brasil: havia internet nas casas, um computador na sala, aparelhos de televisão e dvds nos quartos dos filhos, carros populares novos nas garagens, e quem não tinha adquirido esses ítens sentia que estava próximo a possibilidade de adquirir, e por isso podia planejar; e mais: churrascos nos finais de semana com muita cerveja, os shoppings estavam cheios… era o auge de um momento em que a auto estima do brasileiro que vivia nas periferias se elevava acima da média. Era um mundo novo. A pirataria de sempre se torna, então, um meio ainda mais barato para consumir produtos audiovisuais. Era possível fazer download e gravar em casa mesmo, ou numa lan house perto de casa ou apenas ir na esquina e comprar dezenas de filmes pra tentar ver num único fim de semana. E se via de tudo. Dos filmes brasileiros Cidade de Deus era tido como um filme bem feito, geral curtia, achava massa, era bom se ver na tela, era foda ver uma boa edição num tema que merecia um bom trato. A agilidade, a sagacidade, um filme bem no estilo dos gringos, quer dizer, era possível fazer filme bom aqui, era consenso entre o povo essa constatação, e filme onde aquela reflexão complacente sobre a miséria, aquela coisa de intelectual que ama a pobreza, visão melancólica que sempre incomodou o povo, sabe? aquilo era deixado de lado em Cidade de Deus: havia violência, ação, reviravolta, heróis com a cara do povo, agindo de forma a empurrar a narrativa pr`outros ares, tendo valor realmente capital pra narrativa, era gente nossa protagonizando uma história nos moldes que se via apenas nos filmes que vinham lá de fora, mas num tom bem abrasileirado. Agora sim, a gente começou a fazer filmes, inconscientemente se pensava. Mas lá se iam uns 5 anos, e nada de um outro lançamento tão impactante.

Tropa de Elite foi um estrondo. As pessoas vivam imitando o Capitão Nascimento o tempo inteiro. Pede pra sair! Nunca serão! Você é um Moleque! Tire essa farda! Era nas escolas, no ônibus, no trabalho, em todo canto se evocava a figura do Capitão Nascimento. Já nem se falava em Cidade de Deus, havia sido superado! Tropa de Elite sim era um filme de ação tipicamente brasileiro. Havia de tudo ali! As favelas retratadas de forma realmente crua, a violência que pauta rotineiramente a vida das pessoas, os corruptos e os honestos, tudo milimetricamente misturado num panorama grotesco. Isso era o mais próximo que podia se chegar de um retrato honesto do Brasil. As pessoas não divergiam sobre o filme, era um fenômeno estranho de perfeito alinhamento quanto ao valor daquela narrativa.

Relembrando todas as características daquela época e a diluição do filme tanto no meu imaginário quanto no das pessoas à minha volta, resolvi rever os dois Tropas para ver se o que eu suspeitava se confirmava.

Tropa de Elite é um filme que te pega desprevenido de imediato e não permite um só segundo que se escape de suas garras. A voz off do Capitão Nascimento não permite uma análise mais livre das imagens, ela te conduz pro centro da imagem e te impede de olhar ou perceber outras dimensões, muito menos utilizar de sua biblioteca pessoal de experiências, fazer comparações mais profundas. Você não deve imaginar nada além do que a voz do Capitão propõe: quanto ao Matias, por exemplo, você não consegue imaginar nada além do que é dito sobre ele, quem é, da onde ele veio, ele tem família? Como ele entra na corporação? Qual o motivo de sua honestidade? Nada disso pode ser resgatado. Matias é honesto, pronto, tá resolvido. O filme não te permite escapar um segundo sequer. Não há respiro. Essa operação permite que se substitua uma suspeita, uma desconfiança pela síntese que o filme oferece: sabe-se que o mundo tá errado, que o mundo é corrupto, o filme substitui essa suspeita, toma seu lugar, oferece uma panorama do porquê tudo é do jeito que é. As pessoas entendem que algo está sendo revelado ali, alguém teve coragem de enfrentar a coisa toda e abrir o que tem lá dentro. O Capitão Nascimento era o novo herói da porra toda. Pessoas, por exemplo, que odiavam a polícia não conseguiam não gostar daquele personagem do BOPE, era algo revolucionário tudo aquilo. As quebradas, periferias e favelas que sempre conviveram com violências, carências, que sempre viveram no limite, no extremo, tiveram ali algo seu exposto de forma tão contundente e aparentemente honesta. Era impossível não gostar de Tropa de Elite e por isso foi a sensação que foi, e a pirataria teve a sua importância no processo.

Aquele recente poder de aquisição não queria dizer, ao mesmo tempo, que tinha de se trabalhar menos. A diferença era que com o mesmo trabalho de antes agora era visível um certo progresso. Mas as carências sempre estiveram ali: educação, saúde, lazer, segurança… Um trabalhador ter a sua casa roubada, ser assaltado enquanto vai pro trabalho, ou seja lá qual outra situação extrema: ser roubado logo agora que ele começava a ver os resultados de sua labuta… Isso elevava exponencialmente a revolta com as mazelas da nação! O bem durável ou não, quer dizer, seu patrimônio, tudo que ele conseguiu por via de esforços sobre-humanos, isso precisava ser protegido, e esse é a raiz do pensamento reacionário. Ele não quer voltar àquela época de antes, ele sabe quanto tudo é tão difícil. O filme traz um herói honesto lutando, de certa forma, contra tudo isso que distorce o mundo, que causa danos pro homem de bem, pro trabalhador. É a personificação da esperança e um ato vingativo: como era bom ver o mal tomando uma coça! Ver alguém metendo bala em vagabundo. O saco na cara não incomoda, o tiro certeiro na cabeça, a fala fria do Capitão mandando por na conta do Papa. Nada disso incomodava. É o cinema se tornando um lugar de vantagem pro trabalhador que vive à mercê de tantos perigos. Creio que ninguém da produção tinha imaginado todo aquele rebuliço que o filme causaria, não naquela amplitude toda. É aqui que Tropa de Elite se estabelece como um código novo nos imaginários, potencializando o que de alguma forma estava nascendo junto do novo momento econômico. Qual filme da chanchada, por exemplo, perdura no imaginário dos homens daqui? Nada. Nem o Tião Galinha do Cidade de Deus conseguiu o que Capitão Nascimento conseguira. Nada surge tão forte como a saga do Capitão Nascimento, nada surge tão forte e perdura e se dilui de maneira tão homogênea no inconsciente coletivo. Pra mim é o primeiro momento para uma abertura e consolidação de um pensamento reacionário que quase se completa com o lançamento do segundo filme. Apesar de concordar que essa não foi a única frente, outras foram tomando corpo desde então…

Tropa de Elite 2 surge três anos depois, trazendo a mesma fórmula, a mesma voz conduzindo pra dentro da imagem, impedindo que se escape para outros detalhes da imagem em movimento. O roteiro precisa se fechar, precisa funcionar de maneira ainda mais contundente, é preciso ser um filme com as mesmas características do primeiro, precisa de ação, tensão, de movimento, precisa de muita coisa indo e vindo lá dentro, o povo gosta disso, gosta de se esquecer enquanto vê um filme, e ele adora se esquecer por via de movimentação frenética, deslocamentos violentos, e também sentir algo a mais: o primeiro Tropa revela que houve um aprendizado, uma descoberta, que não foi um entretenimento qualquer. Aqui ainda há todo o rebuliço do primeiro Tropa, reverbera por todos os lados, o filme quer ser como o primeiro, é uma missão arriscada esse segundo filme. E Tropa 2 consegue se manter, consegue inclusive superar o primeiro. Mas esse superar o primeiro é também falhar naquilo que o primeiro entrega. Quando se torna rebuscado demais, mexendo em coisa grande demais, quando desce o asfalto e vai lá no coração do mecanismo, algo incomoda o povo, algo estala.

Tropa 2 levou muita gente aos cinemas. Eu assisti numa sala de cinema de shopping, lotada, e foi impactante seus efeitos. Um filme que se estabelece, que se fixa assustadoramente na gente. O bagulho é doidão mesmo, cê pensa quando sai da sessão. Mas fica algo de muito estranho daquilo tudo. Aquela melancolia te atravessa e te causa uma certa indigestão. Talvez porque no 2 esse lance de que se trata apenas de um filme te escapa, como se ele tentasse ser outra coisa de uma forma mais acintosa. É possível sentir o roteiro em movimento, as reviravoltas que saem das ruas e assumem o campo político que gere a cidade, desmembrando os poderes, expondo a merda toda: tudo que já sabemos de alguma forma ali exposto, o mesmo movimento de ocupar a imaginação, dar corpo às suspeitas, que aqui causa uma sensação que se distancia do primeiro Tropa, mas que parece um processo similar. Há uma operação no Tropa 1 que se perde no 2. No 2 é possível sentir que parece haver uma justificativa pro primeiro filme. Uma tentativa de reaproveitar aquela energia, dar um rumo pra ela. Vocês lembram do primeiro filme, e talvez a coisa tenha sido exposta de forma um tanto rude, parecem dizer os autores do filme, pra ajustar as coisas fizemos este segundo filme. E tá lá toda a simplificação bem conduzida pela voz de um Capitão Nascimento mais humanizado, mas ainda sim derramando sentenças capitais, palavras chaves fundamentais pra dialogar com o imaginário que nasce com o primeiro filme e que ainda tava por ali, à deriva. No entanto se arrisca mais, tentando dar função aos sentimentos que nascem no primeiro filme.

Há uma recessão em movimento em 2010. É o primeiro governo Dilma. O Brasil vai receber uma Copa. Há a infame construção de estádios enquanto as periferias continuam largadas às traças. Denúncias de corrupção. Tudo parece apontar para um final deprimente do governo do PT. As coisas se estacionam, parece o fim do sonho. Quem conseguiu sair da classe D pra C, e quem saiu da C pra B: quem saiu saiu, já era, agora a coisa tá um pouco mais perigosa, mais difícil. É preciso conter os gastos, a época é de recessão. Nas periferias o que se queria é um filme para se divertir, para se ver representado nele, escapar e cometer algumas pequenas vinganças, mas o que Tropa 2 oferece é algo que é complexo demais. O povo sabe que essa complexidade não é divertida, é preciso trabalhar demais e há tempo de menos para se refletir sobre tudo aquilo que o filme propõe: continuam os problemas na saúde, transporte, segurança, educação, há todas essas coisas que nunca se resolvem: como ter de encarar essa corrupção, esse problema natural do cenário político, que é esse Outro Inimigo que o subtítulo do filme propõe? O povo não possui ferramentas para resolver essa questão. Mas Tropa 2 se mostra um filme amplamente consumido pela nova classe média estabelecida, uma classe média que ainda mora na periferia, que não corre risco com a recente recessão, mas sabe que o problema uma hora ou outra pode lhe alcançar. Contudo o filme não é mais uma unanimidade. Mas ele parece solidificar esse imaginário reacionário: essa classe média reflete por via da voz do Capitão, toma pra si as palavras que evaporam do filme para realidade: e assim como no primeiro eles discutem fervorosamente cada aspecto do filme, longamente nos encontros com seus iguais, adicionadas a outras coletadas pela internet, filtradas de forma equivocada, e esse ato de falar aqui parece conter uma outra característica, o tom se torna afiado, conversar sobre tem que ser se manifestar de forma acintosa, se mostrar revoltado, gritar se for preciso.

É o fim de uma experiência que começa a gerar frutos estranhos. Os Tropas e suas verdades ligeiras pronunciadas de forma dura, contundente, ascende um pensamento imediato e de fácil aceitação, e as pessoas querem pensar, precisam pensar sua realidade e não sabem como, nunca tiveram métodos, trazem desde sempre os problemas da escola, da educação, não possuem leituras, interpretação, mas precisam pensar, precisam refletir, e o filme aponta um rumo, inicia algo que depois o Facebook e Whatsapp resolveriam de bom grado.

O filme não parte mais de um lazer inofensivo para compor imagens importantes no imaginário desavisado, Tropa 2 parece nascer para ocupar efetivamente a suspeita dos desavisados da nova classe média que querem entender, querem uma luz para sua angústia, para combater o medo de perder as suas conquistas. Uma classe média que tem no seu DNA o sofrimento, que entende o sofrimento e a dificuldade, veio de baixo, e esse medo torna essa nova classe média num bicho feroz, como o é e sempre foi toda a classe média nesse jogo que compõe a estrutura do sistema em que vivemos.

E eis que vem 2013 e suas ruas cheias, Copa do Mundo, 7 x 1, a queda da presidente Dilma. Impeachment. Temer. O mundo continua produzindo a si mesmo enquanto caos, mas é notável a contribuição da franquia Tropa de Elite dentro desse cenário desolador para construir uma justificativa das coisas, e como pavimenta o caminho para personagens funestos sequestrarem os anseios, desejando capitanear a república, com as justificativas mais rasas e imediatas, se valendo de tudo aquilo que aparentemente parece fazer muito sentido.

10 de Outubro de 2018

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