Lara

Não daria o braço a torcer. O marido conhecia bem o gênio dela, e por isso mesmo sabia que não adiantaria nada tentar explicar coisa alguma.

– Isso mesmo, saia, saia, me deixe em paz! Saia!

Assim que ele saiu ela permaneceu sentada, repetindo a postura de sempre: recolhia as pernas para cima do sofá como se sentisse frio e olhava para a estante como se ela fosse o ponto de partida para outro lugar. E naqueles instantes seus pensamentos poderiam alcançar lugares ainda mais distantes que o infinito. Mas havia o marido, força motriz de toda desagradável situação.

– Maldito!

Ficou remoendo o acontecido durante um bom tempo.   Na mesma posição.  Ele voltaria meio ébrio. Faria alguma graça. Tomaria banho. Pediria o jantar. Caso não tivesse –  uma vez que isso explicasse a gravidade da briga – ele tomaria um banho e se deitaria, manso.

– Maldito!

Passou a pensar em se vingar. Mas como?  Sempre a mesma coisa, os mesmos pensamentos, a mesma postura.

– Um dia esse otário vai ver só! Mas…

Mas por que não agora? Ela pensou.

– Quer saber?

Desfez a postura de uma vez. Um pequeno rato estava havia um bom tempo parado no meio da sala observando ela e seus pesares. Depois da primeira manifestação de asco dela, um sufocado grito de desespero,  ele passou a mexer o focinho como que tentando decifrar aquela nova postura.

– Ah bicho nojento! Socorro! Sai sai!

Mas nada, o ratinho permaneceu no mesmo lugar. Tentou se abaixar pra pegar o chinelo. Mas sentia repulsa, tanta repulsa que não completava a ação. Ratos e baratas eram as coisas das quais mais sentia nojo. Certa vez tomara coragem e tocara numa cobra de estimação na casa de uma prima, estava meio embriagada e o pessoal da festa havia insistido muito. Mas se fosse uma barata ou rato ela não aceitaria o desafio nem estando muito bêbada ou que estivesse em jogo muita grana.

– Ai ai, sai bicho, sai!

O rato fez menção de ir até o sofá!

– Não não… sai sai!

Ele avançou um pouco mais.

– Sai daqui, SAI DAQUI!

Começou a dar pulos no sofá. O coração acelerado faltava sair pela boca; desesperada, começou a berrar e chorar enquanto sapateava em cima do sofá.  E fez aquilo por um bom tempo. Talvez a comicidade da situação deva ter assustado o ratinho: ele desapareceu como surgiu, sem que ela percebesse.

Ela sentou no sofá e ficou soluçando. Manteve os pés encima do sofá e foi se acalmando aos poucos. Voltou o olhar para estante como se dali conseguisse atingir o infinito.

Algum tempo depois o marido abriria a porta da sala.

– Ainda, do mesmo jeito? Quando vai passar essa raiva? Olha o que eu trouxe pra você… Olhe aqui…

Mas ela ficou do mesmo jeito, pés recolhidos sobre o sofá e o olhar fixo na estante.

– Só você mesmo, Lara, Só você! Vou tomar um banho…

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