Muco, ou Um Pedaço do Inferno

A viatura subia preguiçosamente a avenida principal. Passava do meio-dia. Porra, comi um bocado! Mas que calor, vai tomar no cu! Se pudesse eu tirava esse cinto… falou de uma só vez o que estava no banco do carona. O do volante não gostava daquele jeito de falar, talvez por isso mantinha-se em silêncio na maior parte do tempo. A viatura dobrou à esquerda. A rota percorria todo o Setor Norte, entrava em todas as vielas, vasculhava todos os cantos, procurava sabe-se lá o quê. Eram dias tranquilos, coisa rara naquela região: alguns furtos aqui, um pai de família que bebe demais ali, brigas entre vizinhos acolá… Ih!!!! olha quem tá ali. O motorista desviou o olhar até o canteiro onde um rapaz caminhava descalço, aproveitando a sombra das árvores.

Ei Muco, o quê que tá pegando? Pare o carro, pare! O motorista obedeceu a contragosto.

Ei Muco… Ei cara, chegue aqui, anda, vem aqui moço…

Não, tá quente, o asfalto tá quente…

Cadê seu pisante?

Perdi.

Tá alto?

Tô de cara, usei nada não. Uso mais nada não, senhor.

Vem cá rapaz!

Vou nada, tá muito quente, senhor!

Deixa esse bosta pra lá… bora subir… – protestou o motorista bastante irritado.

Não, calma aí, pô! Acabei de almoçar, bota pressão não…

Mas que merda, bora subir logo…

Ei, Muco… Qual é? Venha aqui rapaz.

Não rola não, mano…

E eu lá sou seu mano?

Desculpa, senhor.

Tem rap novo pra jogar na minha mão?

Mas o senhor não gosta de rap.

Mas tem nada novo rolando na área não?

Tem não senhor. Agora posso ir?

Mas você não veio aqui, porra!

Mas não dá não!

Venha aqui, ande!

Não, não dá pô…

Quê que tá rolando nas áreas?

Nada não senhor, já falei, tô quieto desses corre aí. Nada de droga nem de vida do crime. Tô procurando trampo.

Tá a fim de capinar meu quintal?

Mas o senhor mora num prédio…

Ah… é mesmo! Tá ligeiro hein Muco…

Bora porra… Larga esse viciado…

Calma aí! Ô Muco, eu te arrumo trabalho, mas cê tem que vir aqui, cara.

Mas se eu ferrar meu pé, como vou poder trampar?

Boa, Mucão, boa! Dá pra ver que hoje cê não tá louco de pedra.

Tô não senhor. Tô limpo faz uns dias já…

Mas vem cá, pega aqui… – esticou o braço fora do carro, parecia se divertir. O do volante acelerou o carro.

Eu falei pra esperar, caralho! Cada vez que cê por pressão mais eu demoro.

Puta que pariu! Vai-te embora, anda ô marginal, pega subindo… – gritou o do volante.

Liga não Muco, ele tá meio estressado. Por que não gosta que lhe chamem de Moacir?

Não pô… Muco! Existe Moacir não!

Tudo bem, Moacir! Ha ha.

Posso ir?

Vem pegar na minha mão que depois cê pode ir embora.

O rapaz, bastante angustiado com a situação, se apoiou na ponta dos dedos dos pés, quase como uma bailarina e correu até a viatura, pegou na mão do policial e voltou, tudo em pouco mais de quatro passos.

Ah, e eu porra? Me respeita não? – gritou o do volante. O outro policial caiu na gargalhada. O rapaz abaixou a cabeça e resmungou alguma coisa.

E aí, vai vir ou não, seu bandidinho de merda.

Mas eu já fui aí senhor, eu já fui.

Ha ha ha ha. Ê Muco, Moacir, Mucão, meu parça. Anda logo, vá lá! Ele é meio… hum, é mais estressado que eu… ha ha ha ha.

Anda logo seu merda!

Muco, contrariado e querendo acabar logo com aquilo, subiu na ponta dos dedos dos pés novamente e deu um salto rumo à viatura. Antes que completasse o percurso a viatura acelerou e saiu cantando pneu. Muco ficou alguns segundos com os pés no asfalto quente. Logo saltou de volta pra sombra, enquanto ouvia distanciar os dois policiais e suas respectivas gargalhadas.

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