Um Homem Santo

Depois de um dia inteiro gravando CDs pirata num quarto pequeno e sem ventilação saíamos na tentativa de vender uma boa parte daquele material. Mas sempre que conseguíamos uma certa quantia encerrávamos o expediente, comprávamos um vinho ou outra bebida mais pesada para ser misturada com outra bebida e então ligávamos pro Carlos, que não demorava muito aparecia lá pelas imediações do Estadinho, onde preparávamos as bebidas e assim iniciávamos um processo que se estendia madrugada adentro. Andávamos sem rumo, os três, conversando geralmente sobre o passado, enquanto bebíamos ou o vinho barato ou o misturado de bebidas da qual, muitas vezes, nem sabíamos a procedência, mas sempre como se fosse a melhor bebida do mundo. Naquele tempo não havia muita perspectiva, as coisas iam mal: não falávamos sobre o futuro e muito menos sobre a falta de perspectiva presente, buscávamos nos distanciar dos problemas. Falávamos sobre o passado, apenas sobre ele, e quando era pra gerar polêmica recorríamos sempre aos assuntos místicos. Carlos era filho de um ex-pastor, mas a fé de Carlos era inabalável, e quando bêbado ela se tornava ainda mais firme. Ele dizia que um dia largaria a vida louca e se dedicaria a algo mais sério dentro da antiga congregação de seu pai. Eu era o mais cético, e gostava de provocar os outros dois, que frequentemente se irritavam com a minha falta de fé.

Certo dia a chuva nos pegou logo no início da bebedeira e na correria encontramos refúgio num bar onde alguns caras jogavam sinuca, decidimos ficar ali esperando a chuva passar. Alguns conhecidos chegaram. O dono do bar percebendo que éramos amigos da malandragem da área deixou que bebêssemos o que estava escondido na minha mochila, sem precisar ter de mentir, indo ao banheiro toda hora fingir que precisávamos mijar. Os caras que chegaram contaram como, mais cedo, haviam escapado da polícia graças ao dono daquele bar. Eram tipo uns pilotos de fuga, e dos melhores: os serviços daqueles caras eram requisitados em quase todas as quebradas da cidade. A bebida deixava tudo ainda mais impressionante: as narrativas de fuga, a chuva que caía torrencialmente, a cor amarelada do ambiente, o gosto acre da bebida, o som das bolas de bilhar que estalavam enquanto os jogadores berravam… E assim passamos um bom tempo ali até que a chuva abrandou e saímos a caminhar: nos despedimos dos malucos e do dono do bar e dos caras que jogavam bilhar e pegamos a rua. Nem nos distanciamos muito a chuvinha apertou de novo. Tivemos de dar um tempo debaixo de um toldo velho de um mercado abandonado.

A água torrencial que cobria o asfalto faltava pouco nos encharcar sempre que um carro passava apressado. A gente estava um tanto ensopado, mas o álcool roubava a sensação de frio e deixava outra coisa no lugar, como, por exemplo, um certo estado de espírito melancólico, que buscávamos espantar evitando o silêncio. Bem ali que começamos a contar certos acontecimentos passados, e sempre buscando as coisas mais estranhas na memória. Eu sempre inventava muita coisa, a partir de fatos verdadeiros, mas aumentando e muito, e creio que eles faziam a mesma coisa. Carlos falou algo sobre seu pai e percebendo a brecha resolvi perguntar por que ele tinha largado esses lances de igreja. Carlos, que não gostava de falar sobre o assunto, disse que ele teve uma visão e não suportou a verdade.

Que verdade? o outro perguntou. A verdade, uai – Carlos respondeu irritado – a Verdade que vem de Deus mesmo. Deus mostrou pra ele como as treta acontece na igreja e meu pai não aguentou a pressão. Eu tinha chegado da escola mais cedo e tava esquentando o rango quando ele entrou em casa como se tivesse visto um fantasma. Sentou no sofá e ficou ali, sem falar nada, a noite inteira. Minha mãe achou que era uma das paradas que rolam com ele, saca, dessas que meu pai sempre tinha, sabe, que rolam sempre depois do culto, tipo experiência mística. Mas não. No dia seguinte minha mãe acordou e preparou o café aparentemente tranquila. Eu acordei atrasado e dei com meu pai na sala e perguntei se tava tudo bem. Sim sim, ele disse, mas dava pra ver que não tava nada bem não. E foi assim até a noite. Na hora do jantar ele disse que tava largando a congregação de vez. Minha mãe, imaginando ser apenas uma fase, falou nada, mas eu fiquei meio assim, achei que logo logo ele ia voltar a beber como antes de se converter. Os dias passaram e ele parecia atormentado por mil demônios e não falava muito e parecia sofrer pra caralho com aquilo e até dava pra sacar que ele tentava falar, mas não conseguia de jeito nenhum. Um dia aconteceu: ele bebeu, tomou todas, chegou bastante chapado em casa. Disse pra mãe que precisava conversar comigo e me esperou no mesmo sofá onde ele tinha ficado a primeira noite em claro, e quando cheguei em casa ele me colocou sentado na sua frente. A mãe tava na cozinha, chorando. Eu fiquei maluco com aquilo e tava me segurando de raiva, mas queria saber o que ele ia dizer. Aí ele falou sobre a visão que teve. Falou que Deus apareceu pra ele depois do culto e revelou seu processo sagrado de atuação. Filho, meu pai disse com a voz cheia de cachaça, a vaidade nos cega, foi o que Deus me mostrou! Ele tentou se levantar apoiando no meu ombro e falou algo sobre uma série de imagens enigmáticas, e que foi nas séries de imagens que ele entendeu como as coisas se davam. Eu, meu filho, não valho nada e Deus usa os cafajestes no seu plano! E só os que não possuem valor algum que são os escolhidos! Quantas vezes eu não percebia que inventava minhas pregações e me envaidecia da minha capacidade de inventar justificativas pros textos bíblicos e como minha vaidade se inflava ao ver as pessoas com seus olhos brilhantes devorando minhas palavras e como eu me sentia importante por tudo aquilo. Naquele dia entendi a armadilha em tudo. Eu não suportei quando as imagens encadearam… Mas que porra de desculpa é essa pai, eu gritei. Que desculpa mais estúpida! E fui pra cima dele e dei um tapa no seu rosto, ele desmontou no chão! Seu cachaceiro de merda! eu gritei… Minha mãe correu e tentou me segurar e me acalmar, mas eu tava maluco de raiva. Os dias passaram e meu pai não conversava comigo e nem eu com ele, mas ele não bebeu mais desde então. Se dedicou ao trabalho e aos poucos as coisas foram voltando ao normal, até que um dia voltou a falar comigo e eu com ele, pai né mano, num tem jeito! mas não falava nada sobre a igreja ou aquele dia em que lhe dei um tapa na cara.

Um ano depois, mais ou menos, um amigo de meu pai, o Mauro, me encontrou na rua e perguntou sobre ele, falei que tava de boa, trabalhando e tal, que não voltaria à igreja, mas que ninguém falava mais nada sobre o assunto, nem eu nem minha mãe, e no fim das contas minha mãe vivia mais feliz como as coisas iam. O Mauro disse, me puxando prum canto, que no dia da última pregação saiu mais cedo porque tinha que receber uns parentes em casa e depois disso foi até a igreja pra ver se encontrava meu pai pra pegar a chave do salão, já que era sua mulher que limpava a igreja nas quintas feiras. Ao virar a esquina, e assim ele me contava todo afoito, diz que deu de cara com uma forte luz vindo de dentro da igreja e correu até lá assustado e chegando cada vez mais perto a luz foi desaparecendo e quando ele entrou na igreja a luz sumiu por completo e foi aí que ele viu meu pai desmaiado, perto do altar. Disse que meu pai demorou um bom tempo até despertar, e que ao abrir os olhos pareciam um outro homem, mais velho talvez, mas bastante radiante. Disse que falava em línguas e se tremia todo, como se algo corresse pelo seu corpo. Mas logo ele foi voltando ao normal. Eu vi Deus, foi a única coisa que meu pai disse. Quando alguém da família diz algo, a gente já vai preparado pra desmentir e jogar na cara os vacilos e todas as coisas que a gente já sabe do passado e tal, mas ao ouvir aquele cara eu meio que me balancei: ah… a gente sabia que ao Mauro aumentava uma coisa ou outra, mas repetindo as coisas que meu pai tentou me dizer quando bêbado, aquilo me deu um frio na espinha, fiquei agoniado. Eu sei que você brigou com seu pai, ele me disse, tente conversar com ele, nunca contei nada disso pra ninguém, e tentei conversar com seu pai, tentei convencer ele a voltar, mas ele não me ouve, diga que ele precisa voltar pra igreja, você precisa me ajudar, ele é um homem santo! Lhe foi dado um dom e ele precisa contar isso às pessoas, peça pra que ele volte à igreja. Não falei nada, balancei a cabeça e vazei.

Você não quer que a gente acredite… ah pelo amor, cara! eu disse, forçando um riso irônico. Eu boto fé, disse o outro, já ouvi muitas coisas assim por aí. A chuva abrandou, mas não percebemos. Uma hora você vai trombar com alguma coisa e você não vai conseguir explicar e vai ser Deus tirando uma com sua cara, disse Carlos. Porra nenhuma, eu retruquei enquanto tragava a bebida. E aí, falou com teu pai sobre o que o cara te disse?, perguntou o outro ainda interessado. Não, não tive coragem, fiquei com vergonha por ter batido nele. Mas já pedi perdão a Deus, e Deus me entendeu, com certeza. Um dia, depois desse encontro aí com o Mauro, cheguei bêbado e tentei pedir desculpas pro velho e queria também saber como eram as imagens e o que mais ele tinha visto, mas ele não disse nada, me abraçou, disse que não guardava mágoa, mas já não se lembrava mais. Ele tá pra se aposentar, parece que virou um homem santo mesmo, mas de uma maneira bem estranha, sabe, santo apesar de não orar mais, nem ler mais nada, muito menos tocar no nome de Deus. Eu já acho que ele continua religioso, mas de uma forma mais elevada.

Nós ficamos calados por um tempo e, no fundo eu também queria saber quais eram as imagens que o pai dele havia visto, mas não daria o braço a torcer, ficaria calado. Eu conhecia o velho, era um homem enigmático mesmo, quando fiquei amigo do Carlinhos fazia um tempinho que o pai dele não congregava mais e ele, vez ou outra, aludia ao fato, mas nunca se demorara no assunto como naquele dia. Passava das três da matina e a chuva não dava trégua. Amanhã vamos ver se a gente consegue vender mais que hoje hein, porque tá foda… tentei quebrar o silêncio. Mas nada disseram. Você não leva nada a sério, Carlos disse, por fim, e comecei a rir e eles falaram que um dia eu entenderia, e nem bem disseram isso sugeri que fôssemos embora, a chuva não pararia mesmo e o cansaço batia forte. Eles concordaram e fomos embora com a chuvinha nos acompanhando, enquanto eu ficava zombando de toda e qualquer fé.

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