Breve nota sobre Temporada e a complexidade do banal

Temporada, André Novais, 2019

Juliana senta-se ao lado do amigo que está olhando o lago, ela coloca as sacolas de compra no chão, se ajeita ali, parece manhã de sábado. O amigo fala de seus problemas, Juliana escuta como se escutasse a si e a seus problemas. Ela se dá conta de algo ali, algo que foi acontecendo, aos poucos, de forma sutil, Juliana se torna Juliana, é o ponto alto do filme.

Temporada me fez revisitar momentos parecidos com aquele. Deslocado no mundo, procurando trabalho, um vazio imenso, de empresa em empresa, manhãs frias caminhando por canteiros secos, carros indiferentes cortam o asfalto, caminho com currículos na mão, sem norte, perdido. E ao encontrar trabalho e ao encontrar no trabalho novo um grupo de pessoas, ir aos poucos sendo acolhido, assimilando e sendo assimilado, tentando maquiar todo gesto de desespero, o deslocamento não pode ser percebido, tentando deixar outras coisas à mostra. Os risos, as brincadeiras, as tentativas de vencer a primeira distância, e tudo sem se dar conta que perdeu o controle do ritual. Sou percebido com tudo o que carrego. Solidão é coisa que grita, que desmancha os gestos, que empurra e atrapalha os passos. Temporada me parece ser também sobre esse momento, sobre companheirismo volátil, sobre amizades singelas… Juliana tem de subir uma escada, vencer o medo de alturas, o dono da casa não alivia, a provoca, e ela sobe, vê o mundo de cima… E após aquele encontro na beira do lago a gente vai se lembrando dos momentos em que Juliana estava avançando dentro de um mundo novo, tudo volta com muita força depois do encontro com o amigo na beira do lago, o tempo pregresso parece gritar na nossa memória, acabou de acontecer tanta coisa diante dos nossos olhos, tudo se torna novo, Juliana se torna outra, apesar de ser a mesma. E é difícil explanar sobre isso, o que é se tornar outra ainda que a mesma? Como vencer aqui essa abstração que é também uma derrota da palavra? Tudo aconteceu no filme, e a imagem em movimento conseguiu dar forma a tanta coisa, e é difícil reconstruir isso agora com palavras e passeando pelas lembranças do filme que ficaram em mim. Mas continuamos tentando:

Como tudo se dá dentro de uma banalidade opressora: tudo é por demais plano, raso, quase sem vida, forçando um fluxo diário de apatias, acidentes irrisórios, variações climáticas, sonhos, medos, mais variações climáticas, desejos abertos e fechados, encerrados. Como tudo se dá dentro de uma banalidade inofensiva: as ruas do bairro, os moradores locais, o tempo deles que vai se tornando o tempo dela, o tempo dela que vai se tornando nosso tempo, nós passamos a navegar por Juliana, águas calmas que escondem mistérios que a câmera tenta tornar visível mas que parece falhar, mas não estanca, aprende com essa falha: ao aceitar não conseguir vencer as tramas do banal, seus fluxos incessantes, se põe a caminhar ao lado, e assim consegue sua vitória, uma vez que, malandramente, engana esse banal, porque aceita sua impermeabilidade, desiste de mergulhar nele pra saber o que tem lá dentro, mas percebe que apenas acompanhando o seu ritmo, de perto e ao lado, entendendo, lateralmente, os trâmites daquele fluxo, só assim pode conseguir algo, e é assim que consegue sua superação.

O tempo constante e lento te engana, é uma armadilha no filme e na vida.

Juliana é uma mulher comum do povo, com sua história parecida com a do povo, sonhos comuns como os do povo, mas não menos grandiosa como qualquer pessoa do povo, emaranhada numa complexa teia de pequenos acidentes que mascaram e soterram tudo que ela poderia ser e tudo que já é, mas não consegue acessar por conta dessa ditadura do banal e suas brincadeiras sem graça. A sociedade te oprime, te mastiga, e te cospe frio. Se encontrar aos destroços e recomeçar, sem saber ao certo o que aconteceu consigo mesmo, sem saber quem lhe mastigou e como foi cuspida no mundo, aprender a se reconstruir; e tudo poderia ter dado errado pra ela, mas o filme acompanha um pequeno trunfo sobre o mundo, sobre o banal, um imenso triunfo, Juliana se torna Juliana, se liberta, sem palavra de ordem, sem discurso, sem planejamento, sem cerimônia: Juliana se torna ela mesma no meio de tudo, se dando conta em intervalos de tempos, brechas de tempo, porque nada para, tudo avança, Juliana avança com tudo isso, mas de forma diferente, e ela sabe que o que ficou pra trás ficou pra trás. Mas precisa retornar com o Uno que pegou no tranco e buscar os amigos que foram de fundamental importância para todo o seu processo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s