As Mãos Negativas, de Marguerite Duras

As Mãos Negativas de Marguerite Duras, curta que seria facilmente reconhecido como um filme ensaio, filme de 1979, é um daquelas obras que provocam um sentimento perturbador, algo que sempre surge diante desse cinema de investigação, de experimentação, um cinema que é aberto, livre, que se debruça sobre o mistério, sem querer domá-lo; cinema que dialoga com instâncias adormecidas em mim, me deixando suspenso diante de sua sensibilidade, me levando a suspeitar de algo mais: e é à partir dessa inquietação que intuo sobre a sua complexidade subcutânea, à espreita, que esteva ali como que à espera de alguém que a percebesse em funcionamento, para assim transmitir tudo o que ele é, consumando, enfim, o encontro.

Encontro.

As Mão Negativas não quer responder a pergunta sobre o por que um homem imprimiu suas mãos numa caverna há trinta mil anos, é como se soubesse que o mistério repousa sobre a impossibilidade de resposta, e a autora aceita, sem se desviar de qualquer vestígio de angústia, essa impossibilidade. É como se suspeitasse que esse mistério dialoga com o seu enigmático impulso de fazer filmes. E dessa suspeita desenvolve seu trabalho.

Margarite Duras parece, no filme, analisar, ao vagar pelas ruas de Paris, todas as coisas que surgem como se fosse, todo esse percurso que o filme faz, um eco daquele ato distante, de um ancestral e familiar desespero: não são apenas mãos ali desenhadas, mas também gritos grafados numa caverna. O homem diante de um mundo sem sentido, tendo de sobreviver, de aprender a domar esse mundo, de enfrentar diversos obstáculos, frio, chuva, medo, a alegria passageira, doenças, a instabilidade do pensamento… E diante de tantos desafios, sabe-se lá por que, ele imprime suas mãos numa caverna. E talvez desse simples e misterioso ato ele tenha descoberto também um rumo, uma direção, o número que faltava pra entender toda aquela equação: a arte inventou o mundo ordenado dos homens.

Você que tem identidade, ela diz, você que me ouve gritar, eu te amo. Esse grito que nasce com aquele distante homem solitário, olhando pra vastidão, desolado, intuindo todos os afetos possíveis, formulando e vivenciando precariamente(?) alguns desses suspeitos afetos, mas sem vocabulário algum, e que decide fazer um desenho naquelas paredes e ali formula a identidade humana.

Ela o ouve. E ela grita da mesma forma com seus filmes.

As mãos, o fazer, o contato com a coisa, o volume, o peso, a superfície, a ferramenta; a luta pra moldar, domar, reter, transformar: era um grito, mas bem que podia ser também uma reflexão sobre o fazer, sobre essas mãos-ferramentas que ia aprendendo dominar aos poucos, mas que ali seria impressa como testemunho, um ato-desvio, diferente do trabalho desempenhado no mundo selvagem, seria uma celebração estranha: veja só do que essas mãos são capazes! De novo um grito.

Por(pra) que fazer filmes? Por que inscrever suas mãos numa caverna?

O mistério continua.

O filme percorre as ruas de Paris e vagarosamente olha pra tudo que o fazer humano pôde, que o fazer alcançou, forjou. Prédios, carros, esculturas. Palavras. Música. A arte que se desdobrou, que deu vazão a outros fazeres. Ajudou a, quase, domar o mundo. Mas que ainda serve pra gritar, pra extraviar (ou canalizar) a angústia pela falta de sentido; falta essa que invade o fazer, mas não o impede, ou o indispõe, muito pelo contrário, que o fortalece. Pra que serve a arte? Não há como responder. É, a arte, algo resultante da luta do homem contra o absurdo. E o absurdo vai continuar mesmo que essas nações se destruam, que boa parte da humanidade seja dizimada, e restem apenas alguns poucos. Um homem vai olhar pro que resta, vai se desesperar, vai se perder diante das ruínas, e só depois de muita luta vai, num ato lúdico ou desinteressado, descobrir o caminho de volta a si mesmo. Refundando assim tudo o que foi dizimado.

O cinema é uma das tantas sofisticações do fazer humano (o mais longe que se chegou?): o cinema é música, literatura, teatro, e também nenhuma dessas coisas, é outra coisa. Esse dilema, essa irresolução: mas ao mesmo tempo magia negra: essa sobreposição de universos concomitantes, presente passado futuro, esse enganar a percepção, suspensão, imagem. Contudo esse grito: grito singular, que parte do âmago e vai de encontro a um mundo indiferente, cruel, selvagem. O cinema como as paredes da caverna onde há de se grafar seus gritos: veja do que essas mãos ainda são capazes! Mas a natureza ainda é a mesma, apesar de tudo.

O cinema como uma parede infinitamente mais frágil, apesar de toda sua sofisticação.

Um filme sobre o mistério que nos sustenta aqui. Um filme sobre Margerite Duras e seu ofício. Um filme sobre a persistente e inútil pergunta bifurcada: o que é, e pra que ser a arte?

Um filme que me faz pensar minha estadia nesse mundo, sua fragilidade, minha fragilidade, e o desejo de gritar todas essas coisas. Marguerite me leva de encontro a um dos inúmeros ancestrais dos homens, e é como se escrevesse a ele uma carta noticiando como andam as coisas desde então.

Quem sabe não somos nós os destinatários desse homem ancestral, em contato constante com ele, desde o primeiro respiro.

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