Vermelha, ou, Notícias do Subterrâneo

O objetivo de quem se mete a fazer cinema não é tão diferente dos objetivos despertados noutros ofícios: encontrar na sua arte um lugar onde se assentar, construir sua casa, desenvolver seu trabalho, dar sentido à sua vida, se afirmar diante de um mundo caótico: sou cineasta! E então colher os frutos de seu trampo. É o que todo mundo procura, busca, deseja, em qualquer ofício. E claro que é uma batalha difícil, batalha pra vida toda: por isso qualquer reconhecimento é bem vindo. Qualquer retorno, por menor que seja, é bem vindo. E qualquer vestígio de reconhecimento é também sinal de que se está conseguindo algo nesse continente chamado cinema.

Mas há os que escapam dessa regra, desse ritmo, ou fluxo. Motivado sabe-se la por qual força, ele quer saber algo mais: não apenas se assentar, ser reconhecido e colher frutos de seu trabalho: é outra coisa que ele quer saber, e, por falta de definição melhor, ele se torna um escavador, abandona a superfície da sua arte e passa a cavucar o terreno, constrói túneis, cavernas, buracos onde cabe buracos, cavernas e túneis: passa a trabalhar no subterrâneo, é lá embaixo que pode estar escondido o segredo que faz o cinema ser o que é.

Vermelha é um documento que atesta a procura de seu autor, um filme sobre o vestígio de uma busca, sobre o cinema e o que ele oculta lá em baixo, sobre o que está escondido no seu duro subsolo.

O filme parte de uma configuração proposta pelo diretor à sua família: um teatro caótico, vertiginoso e improvável esse o de colocar entes queridos a funcionarem (trabalharem) dentro de uma ideia de roteiro, indo na direção de um filme que ainda não existe, mas depositando fé no diretor-irmão-filho de que algo possa sair daquele jogo estranho: estão fazendo um filme, o diretor e sua família.

(É engraçado que isso é sempre o que mais espanta as pessoas, surgem sempre perguntas tais: como foi filmar sua família? mas nunca perguntam à vera: como conseguiu a confiança de sua família, como conseguiu que trabalhassem pra você em um filme, sem treta, sem caos? Como se todos tivessem secretamente o desejo de filmar algo no seio de suas famílias, e procurassem alguma pista pra um primeiro passo…)

E então ele, o diretor, tendo sua família no controle (o que não quer dizer que tenha sido batalha fácil, imagino controle aqui como um termo geral, e mínimo, quase nulo, na real talvez o diretor tenha jogado mais com o descontrole, com o que não está dominado, e, prevendo os movimentos dos seus entes queridos, foi desenhando seu filme com paciência e determinação, apesar de tudo). Retomando (não vejo outra forma de escrever este texto sem pagar tributo pra pausas, parênteses dentre outros acidentes que forem tumultuando a escrita):

E então ele, o diretor, tendo sua família no controle (vide a consideração acima) reconstrói aspectos do banal, ele precisa desse banal, re-arquitetá-lo pra acessar algo. Mas precisa desviar o projeto do naturalismo ou realismo ou um misto desses dois ismos: precisa inserir acidentes, provocar situações, de sutis até drásticas, para que seus entes esqueçam que há uma outra observação acontecendo enquanto o filme está sendo feito. Quer dizer, há dois filmes que estão sendo feitos: um que seus entes encenam e outro, secreto, que apenas seu diretor suspeita. E esse filme secreto é o filme que o diretor-escavador pretende alcançar, seu objetivo: diretor cabeça-dura de tanto mergulhar dentro da terra dura desse tal de cinema, em busca de algum vestígio que comprove a existência de alguma sacralidade nessa atividade espectral, a tumultuar esse continente infinito assombrado por incontáveis fantasmas a dançarem ritmos inquietantes em telas retangulares, em prol da distração de homens desiludidos e cansados de mais um dia enfastiante de trabalho.

O que há de sagrado nisso tudo?

Mãe, pai, irmã, irmão e câmera. Uma família de cinema, reflexo de outra família real. Alquimia pura. Sublevação, decantação, uma coisa se torna outra: vemos a família de Getúlio mas também não a vemos: ilusionista, ele nos engana, nos aprisiona no visual, e silenciosamente anota tudo o que percebe no seu íntimo, malandro que é sabe como deve se portar durante a sua escavação, (porque o trabalho é constante, incessante) é o seu trabalho.

No filme as coisas vão do zero ao cem por hora e retornam ao repouso em questão de segundos, tudo é movediço, como um dia qualquer, onde tudo pode acontecer: e antes de terminar o dia um ente querido pode partir de vez, morrer, sofrer um acidente, tudo pode acontecer: o filme deixa isso bem claro, e observa de perto tudo o que poderia acontecer e o que acontece: ao terminar o filme eu pensava: e amanhã, como será o amanhã?

Vermelha tenta reconstruir um ritmo de vida numa casa, e sabe que as artimanhas recorrentes do cinema-conforto não lhe interessam: por isso a televisão se torna personagem, o sofá, as paredes da casa, o telhado, toda a casa, e amalgamado a isso o movimento de câmera, o corte ágil, o tempo fraturado: o sonho adaptado ao que pode nos oferecer o dia, ou nossa vida, ou nossas limitações. Vermelha tenta olhar pra tudo, tudo é importante na construção de sua ilusão: a ilusão de que conseguiu dar conta de tudo! Nossa percepção é lenta, e o cinema sabe disso, foi observando isso que o cinema se fez: mas na maioria das vezes joga com trapaças preguiçosas, e inventa pouco, apresenta quase nada de novo, crente que somos rígidos em nossa percepção falha: Vermelha brinca de maneira diferente, joga com o banal, joga com o meu banal, olho como se olhasse minha casa, preciso dessa referência, e o filme quase pergunta: parece ou não verídico pra você tudo isso que passou na tela? E confuso você não sabe o que responder.

Li nalgum lugar que alguém disse que o filme é como um cochilo após o almoço, e faz muito sentido, porque é o tipo de cochilo em que as coisas de casa continuam em atividade em nós mesmo com o leve ato de se ausentar da vigília após uma farta refeição, é como perceber de forma leve todas as coisas de casa e compreendê-las sem entrave. Mas pra mim pareceu também com o instante em que se coloca o café no copo e se senta na mesa da cozinha e observa o tempo morto matinal ser aos poucos animado por aquelas pessoas que vivem naquela casa, sua família. E não se sabe bem o que isso quer dizer, família, mas a vivemos, com todos os prejuízos que a linguagem não consegue definir e as vantagens que a mesma desconhece. Esse fugaz instante, entre o ato de tomar o primeiro gole de café e o primeiro ente familiar cortar a calma manhã: parece que o filme nasce também desse entretempo, antes de que o dia se inicie de fato e a máquina do mundo se ponha em movimento, e vamos aos poucos nos reconhecendo personagens nesse teatro diário de trivialidades e acidentes diversos.

Vermelha trás notícias de seu diretor em sua aventura nas profundezas dessa terra tumultuada, desse continente fantástico chamado cinema, nos mantém informados sobre a quantas anda sua busca e sua escavação, testemunhamos abismados e acomodados em nossas cadeiras confortáveis, mas sentimos o cheiro de terra e suor: algo está acontecendo no meio do nada que chamam de Goiás.

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