O Demônio dos Outros

I

Um dia Dária, a administradora de uma pequena empresa de limpeza de obras situada na última rua do bairro B., chegou mais cedo no trabalho e surpreendeu o Pastor jogando sal em todo o galpão. Esse Pastor era um rapaz de uns 22 anos, magro, com uma face sofrida, envelhecida, com trejeitos que faziam suas cicatrizes no lado esquerdo do rosto se tornarem ainda mais assustadoras. Era esforçado, mas não conseguia aprender muito, mas ainda sim tentava. Dária percebia isso e respeitava, mas o tratava com dureza como fazia com os demais funcionários. Havia se convertido havia pouco tempo e já se tornara auxiliar de pastor. Se convertera ainda na prisão, e quando conseguiu a liberdade saiu com um lugar garantido na congregação. O líder da comunidade havia descoberto o rapaz durante os cultos na cadeia municipal, e dedicou muita energia para que ele seguisse o caminho evangélico: havia percebido que o rapaz era inteligente, bem articulado, e poderia desenvolver com muita facilidade o dom da palavra. Assumiu como pastor auxiliar e logo seria pastor adjunto, mas já pregava nos cultos de quinta, estava indo bem, mas ainda não podia ser remunerado pela congregação, então precisaria, por um tempo, trabalhar no mundo pra ajudar a esposa e o filho pequeno. Foi o líder da congregação que arrumou emprego pra ele naquela empresa. Pediu para que tivesse fé, disse que sabia que ele venceria as dificuldades, e o rapaz aceitou o desafio. Mas ele gastava muita energia tentando superar os problemas, que eram muitos: e ele não tinha habilidade alguma pro trabalho braçal: não conseguia assimilar bem os mais simples afazeres. Mas ele não era mal educado ou grosseiro como os outros funcionários, mas havia algo que vibrava no seu interior sempre que Dária reclamava de algo mal feito por ele. O Pastor trabalhou 30 dias ali e foram 30 dias em que Dária mandava ele refazer as suas obrigações. A administradora tentava ter paciência, sabia que ele estava se esforçando. Mas ela ficou fora de si quando viu o sal grosso sendo alucinadamente jogado no galpão.

Mas o que você tá fazendo? – Ela gritou.

Tô santificando este lugar, tô limpando isso aqui! – Ele respondeu com a mesma voz embargada de sempre.

Largue isso agora, você não tem o direito de fazer isso aqui! – Dária gritou ainda mais alto.

Não vou parar, não obedeço mais a você, serva do demônio! – Um berro acentuou a última palavra, quase como se tivesse enlouquecido.

O encarregado chegou bem no momento do último grito do rapaz e ajudou Dária a convencê-lo de que aquilo não estava certo. Ele jogou o copo de sal na direção de Dária, em um gesto que resumiu todo seu desprezo por ela e saiu, para não voltar mais. Dária respirava com calma e permaneceu um tempo olhando o vazio, parecia estar buscando energias pra prosseguir.

Mas que coisa, dona Dária, nunca tinha visto isso! Mas olhe tome cuidado, esses tipos aí…

Como que está o pessoal, tudo certo?

Tá sim, dona Dária.

Como que vamos fazer com a vaga do Pastor? Mas logo hoje?

Sim, mas eu já sabia dona Dária, esse rapaz aí…

Era uma bomba relógio, dava pra ver… – Ela complementou. ajeitando a bolsa no ombro e procurando o rumo do escritório.

Olha, tem meu sobrinho, ele é de menor, mas dá pra segurar a bronca, pelo  menos até o fim de semana: e ele parece ter mais que 16, ele é grande, e dá conta do trabalho, se a senhora quiser mando chamar agora…

De menor…

Ninguém vai ficar sabendo…

Você cuida disso?

Cuido, deixa comigo.

Vou ter que arriscar, ou é isso ou estamos todos ferrados.

Deixa dona Dária, deixa comigo, vai dar tudo certo.

O resto do dia foi de muito esforço pra Dária. O olhar do ex-funcionário a perseguia. Não sentiu medo, mas a advertência do encarregado vinha logo no encalço daquele olhar: ambos em loop, perturbando sua percepção e atrapalhando a plena execução das suas atividades. Não sabia se avisava ao marido, se procurava ajuda de alguém, se estava sendo leviana ao deixar aquilo daquele jeito. Mesmo assim decidiu que não faria nada, nem contaria ao marido, nem polícia, nem ninguém: o marido, polícia ou qualquer outra pessoa que percebesse nela o medo só traria mais problemas pra uma semana que seria demasiado difícil. Tinha de suportar toda a pressão.

II

No dia do pagamento o Pastor apareceu no escritório pra receber seus dias trabalhados. Dária pensou que não o veria mais e se surpreendeu ao vê-lo: parecia que havia se passado muito tempo desde aquela confusão.

Bom dia. – Ele disse, cabisbaixo. Estava vestido de forma diferente, as roupas denunciavam que algo de radical havia acontecido. Lá fora estava parado um Chevette azul com mais dois caras dentro. Ele havia voltado pro crime, ela pensou.

Me desculpe por aquele dia lá… – Ele tentou não parecer tímido.

Tem nada não, e como tá a família, e a igreja?

A família vai mais ou menos, mas a igreja eu larguei, aquilo lá num é pra mim não, eu tenho de resolver meus corre é na rua mesmo. Não consigo levar essa vida aí não, eu sou bicho solto, meus corre é outro mesmo, na moral, nem sei como vocês aguentam isso aqui não. – Disse de uma vez, como se tivesse ensaiado.

É, é difícil mesmo, entendo o que você quer dizer, assine aqui ó, aqui também, e aqui. Ela entregou o envelope com o dinheiro e ele pegou meio desajeitado. Antes de sair ele se virou, meio relutante, e disse:

Desculpe por aquele dia, sério mesmo…

Deixa pra lá, não foi nada.

Eu sei… E ainda deixei a senhora na mão…

Mas deu tudo certo.

Ainda bem, de qualquer forma me desculpe.

Dária sorriu.

De qualquer forma cuidado, e se precisar de outra chance pode vir que as portas estão abertas.

O rapaz corou as bochechas, esboçou um movimento com a cabeça e saiu apressado. Dária ficou mal, sentindo que talvez tivesse soado falso a sua postura. O Encarregado logo entrou na sala e vendo Dária reflexiva tentou extrair algo dela.

Mas que coisa, dona Dária…

Você viu isso, seu Helô?

Pois é, esse aí logo aparece morto. Uma pena.

Uma pena, ela repetiu. Viver é enfrentar os demônios da gente e os demônios dos outros… Demônios pra todo lado… – Dária disse suspirando e depois de um tempo complementou: O mundo tá cheio de gente pra todo lado, não adianta fugir não, a gente tem de enfrentar, viver é guerra mesmo, tem pra onde fugir não. – Repentinamente, como se desse por encerrado de vez aquele assunto, ela pediu os recibos do carregamento que acabara de chegar.

Helena

I

A professora escreve no quadro negro enquanto comenta sobre as provas, a sala está totalmente dispersa. Alguns falam baixo entre si, outros mexem no celular, o resto dorme. A professora, uma mulher de meia-idade e de estatura baixa e cabelos encaracolados escuros, pede silêncio sem se virar, o texto que escreve no quadro negro vai se tornando longo.

Vocês não estão copiando! Tá difícil sala, é tema de prova, já falei, vocês não me escutam, depois não reclamem. – Todos, de repente, fingem prestar atenção ao perceber o timbre de irritação da professora. Todos menos Helena.

Quem é aquela ali? – A sala diz que é Helena, em tom de algazarra, já esperando a punição.

Acorde aquela mocinha pra mim, você aí mesmo, acorde ela. – Helena levanta a cabeça sem saber o que está acontecendo, tira os fones de ouvido.

Saia da minha sala agora, saia, aqui não é hotel, não faço questão de aluno desinteressado! E se alguém mais quiser sair que saia! – Helena passa pela professora e coça os olhos e boceja e coloca de volta os fones de ouvido nas orelhas. – Não vou tolerar mais isso nas minhas aulas, chega! As provas tão aí, o problema é de vocês!

Helena procura um lugar pra se sentar no pátio da escola, deixa o caderno sobre o colo e mexe no seu celular. Depois de um tempo ela se levanta e procura um bebedouro. No caminho encontra Giza.

Falei pra você não entrar naquela aula. – Helena não responde. – Mas que desânimo. Credo! Nós vamos vazar daqui! O portão tá destrancado, quer dizer, o Lucas destrancou quando saiu e deixou aberto. Bora?

Só o Lucas?

O Paulo e o Júnior vão também. Sei lá se vai ter mais alguém, esses que falei eu tenho certeza! Vamos andar por aí, sei lá, beber algo…

Sei não…

Se eu fosse você iria, o Lucas, cê sabe…

Lá vem você de novo.

Bora, porra. Sai dessa vida. Se ficar aqui a diretora vai te fragar, e vai ser bem pior.

Sei não… Depois você faz alguma gracinha com o Lucas…

Esquece esse papo de Lucas, foi mal. Não tá mais aqui quem falou. Vamos dar um rolê por aí e só, na moral, só isso.

II

Helena, Giza e outros três garotos andam pelas ruas. Se empurram enquanto cantam as músicas que sai do celular de um deles. Helena parece outra, mais solta e disposta a brincar.

Quem vai buscar? – Giza interrompe a cantoria.

Cadê o dinheiro, ué?

Mas de novo?

Como assim de novo? – Os meninos brigam entre si.

Se liga, você não me deu nada ainda, malandrão, só falta sua parte aqui!

Eu vou com você!

Precisa não, vou rapidão! – Responde Lucas.

Os outros se sentam na calçada enquanto esperam. Um deles liga o som do celular.

Desliga isso aí Júnior, e escuta isso aqui, baixei hoje, pira nesse som! – Ouvem a nova música em silêncio.

Esse som é doido de mais! – Diz Giza. – Passa pra mim!

Passo nada, vai ficar na vontade. – Antes que Giza proteste Lucas reaparece. Dividem a bebida em copos e a música continua.

Se liga nessa passinho.

Que merda de dança..

Que nada, sou mestrão nessa porra…

Tá indo bem, mas falta rebolar mais, cê parece uma vassoura!

Como assim não sei rebolar? Se liga nisso.

Credo mano para, porra.

Paro não, aqui ó, bem na sua cara! – Todos riem da situação.

Ensina ele aí Lucas, diz Giza.

Peraí, segura meu copo Helena. – Lucas começa a dançar e logo Giza se joga entre eles. Depois de um tempo Lucas se senta ao lado de Helena.

A Lacraia te botou pra fora da aula? – Helena não respondeu de imediato, tomou um trago da bebida. Faz careta.

Essa parada tá horrível.

Era o que o dinheiro dava, o Paulo nunca contribui. – Depois de um silêncio Helena responde à primeira pergunta:

Aquela mulher é um saco. – E depois de outro tempo remenda:

Lacraia…

O Paulo que deu esse nome pra ela. Mas não parece? – Giza para de dançar.

Tá muito fraco isso aqui.

Tá mesmo Giza.

Mas tá muito fraco mesmo! – Reitera Giza.

Bora dar um grau nessa merda, me dá uma grana aí Paulo, pra deixar isso aqui  mais forte.

Mas que saco, aqui ó, só tenho cinco!

Já é alguma coisa. – Os outros tiram o que restava de dinheiro nos bolsos e Lucas sai em busca de reforçar a bebida. Helena parece a mais alta da turma e também parece a mais descontraída: eles se empurram, cantam, parecem amigos de longa data.

Quem tá a fim fumar um? – Diz Paulo.

Tem aí?

Tô ligado num chegado meu ali, ó!

Mas você num tava sem grana?

Nada, sempre tem, pro bagulho ele sempre tem! – Ironiza Giza.

Pra maconha sempre tenho mesmo, num curto álcool não, num me dá tanta brisa assim. Borá lá comigo! As meninas esperam a gente aqui.

Vou nada!

Beleza, seu otário! Me espera aqui galera.

III

Paulo vasculha o celular em busca de uma música nova. Giza se afasta com a amiga na desculpa de procurar um lugar pra mijar.

Ele não é uma gracinha?

Quem? Ahh…

Nah, para vai Helena! – Helena não responde. Andam até chegar num posto de gasolina. Na volta Giza fala qualquer coisa enquanto Helena parece não prestar atenção.

Nossa parece que já tô alta, mas parece que não vai passar disso!  – Diz Helena, interrompendo a amiga.

Presta atenção: eu dou um jeito com os meninos e tu se vira com o Lucas, vê se num vacila.

Você não presta mesmo.

E aí, que demora, onde cês tavam, demoraram pra porra!

Tava mijando, caralho, cê tá parecendo minha mãe!

Achei aquele som lá, anda logo, minha bateria tá acabando.

Calma! Tô bêbada já! – Grita Giza.

Guarda minhas coisas aí, tô com medo de perder. – Helena entrega os cadernos pra Giza.

Joga essa porra fora.

Tô falando sério.

Tá tá, coloca aqui, e deixa de drama.

Cuidado com meu fone.

Que se foda o fone!

Não, me dá aqui o fone.

Que se foda esse fone!

IV

As ruas estão desertas. Já passa das onze da noite, mas eles não parecem se importar. Helena está conversando com Lucas, ambos se destacam do grupo.

Você mora perto da Giza?

Não, mas com certeza vou ter que dormir na casa dela hoje.

Você mora longe?

Não é tão longe. Quantas horas, hein?

 Deixa eu ver. É onze e quinze.

Cara, essa bebida tá muito ruim!

Tá mesmo. Achei que ia melhorar, só piorou. – Os dois sorriem.

Mas é melhor que aquela aula lá. – Helena percebe o pessoal acelerando o passo, logo somem. Depois de um tempo em silêncio Lucas puxa Helena e lhe dá um beijo que é de pronto correspondido. Logo se encostam numa parede. Se beijam por um tempo.

Vamos ali. Ele puxa Helena pela mão e a leva duas ruas abaixo. Entram numa viela mal iluminada. Voltam a se beijar. Eles vão tirando parte das roupas. Suspiram.

Aqui é seguro, não tá a fim?

Não sei…

V

Os dois estão em busca dos amigos, em silêncio. Helena parece forçar indiferença, enquanto Lucas olha algo no celular.

Ela não responde. O que a gente faz?

Tentei também, deu nada.

Já é madrugada… Vamos pra minha casa, moro aqui perto.

Acho que não.

Mas tá muito tarde pra você ir sozinha.

Não dá nada.

A Giza deve tá chapada e o celular do Paulo tá dando direto na caixa, mas que merda… – Depois de um tempo ele toma coragem e diz que a levará até em casa. Helena não responde, procura algo no celular.

É sério, não vou deixar você ir sozinha.

Não precisa, na moral mesmo.

Te deixo na porta da casa da Giza.

Não precisa, já falei mano! – Foi meio áspera.

Não quer ligar pra alguém, chamar um conhecido – Insiste Lucas.

Tá de boa, sério mesmo. – Responde com menos acidez.

Não posso deixar você ir sozinha, vai ser foda.

Pode sim, é de boa, até amanhã.

Ela se vira e continua a descer a rua. Ele fica parado sem saber o que fazer. Parece decepcionado. Ela continua andando, e de repente olha pro celular e para no meio da rua. Se vira pra trás. O rapaz ainda está lá, parado.

Me diz uma coisa, você tem um fone de ouvido pra me emprestar? Acho que perdi o meu.

Tenho.

Amanhã te entrego.

De Boa, mas cuidado, hein.

Vou cuidar dele sim!

Não, cuidado com você.

Dá nada, sou cria, valeu pelo fone.

Ela coloca o fone de ouvido e vai embora.

Lucas a observa até que ela desaparece. Reluta em segui-la, ao menos à distância, mas aquela dureza dela o desencoraja, então toma a direção de casa. Depois de alguns passos, não suportando a ideia de deixá-la sozinha naquelas ruas, desiste de ir pra casa e sai em busca de Helena. Desce correndo pela rua da direita até a quadra de baixo, respira e toma a da esquerda, vê um vulto, é Helena. A alcança, controla a respiração ofegante, e se põe a caminhar ao lado dela. Helena percebeu ele se aproximando e não disse nada. Motocicletas barulhentas cortam ruas distantes, cachorros latem pros gatos nos telhados e os dois seguem em silêncio pelas ruas vazias.

A Mulher do Maranhão

Vem cá, Maranhão, sente aqui!

Só se me pagar uma.

Cê já tá bêbado?

Tô nada, vou fazer um quatro, ó… – Maranhão tentou se equilibrar numa das pernas e quase caiu: no reflexo alterado pela bebida tentou se apoiou na mesa e quase levou toda bebida ao chão. O pessoal passava mal de tanto rir. Sujeito folgado. Vivia sendo sacaneado pelo pessoal e gostava disso. Era só aparecer gente nova no bar, ele se encostava no sujeito procurando um jeito de explicar seu apelido, e caso o novato demonstrasse algum interesse a primeira coisa que dizia era que, na verdade, ele era paraense e não maranhense.

Nasci em Carolina, na divisa do Maranhão com Tocantins, mas só nasci mesmo, porque no dia seguinte eu tava indo pra Belém.

Deixe de ser burro, homem! tu nasceu foi no Maranhão, não importa se tu se mudou uma hora depois.

Quem sabe sou eu!

Tu é muito burro, Maranhão… – Mas ele teimava e com aquela mansidão de sempre, argumentando sem muita fluidez que se é mesmo é do lugar onde se cresce, não do lugar onde se nasce.

Era de estatura média, queimado de sol, um típico maranhense: digo nesse tom porque minha mulher é de lá, e quando os irmãos dela descem pra cá parece que ao mesmo tempo sou quem subo pra terra deles. Maranhão adorava uma cachaça! Adorava até demais. Era preciso, vez ou outra, que o encarregado da obra prometesse umas doses após o expediente para que ele se dedicasse ao trabalho com um pouco mais de seriedade. E adiantava por pouco tempo. Ele ia se desleixando, folgando aqui e ali, até se relaxar de vez, e caía na lerdeza de sempre enquanto os outros se matavam para cumprir as obrigações do dia. Coitado do encarregado, de vez em quando ele vinha aqui, mas nunca reclamava, parece que ele gostava do Maranhão, ou sentia pena, sei lá.

Meu estabelecimento é tipo um pequeno armazém: de manhã vendo pães e bolos e biscoitos, essas coisas, e dá até pra fazer uma comprinha básica e tal; depois do meio dia isso aqui vira praticamente um bar, apesar que tem gente que faz compras aqui sem se incomodar com a algazarra. Foram as inúmeras obras de expansão do bairro que criaram essa peculiar dinâmica no meu estabelecimento. Apesar disso nunca tive problemas. Mas o Maranhão vivia procurando um jeito de me ferrar: bicho folgado, conversador, metido a mulherengo! Era preciso enxotar o cabra quando a madrugada chegava, ou até antes, quando ele estava numa daquelas fases das mais difíceis. Às vezes ele dormia na calçada, bem aqui na entrada. Lavava o rosto no banheiro lá de fora, comia do pão com manteiga que eu preparava pro meu desjejum e tomava do café que era pra minha manhã, e por fim se arrastava até a construção que ficava à duas quadras daqui. Tinha fim de semana que era ainda mais difícil, ele dava o dobro de trabalho: dançava nas mesas, mexia com o pessoal na rua, cantava alto, cochilava sentado e derrubava os copos no chão, quebrando também as garrafas. Era tanta algazarra que o pessoal sentia o lugar sem graça quando Maranhão vez ou outra desaparecia. Era estranho isso, mas ele sumia por uns dois ou três dias.

Certa vez, depois de desaparecer por uns dias, ele entrou aqui com um camarada parecido com ele, um tal primo seu, muito parecido mesmo, tão folgado quanto. O primo se enturmou de primeira.

Ei, tu sabe pronde o Maranhão vai quando some? – E o primo respondeu:

Pra casa da mulher dele!

Achei que ela morasse num albergue…

Nada, moço, essa desgraça é casado!

Como assim casado? Olha o jeito dessa peste, pelo amor de deus, que casado o quê!

Mas moço, eu tô te falando que essa desgraça desse primo meu é casado! E a mulher é a coisa mais linda do mundo. – Sacou o celular do bolso e mostrou uma foto de uma festa onde havia uma mulher bastante bonita, cabelos lisos escuros, rosto arredondado, pela morena, os olhos de um brilho sem igual, sentada ao lado de um Maranhão bem-vestido e aparentemente muito bêbado. Maranhão se ria no canto, enquanto tentava cantar uma música qualquer: estava quase travado de bêbado.

Aquela história não colou muito. Podia ser armação dele com o primo, querendo pregar uma peça no pessoal. Mas dias depois, na obra, alguém fuçou no celular dele e viu outra imagem da mesma mulher, e havia uma criança na foto. Pessoal passou a não entender bem o porquê do Maranhão ser do jeito que era. Mas ele conseguia desarmar qualquer um com aquele sorriso indolente, com suas histórias indecentes, e aquele cantar desafinado que modificava as canções ao ponto de soarem estridentes e irritantes.

Os dias passavam e ele conseguia, com todo aquele tino pra vadiagem, manter seu encarregado irritado, e depois do expediente mantinha o bar entretido com sua fala arrastada e histórias que nunca davam em nada. Numa dessas o primo aparece ali de novo. Era dia de pagamento e o pessoal estava muito animado, uma farra só. Maranhão dançava e tentava xavecar as mulheres na rua. Fui à cozinha e quando voltei percebi o pessoal amontoado na porta do bar. Maranhão havia desmaiado. Pronto, pensei, o cabra morreu no meu estabelecimento! O primo foi lá e o abanou umas duas vezes e mandou que colocassem o moribundo sentado numa cadeira ali mesmo, na porta.

Calma gente, isso acontece de vez em quando.

Mas aqui nunca havia acontecido dele apagar assim, e ainda tão cedo. 

Pense num homem louco – disse o primo enquanto ajeitava o desacordado: Teve um casamento de um parente nosso que este doido desmaiou na pista e mal foi socorrido, este maluco bem aqui, mal o socorreram e ele já tava de pé dançando de novo, oxe! Não é de ver que este cara aqui, da vez que andou pras bandas de São Paulo se meteu numas de fazer testes de remédio? Isso mesmo: trabalhou pras farmacêuticas de lá, olha as ideias! Ganhava uma grana boa, mas o doido não podia beber, e bebia escondido. O pessoal da indústria lá descobriu que ele bebia, daí foi dispensado. Desde então vez ou outra ele desmaia assim, apaga do nada, e tu acha que se foi, que já era: que nada! Agorinha vocês vão ver. Acho que ele vai passar por isso pelo resto da vida; lá em casa a gente já tá é acostumado. Só deixe ele sentado aí, assim, deixe, vá, deixe assim que logo ele volta ao normal. 

O primo se parecia muito com Maranhão, o jeito de falar então… Se passariam por irmãos tranquilamente. Mesma estatura, mesmo timbre de voz, mesma petulância. Ambos pareciam com os meus cunhados. O pessoal chamou o primo numa mesa, que passou a ser chamado de Maranhão 2, e foram perguntar sobre a vida secreta daquele sujeito estranho apagado na mesa lá do lado de fora.

É um sujeito de sorte, disse o primo, um sujeito de muita sorte. Cada loucura que esse maluco já se meteu. Num é de ver que um dia… – de repente o desacordado cai no chão de novo. Todo mundo se levanta. Maranhão se põe de pé, apoiando na cadeira, parecia meio tonto ainda. E mal se segura de pé e já pede outra dose de pinga. O pessoal cai na gargalhada. O primo vai até ele e pede que pague uma dose.

Que dose o que seu vagabundo, tu é que tá me devendo.

Mas acaba pagando a bebida. O primo não falou mais nada sobre o passado, parecia gostar do Maranhão e preferia andar atrás dele, fortalecendo a algazarra que o parente desencadeava com muita sem-vergonhice.

Poucos dias depois Maranhão largaria tudo por conta duma carona que subiria pro Norte. O encarregado, que não aguentava mais aquela situação, e vendo a hora do sujeito morrer numa dessas bebedeiras, aceitou o pedido e fez o acerto. Maranhão não se despediu de ninguém: sumiu com uma carona que ninguém sabia ao certo onde ele tinha arrumado.

Ontem, vindo da casa da minha sogra, vi o primo do Maranhão atravessando a rua. Estava com sua família. Alias,  era o que parecia num primeiro momento. Brigava com o menino, enquanto a mulher o empurrava. Quase fui lá procurar saber do Maranhão, mas deixei pra lá, até porque a briga com a mulher e o menino estava se tornando algo mais sério: e o menino chorava e o primo xingava a mulher de tudo que lhe vinha à mente enquanto ela gesticulava com furor, dando tapinhas nas costas dele. Mas logo a briga deu uma amenizada e então atravessaram a rua. Quando chegaram do outro lado percebi que aquela mulher se parecia muito com a da foto, a dita esposa do Maranhão. E era mais bonita que na foto, um belo corpo, os cabelos  escuros e lisos, cabelos de índio… Se não fosse a mesma mulher da foto, seria sua irmã gêmea. Talvez fosse mesmo a mulher do Maranhão, talvez o primo estivesse cuidando dela até que o Maranhão voltasse. Os segui por um tempo, mas faltou coragem pra uma abordagem. Eles tomaram a via principal e depois entraram numa rua estreita que dava num cortiço que era também o final da ruela. Memorizei o endereço. E fui embora. Quem sabe um dia desses eu não apareça por lá pra saber o que aconteceu com o Maranhão.

O Aprendiz de Feiticeiro

I

Segura a onda, moleque.

Mas a feira tá pra acabar, anda logo com isso.

O irmão mais novo fazia um gesto irritado com a mão esquerda enquanto mantinha a outra no bolso da bermuda e os olhos grudados na porta do bar. 

E agora? Posso ir?

Ainda não, calma!

Paulinho não compreendia aquele demorado ritual, passou a andar de um lado a outro, fazia gestos impacientes e insistia em repetir as mesmas perguntas. Pedrinho, o irmão mais velho, mantinha o controle da situação com frieza, calculando toda movimentação dentro e fora do bar e sem se deixar levar pela danação do irmão mais novo. Dali de onde estavam era possível não só ver a bicicleta na porta do bar, como entender todo o movimento lá de dentro, e ainda monitorar toda a feira. 

Não esquece que cê vai até a segunda rua, vira pra esquerda, entra na da direita e me espera naquele beco, lá no final. 

Mas eu posso ir direto pra casa, não dá nada não! – Pedrinho se irritava com a teimosia do mais novo, mas tentava manter-se calmo. 

Olha aqui, ou faz do jeito que tô falando ou nada feito. 

Tá tá, beleza! E depois?

Depois nada, me espera lá.

Paulinho ficou encostado no poste, olhando vez ou outra pros lados, parecia mais calmo, enfim algo iria acontecer. Pedrinho foi até o bar, entrou e procurou algo na vitrine de salgados, perto do caixa. 

Quê que cê quer, moleque?

Ah eu? ah… é quanto o doce? 

Depende do doce. 

Então me vê um copo de água, por favor.

Foi tão desenvolto que de pronto irritou o dono do bar que, enquanto o moleque ajeitava os cotovelos em cima do balcão, teve de enfiar as mãos molhadas nos bolsos, como que tentando entender a petulância do moleque. Dali a pouco, a contragosto, o dono do bar foi até a torneira e encheu um copo com água. 

Toma e vê se some daqui, ô moleque. – E virou-se pro homem grisalho que bebia cerveja no balcão: Esse moleque aí tem cara de treta, não tem? 

O homem grisalho olhou pro menino e sorriu com tom de escárnio, depois voltou pra sua bebida.  Paulinho saiu do bar e foi em direção à feira. De lá ficou de olho pra ver se alguém sentia falta da bicicleta. Foi como tinha planejado. Aquele homem grisalho bebia sempre de costas pra rua e se esquecia da bicicleta: o problema era desviar a atenção do dono do bar. Deu a volta na feira e pegou a rua de trás, que dava uma longa volta, mas que também não deixava vestígios. Pensava apenas no irmão:

Aquele moleque burro, tomara que tenha feito o que falei.

II

Passou por algumas ruas desertas, algumas vielas e por um grande supermercado. Dobrou à esquerda e por fim viu o beco. Caminhou até o final do beco e, de soslaio, percebeu o irmão sentado na porta da última casa da rua. 

Cadê a bicicleta? 

Tá ali. – Pedrinho percebeu uma porta encostada e entreviu a bicicleta lá dentro.

Acho que não mora ninguém aí não – disse Paulinho com ar entediado, se esforçando pra não se mostrar envaidecido pela brilhante ideia.

Levanta daí e me ajude aqui. 

A gente vai pegar por ali e atravessar o brejo até o asfalto lá. – Paulinho apontou pro pasto que se perdia de vista. O irmão mais velho pela primeira vez não reclamou. A demora do irmão serviu para que Paulinho pensasse em várias possibilidades, traçasse rotas, e de todas aquela era a melhor opção.

Enquanto atravessavam o pasto Paulinho não parava de tagarelar. Falava sobre os amigos, sobre passeios, sobre tunar a bicicleta, quem sabe até rebaixar ela; perguntou pro irmão se ele sabia o que era bicicleta rebaixada, e Pedrinho fazia de conta que não ouvia.

Mas acho que não vou fazer isso não, vou só pintar o quadro, porque depois vai que cê precisa dela, daí vai dar ruim, bike rebaixada é foda … Se pá meter uns aro dos mais foda, sabe de qual?

Não, não sei, e olha aqui: mandar um papo reto, pega a visão: cê não vai dar ideia pra ninguém dessa bicicleta ainda, falô?

Quê que tem?, é só pintar ela e pronto, já era, ninguém vai ficar sabendo.

Eu falei que não, porra! E se liga: a gente nem vai levar ela pra casa ainda, tá ligado? Tenho um lugar pra esconder ela por um tempo, vai ser perigoso ficar roletando com ela por aí agora.

Paulinho se alterou no mesmo instante:

Que nada, eu que me arrisquei: quem decide sou eu, e num dá nada, já falei: cê acha que sou otário, cê num vai passar o pé ne mim não, mano! Vai se fuder! Acha que sou otário?

Pedrinho fingiu calma, mas foi severo:

Presta atenção, moleque burro: o dono dessa bicicleta andava pra todo lado, cê acha que ele não vai sair por aí perguntando dela não? No primeiro dia cê vai rodar, e vai rodar bonito, seu trouxa! Olha essa bicicleta, olha esse quadro aí, cê acha que ninguém vai sacar? Ainda mais com quem nunca teve uma bicicleta? Vai ser latada na certa. Aliás, tanto faz, cê num vai durar uma semana.

III

Uma vez no asfalto e percebendo que a dura no mais novo havia surtido efeito, Pedrinho chamou novamente a atenção do irmão de novo:

Se vacilar, Paulo, já era: a mãe vai ficar sabendo, cê vai se fuder de tudo quanto é jeito; então me escuta, moleque, me obedece que logo cê tá com ela na rua, nem me interessa essa bike, tô terminando de montar a minha lá no Kevinho, então só me obedece, que daí cê rebaixa essa porra, faz o que quiser com ela.

Paulinho parecia incomodado com alguma coisa. É que eu sempre me ferro, você vive me passando pra trás… – o mais velho interrompeu:

Olha aqui eu sou sujeito homem e cê mostrou que é também, então já era, esquece essas fitas e só faz o que eu tô falando, a bicicleta é sua e pronto, vê se não me enche, só quero te ajudar a ter a porra de uma bicicleta, moleque burro. 

Pedrinho apontou pro lote baldio entre duas construções novas:

A bicicleta vai ficar num buraco que tem ali, até daqui a umas duas ou três semanas, lá vai tá tudo certo.

Caminharam até o final do lote baldio. Tiraram esquadrias velhas e algumas madeiras da boca do buraco, que parecia ter uns dois metros de profundidade.

Murcha o pneu dela.

O irmão mais velho fez que não ouviu. A distância entre os dois não diminuía e por mais que o irmão mais velho tentasse demostrar respeito pelo mais novo, principalmente pela coragem de pegar a bicicleta, na prática o que se percebia era outra coisa. Paulinho tinha lá seus 12 anos, havia sido presa fácil do irmão por anos, por isso odiava tanto o mais velho. Ele entrou naquela porque queria provar que não era nem vacilão e muito menos o mesmo trouxa de antes: mas já entrou na fita desconfiando de tudo. E aceitou participar daquela sem que o irmão soubesse das outras paradas que havia feito com o Vesgo no supermercado e umas até naquela feira lá: umas três ou quatro ações de sucesso. Estava seguro de si e sabia que se sairia bem, porque dificilmente ficava nervoso na hora da ação. Mas o mais velho não parecia ver nada disso, nada a não ser ele mesmo. Mas dessa vez não, pensava o mais novo, vou ficar ligeiro.

IV

Os dias foram passando e nada de tocarem no assunto da bicicleta. Paulinho todo santo dia ia verificar se a bicicleta continuava no buraco. Depois passou a ir dia sim dia não, passou a confiar levemente no irmão. E assim se passaram lá umas três semanas. 

Perguntei pro Vesgo se ele tinha ouvido falar de algo por aí e ele disse que nada! Já deu né, vou tirar ela de lá!

Pedrinho deu um pulo:

Cê num falou com aquele linguarudo do Vesgo, falou? Não acredito nisso, mano! Mas como você é burro! Agora entendi, agora entendi. Acabei de passar lá e a bicicleta já não tava lá, entendi tudo!

Paulinho se sobressaltou:

Como assim não tava? Passei hoje de manhã com o Vesgo e tava lá do mesmo jeito! 

Mas agora já não tá, mas já saquei, tu é burro demais, moleque!

Sabia que cê ia me roubar! – gritou Paulinho que partiu pra cima do irmão – Seu desgraçado, seu desgraçado!

Mas Pedrinho deu um empurrão e o irmão caiu no chão. Paulinho se levantou e foi até a cozinha, pegou uma faca pequena e avançou pra cima do irmão, cego em seu furor, e num golpe foi derrubado novamente pelo irmão. De repente havia sangue pra todo lado: Pedrinho estava ferido. O impacto do sangue pelo chão da sala fez com que ele se detivesse, e então caiu num choro doído. 

Ela era minha, você não podia ter feito isso, era minha. 

Pedrinho não falou nada. Foi até o quarto e rasgou uma camiseta velha e estancou o ferimento na mão. Depois foi pra sala e ligou a televisão; depois foi até a cozinha e botou o almoço no prato. Paulinho parou de chorar e com o semblante pesado trocou de camisa e saiu de casa, sem olhar pros lados. Pedrinho terminou seu almoço com calma, como se nada tivesse acontecido e ainda tirou um cochilo.

V

Já havia anoitecido quando a mãe dos meninos chegou em casa extremamente cansada, e já foi se irritando ao perceber os pratos do almoço na pia e as panelas abertas sob o fogão. Esbravejou contra os filhos que estavam na rua jogando bola, e foi até a sala e pegou os copos que estavam sob o sofá. Pegou a vassoura e começou a varrer todo o lugar. Não sei se era culpa da fraca lâmpada amarelada ou se já era um ato automático, mas ela limpou toda a casa sem se dar conta que aquilo que manchava o chão da sala era sangue. Lá pelas tantas chegou Paulinho, e logo depois Pedrinho, e a mãe lavava a louça da cozinha, enquanto na TV passava novela das 9.

Muco, ou Um Pedaço do Inferno

A viatura subia preguiçosamente a avenida principal. Passava do meio-dia. Porra, comi um bocado! Mas que calor, vai tomar no cu! Se pudesse eu tirava esse cinto… falou de uma só vez o que estava no banco do carona. O do volante não gostava daquele jeito de falar, talvez por isso mantinha-se em silêncio na maior parte do tempo. A viatura dobrou à esquerda. A rota percorria todo o Setor Norte, entrava em todas as vielas, vasculhava todos os cantos, procurava sabe-se lá o quê. Eram dias tranquilos, coisa rara naquela região: alguns furtos aqui, um pai de família que bebe demais ali, brigas entre vizinhos acolá… Ih!!!! olha quem tá ali. O motorista desviou o olhar até o canteiro onde um rapaz caminhava descalço, aproveitando a sombra das árvores.

Ei Muco, o quê que tá pegando? Pare o carro, pare! O motorista obedeceu a contragosto.

Ei Muco… Ei cara, chegue aqui, anda, vem aqui moço…

Não, tá quente, o asfalto tá quente…

Cadê seu pisante?

Perdi.

Tá alto?

Tô de cara, usei nada não. Uso mais nada não, senhor.

Vem cá rapaz!

Vou nada, tá muito quente, senhor!

Deixa esse bosta pra lá… bora subir… – protestou o motorista bastante irritado.

Não, calma aí, pô! Acabei de almoçar, bota pressão não…

Mas que merda, bora subir logo…

Ei, Muco… Qual é? Venha aqui rapaz.

Não rola não, mano…

E eu lá sou seu mano?

Desculpa, senhor.

Tem rap novo pra jogar na minha mão?

Mas o senhor não gosta de rap.

Mas tem nada novo rolando na área não?

Tem não senhor. Agora posso ir?

Mas você não veio aqui, porra!

Mas não dá não!

Venha aqui, ande!

Não, não dá pô…

Quê que tá rolando nas áreas?

Nada não senhor, já falei, tô quieto desses corre aí. Nada de droga nem de vida do crime. Tô procurando trampo.

Tá a fim de capinar meu quintal?

Mas o senhor mora num prédio…

Ah… é mesmo! Tá ligeiro hein Muco…

Bora porra… Larga esse viciado…

Calma aí! Ô Muco, eu te arrumo trabalho, mas cê tem que vir aqui, cara.

Mas se eu ferrar meu pé, como vou poder trampar?

Boa, Mucão, boa! Dá pra ver que hoje cê não tá louco de pedra.

Tô não senhor. Tô limpo faz uns dias já…

Mas vem cá, pega aqui… – esticou o braço fora do carro, parecia se divertir. O do volante acelerou o carro.

Eu falei pra esperar, caralho! Cada vez que cê por pressão mais eu demoro.

Puta que pariu! Vai-te embora, anda ô marginal, pega subindo… – gritou o do volante.

Liga não Muco, ele tá meio estressado. Por que não gosta que lhe chamem de Moacir?

Não pô… Muco! Existe Moacir não!

Tudo bem, Moacir! Ha ha.

Posso ir?

Vem pegar na minha mão que depois cê pode ir embora.

O rapaz, bastante angustiado com a situação, se apoiou na ponta dos dedos dos pés, quase como uma bailarina e correu até a viatura, pegou na mão do policial e voltou, tudo em pouco mais de quatro passos.

Ah, e eu porra? Me respeita não? – gritou o do volante. O outro policial caiu na gargalhada. O rapaz abaixou a cabeça e resmungou alguma coisa.

E aí, vai vir ou não, seu bandidinho de merda.

Mas eu já fui aí senhor, eu já fui.

Ha ha ha ha. Ê Muco, Moacir, Mucão, meu parça. Anda logo, vá lá! Ele é meio… hum, é mais estressado que eu… ha ha ha ha.

Anda logo seu merda!

Muco, contrariado e querendo acabar logo com aquilo, subiu na ponta dos dedos dos pés novamente e deu um salto rumo à viatura. Antes que completasse o percurso a viatura acelerou e saiu cantando pneu. Muco ficou alguns segundos com os pés no asfalto quente. Logo saltou de volta pra sombra, enquanto ouvia distanciar os dois policiais e suas respectivas gargalhadas.

Um Homem Santo

Depois de um dia inteiro gravando CDs pirata num quarto pequeno e sem ventilação saíamos na tentativa de vender uma boa parte daquele material. Mas sempre que conseguíamos uma certa quantia encerrávamos o expediente, comprávamos um vinho ou outra bebida mais pesada para ser misturada com outra bebida e então ligávamos pro Carlos, que não demorava muito aparecia lá pelas imediações do Estadinho, onde preparávamos as bebidas e assim iniciávamos um processo que se estendia madrugada adentro. Andávamos sem rumo, os três, conversando geralmente sobre o passado, enquanto bebíamos ou o vinho barato ou o misturado de bebidas da qual, muitas vezes, nem sabíamos a procedência, mas sempre como se fosse a melhor bebida do mundo. Naquele tempo não havia muita perspectiva, as coisas iam mal: não falávamos sobre o futuro e muito menos sobre a falta de perspectiva presente, buscávamos nos distanciar dos problemas. Falávamos sobre o passado, apenas sobre ele, e quando era pra gerar polêmica recorríamos sempre aos assuntos místicos. Carlos era filho de um ex-pastor, mas a fé de Carlos era inabalável, e quando bêbado ela se tornava ainda mais firme. Ele dizia que um dia largaria a vida louca e se dedicaria a algo mais sério dentro da antiga congregação de seu pai. Eu era o mais cético, e gostava de provocar os outros dois, que frequentemente se irritavam com a minha falta de fé.

Certo dia a chuva nos pegou logo no início da bebedeira e na correria encontramos refúgio num bar onde alguns caras jogavam sinuca, decidimos ficar ali esperando a chuva passar. Alguns conhecidos chegaram. O dono do bar percebendo que éramos amigos da malandragem da área deixou que bebêssemos o que estava escondido na minha mochila, sem precisar ter de mentir, indo ao banheiro toda hora fingir que precisávamos mijar. Os caras que chegaram contaram como, mais cedo, haviam escapado da polícia graças ao dono daquele bar. Eram tipo uns pilotos de fuga, e dos melhores: os serviços daqueles caras eram requisitados em quase todas as quebradas da cidade. A bebida deixava tudo ainda mais impressionante: as narrativas de fuga, a chuva que caía torrencialmente, a cor amarelada do ambiente, o gosto acre da bebida, o som das bolas de bilhar que estalavam enquanto os jogadores berravam… E assim passamos um bom tempo ali até que a chuva abrandou e saímos a caminhar: nos despedimos dos malucos e do dono do bar e dos caras que jogavam bilhar e pegamos a rua. Nem nos distanciamos muito a chuvinha apertou de novo. Tivemos de dar um tempo debaixo de um toldo velho de um mercado abandonado.

A água torrencial que cobria o asfalto faltava pouco nos encharcar sempre que um carro passava apressado. A gente estava um tanto ensopado, mas o álcool roubava a sensação de frio e deixava outra coisa no lugar, como, por exemplo, um certo estado de espírito melancólico, que buscávamos espantar evitando o silêncio. Bem ali que começamos a contar certos acontecimentos passados, e sempre buscando as coisas mais estranhas na memória. Eu sempre inventava muita coisa, a partir de fatos verdadeiros, mas aumentando e muito, e creio que eles faziam a mesma coisa. Carlos falou algo sobre seu pai e percebendo a brecha resolvi perguntar por que ele tinha largado esses lances de igreja. Carlos, que não gostava de falar sobre o assunto, disse que ele teve uma visão e não suportou a verdade.

Que verdade? o outro perguntou. A verdade, uai – Carlos respondeu irritado – a Verdade que vem de Deus mesmo. Deus mostrou pra ele como as treta acontece na igreja e meu pai não aguentou a pressão. Eu tinha chegado da escola mais cedo e tava esquentando o rango quando ele entrou em casa como se tivesse visto um fantasma. Sentou no sofá e ficou ali, sem falar nada, a noite inteira. Minha mãe achou que era uma das paradas que rolam com ele, saca, dessas que meu pai sempre tinha, sabe, que rolam sempre depois do culto, tipo experiência mística. Mas não. No dia seguinte minha mãe acordou e preparou o café aparentemente tranquila. Eu acordei atrasado e dei com meu pai na sala e perguntei se tava tudo bem. Sim sim, ele disse, mas dava pra ver que não tava nada bem não. E foi assim até a noite. Na hora do jantar ele disse que tava largando a congregação de vez. Minha mãe, imaginando ser apenas uma fase, falou nada, mas eu fiquei meio assim, achei que logo logo ele ia voltar a beber como antes de se converter. Os dias passaram e ele parecia atormentado por mil demônios e não falava muito e parecia sofrer pra caralho com aquilo e até dava pra sacar que ele tentava falar, mas não conseguia de jeito nenhum. Um dia aconteceu: ele bebeu, tomou todas, chegou bastante chapado em casa. Disse pra mãe que precisava conversar comigo e me esperou no mesmo sofá onde ele tinha ficado a primeira noite em claro, e quando cheguei em casa ele me colocou sentado na sua frente. A mãe tava na cozinha, chorando. Eu fiquei maluco com aquilo e tava me segurando de raiva, mas queria saber o que ele ia dizer. Aí ele falou sobre a visão que teve. Falou que Deus apareceu pra ele depois do culto e revelou seu processo sagrado de atuação. Filho, meu pai disse com a voz cheia de cachaça, a vaidade nos cega, foi o que Deus me mostrou! Ele tentou se levantar apoiando no meu ombro e falou algo sobre uma série de imagens enigmáticas, e que foi nas séries de imagens que ele entendeu como as coisas se davam. Eu, meu filho, não valho nada e Deus usa os cafajestes no seu plano! E só os que não possuem valor algum que são os escolhidos! Quantas vezes eu não percebia que inventava minhas pregações e me envaidecia da minha capacidade de inventar justificativas pros textos bíblicos e como minha vaidade se inflava ao ver as pessoas com seus olhos brilhantes devorando minhas palavras e como eu me sentia importante por tudo aquilo. Naquele dia entendi a armadilha em tudo. Eu não suportei quando as imagens encadearam… Mas que porra de desculpa é essa pai, eu gritei. Que desculpa mais estúpida! E fui pra cima dele e dei um tapa no seu rosto, ele desmontou no chão! Seu cachaceiro de merda! eu gritei… Minha mãe correu e tentou me segurar e me acalmar, mas eu tava maluco de raiva. Os dias passaram e meu pai não conversava comigo e nem eu com ele, mas ele não bebeu mais desde então. Se dedicou ao trabalho e aos poucos as coisas foram voltando ao normal, até que um dia voltou a falar comigo e eu com ele, pai né mano, num tem jeito! mas não falava nada sobre a igreja ou aquele dia em que lhe dei um tapa na cara.

Um ano depois, mais ou menos, um amigo de meu pai, o Mauro, me encontrou na rua e perguntou sobre ele, falei que tava de boa, trabalhando e tal, que não voltaria à igreja, mas que ninguém falava mais nada sobre o assunto, nem eu nem minha mãe, e no fim das contas minha mãe vivia mais feliz como as coisas iam. O Mauro disse, me puxando prum canto, que no dia da última pregação saiu mais cedo porque tinha que receber uns parentes em casa e depois disso foi até a igreja pra ver se encontrava meu pai pra pegar a chave do salão, já que era sua mulher que limpava a igreja nas quintas feiras. Ao virar a esquina, e assim ele me contava todo afoito, diz que deu de cara com uma forte luz vindo de dentro da igreja e correu até lá assustado e chegando cada vez mais perto a luz foi desaparecendo e quando ele entrou na igreja a luz sumiu por completo e foi aí que ele viu meu pai desmaiado, perto do altar. Disse que meu pai demorou um bom tempo até despertar, e que ao abrir os olhos pareciam um outro homem, mais velho talvez, mas bastante radiante. Disse que falava em línguas e se tremia todo, como se algo corresse pelo seu corpo. Mas logo ele foi voltando ao normal. Eu vi Deus, foi a única coisa que meu pai disse. Quando alguém da família diz algo, a gente já vai preparado pra desmentir e jogar na cara os vacilos e todas as coisas que a gente já sabe do passado e tal, mas ao ouvir aquele cara eu meio que me balancei: ah… a gente sabia que ao Mauro aumentava uma coisa ou outra, mas repetindo as coisas que meu pai tentou me dizer quando bêbado, aquilo me deu um frio na espinha, fiquei agoniado. Eu sei que você brigou com seu pai, ele me disse, tente conversar com ele, nunca contei nada disso pra ninguém, e tentei conversar com seu pai, tentei convencer ele a voltar, mas ele não me ouve, diga que ele precisa voltar pra igreja, você precisa me ajudar, ele é um homem santo! Lhe foi dado um dom e ele precisa contar isso às pessoas, peça pra que ele volte à igreja. Não falei nada, balancei a cabeça e vazei.

Você não quer que a gente acredite… ah pelo amor, cara! eu disse, forçando um riso irônico. Eu boto fé, disse o outro, já ouvi muitas coisas assim por aí. A chuva abrandou, mas não percebemos. Uma hora você vai trombar com alguma coisa e você não vai conseguir explicar e vai ser Deus tirando uma com sua cara, disse Carlos. Porra nenhuma, eu retruquei enquanto tragava a bebida. E aí, falou com teu pai sobre o que o cara te disse?, perguntou o outro ainda interessado. Não, não tive coragem, fiquei com vergonha por ter batido nele. Mas já pedi perdão a Deus, e Deus me entendeu, com certeza. Um dia, depois desse encontro aí com o Mauro, cheguei bêbado e tentei pedir desculpas pro velho e queria também saber como eram as imagens e o que mais ele tinha visto, mas ele não disse nada, me abraçou, disse que não guardava mágoa, mas já não se lembrava mais. Ele tá pra se aposentar, parece que virou um homem santo mesmo, mas de uma maneira bem estranha, sabe, santo apesar de não orar mais, nem ler mais nada, muito menos tocar no nome de Deus. Eu já acho que ele continua religioso, mas de uma forma mais elevada.

Nós ficamos calados por um tempo e, no fundo eu também queria saber quais eram as imagens que o pai dele havia visto, mas não daria o braço a torcer, ficaria calado. Eu conhecia o velho, era um homem enigmático mesmo, quando fiquei amigo do Carlinhos fazia um tempinho que o pai dele não congregava mais e ele, vez ou outra, aludia ao fato, mas nunca se demorara no assunto como naquele dia. Passava das três da matina e a chuva não dava trégua. Amanhã vamos ver se a gente consegue vender mais que hoje hein, porque tá foda… tentei quebrar o silêncio. Mas nada disseram. Você não leva nada a sério, Carlos disse, por fim, e comecei a rir e eles falaram que um dia eu entenderia, e nem bem disseram isso sugeri que fôssemos embora, a chuva não pararia mesmo e o cansaço batia forte. Eles concordaram e fomos embora com a chuvinha nos acompanhando, enquanto eu ficava zombando de toda e qualquer fé.