O Aprendiz de Feiticeiro

I

Segura a onda, moleque.

Mas a feira tá pra acabar, anda logo com isso.

O irmão mais novo fazia um gesto irritado com a mão esquerda enquanto mantinha a outra no bolso da bermuda e os olhos grudados na porta do bar. 

E agora? Posso ir?

Ainda não, calma!

Paulinho não compreendia aquele demorado ritual, passou a andar de um lado a outro, fazia gestos impacientes e insistia em repetir as mesmas perguntas. Pedrinho, o irmão mais velho, mantinha o controle da situação com frieza, calculando toda movimentação dentro e fora do bar e sem se deixar levar pela danação do irmão mais novo. Dali de onde estavam era possível não só ver a bicicleta na porta do bar, como entender todo o movimento lá de dentro, e ainda monitorar toda a feira. 

Não esquece que cê vai até a segunda rua, vira pra esquerda, entra na da direita e me espera naquele beco, lá no final. 

Mas eu posso ir direto pra casa, não dá nada não! – Pedrinho se irritava com a teimosia do mais novo, mas tentava manter-se calmo. 

Olha aqui, ou faz do jeito que tô falando ou nada feito. 

Tá tá, beleza! E depois?

Depois nada, me espera lá.

Paulinho ficou encostado no poste, olhando vez ou outra pros lados, parecia mais calmo, enfim algo iria acontecer. Pedrinho foi até o bar, entrou e procurou algo na vitrine de salgados, perto do caixa. 

Quê que cê quer, moleque?

Ah eu? ah… é quanto o doce? 

Depende do doce. 

Então me vê um copo de água, por favor.

Foi tão desenvolto que de pronto irritou o dono do bar que, enquanto o moleque ajeitava os cotovelos em cima do balcão, teve de enfiar as mãos molhadas nos bolsos, como que tentando entender a petulância do moleque. Dali a pouco, a contragosto, o dono do bar foi até a torneira e encheu um copo com água. 

Toma e vê se some daqui, ô moleque. – E virou-se pro homem grisalho que bebia cerveja no balcão: Esse moleque aí tem cara de treta, não tem? 

O homem grisalho olhou pro menino e sorriu com tom de escárnio, depois voltou pra sua bebida.  Paulinho saiu do bar e foi em direção à feira. De lá ficou de olho pra ver se alguém sentia falta da bicicleta. Foi como tinha planejado. Aquele homem grisalho bebia sempre de costas pra rua e se esquecia da bicicleta: o problema era desviar a atenção do dono do bar. Deu a volta na feira e pegou a rua de trás, que dava uma longa volta, mas que também não deixava vestígios. Pensava apenas no irmão:

Aquele moleque burro, tomara que tenha feito o que falei.

II

Passou por algumas ruas desertas, algumas vielas e por um grande supermercado. Dobrou à esquerda e por fim viu o beco. Caminhou até o final do beco e, de soslaio, percebeu o irmão sentado na porta da última casa da rua. 

Cadê a bicicleta? 

Tá ali. – Pedrinho percebeu uma porta encostada e entreviu a bicicleta lá dentro.

Acho que não mora ninguém aí não – disse Paulinho com ar entediado, se esforçando pra não se mostrar envaidecido pela brilhante ideia.

Levanta daí e me ajude aqui. 

A gente vai pegar por ali e atravessar o brejo até o asfalto lá. – Paulinho apontou pro pasto que se perdia de vista. O irmão mais velho pela primeira vez não reclamou. A demora do irmão serviu para que Paulinho pensasse em várias possibilidades, traçasse rotas, e de todas aquela era a melhor opção.

Enquanto atravessavam o pasto Paulinho não parava de tagarelar. Falava sobre os amigos, sobre passeios, sobre tunar a bicicleta, quem sabe até rebaixar ela; perguntou pro irmão se ele sabia o que era bicicleta rebaixada, e Pedrinho fazia de conta que não ouvia.

Mas acho que não vou fazer isso não, vou só pintar o quadro, porque depois vai que cê precisa dela, daí vai dar ruim, bike rebaixada é foda … Se pá meter uns aro dos mais foda, sabe de qual?

Não, não sei, e olha aqui: mandar um papo reto, pega a visão: cê não vai dar ideia pra ninguém dessa bicicleta ainda, falô?

Quê que tem?, é só pintar ela e pronto, já era, ninguém vai ficar sabendo.

Eu falei que não, porra! E se liga: a gente nem vai levar ela pra casa ainda, tá ligado? Tenho um lugar pra esconder ela por um tempo, vai ser perigoso ficar roletando com ela por aí agora.

Paulinho se alterou no mesmo instante:

Que nada, eu que me arrisquei: quem decide sou eu, e num dá nada, já falei: cê acha que sou otário, cê num vai passar o pé ne mim não, mano! Vai se fuder! Acha que sou otário?

Pedrinho fingiu calma, mas foi severo:

Presta atenção, moleque burro: o dono dessa bicicleta andava pra todo lado, cê acha que ele não vai sair por aí perguntando dela não? No primeiro dia cê vai rodar, e vai rodar bonito, seu trouxa! Olha essa bicicleta, olha esse quadro aí, cê acha que ninguém vai sacar? Ainda mais com quem nunca teve uma bicicleta? Vai ser latada na certa. Aliás, tanto faz, cê num vai durar uma semana.

III

Uma vez no asfalto e percebendo que a dura no mais novo havia surtido efeito, Pedrinho chamou novamente a atenção do irmão de novo:

Se vacilar, Paulo, já era: a mãe vai ficar sabendo, cê vai se fuder de tudo quanto é jeito; então me escuta, moleque, me obedece que logo cê tá com ela na rua, nem me interessa essa bike, tô terminando de montar a minha lá no Kevinho, então só me obedece, que daí cê rebaixa essa porra, faz o que quiser com ela.

Paulinho parecia incomodado com alguma coisa. É que eu sempre me ferro, você vive me passando pra trás… – o mais velho interrompeu:

Olha aqui eu sou sujeito homem e cê mostrou que é também, então já era, esquece essas fitas e só faz o que eu tô falando, a bicicleta é sua e pronto, vê se não me enche, só quero te ajudar a ter a porra de uma bicicleta, moleque burro. 

Pedrinho apontou pro lote baldio entre duas construções novas:

A bicicleta vai ficar num buraco que tem ali, até daqui a umas duas ou três semanas, lá vai tá tudo certo.

Caminharam até o final do lote baldio. Tiraram esquadrias velhas e algumas madeiras da boca do buraco, que parecia ter uns dois metros de profundidade.

Murcha o pneu dela.

O irmão mais velho fez que não ouviu. A distância entre os dois não diminuía e por mais que o irmão mais velho tentasse demostrar respeito pelo mais novo, principalmente pela coragem de pegar a bicicleta, na prática o que se percebia era outra coisa. Paulinho tinha lá seus 12 anos, havia sido presa fácil do irmão por anos, por isso odiava tanto o mais velho. Ele entrou naquela porque queria provar que não era nem vacilão e muito menos o mesmo trouxa de antes: mas já entrou na fita desconfiando de tudo. E aceitou participar daquela sem que o irmão soubesse das outras paradas que havia feito com o Vesgo no supermercado e umas até naquela feira lá: umas três ou quatro ações de sucesso. Estava seguro de si e sabia que se sairia bem, porque dificilmente ficava nervoso na hora da ação. Mas o mais velho não parecia ver nada disso, nada a não ser ele mesmo. Mas dessa vez não, pensava o mais novo, vou ficar ligeiro.

IV

Os dias foram passando e nada de tocarem no assunto da bicicleta. Paulinho todo santo dia ia verificar se a bicicleta continuava no buraco. Depois passou a ir dia sim dia não, passou a confiar levemente no irmão. E assim se passaram lá umas três semanas. 

Perguntei pro Vesgo se ele tinha ouvido falar de algo por aí e ele disse que nada! Já deu né, vou tirar ela de lá!

Pedrinho deu um pulo:

Cê num falou com aquele linguarudo do Vesgo, falou? Não acredito nisso, mano! Mas como você é burro! Agora entendi, agora entendi. Acabei de passar lá e a bicicleta já não tava lá, entendi tudo!

Paulinho se sobressaltou:

Como assim não tava? Passei hoje de manhã com o Vesgo e tava lá do mesmo jeito! 

Mas agora já não tá, mas já saquei, tu é burro demais, moleque!

Sabia que cê ia me roubar! – gritou Paulinho que partiu pra cima do irmão – Seu desgraçado, seu desgraçado!

Mas Pedrinho deu um empurrão e o irmão caiu no chão. Paulinho se levantou e foi até a cozinha, pegou uma faca pequena e avançou pra cima do irmão, cego em seu furor, e num golpe foi derrubado novamente pelo irmão. De repente havia sangue pra todo lado: Pedrinho estava ferido. O impacto do sangue pelo chão da sala fez com que ele se detivesse, e então caiu num choro doído. 

Ela era minha, você não podia ter feito isso, era minha. 

Pedrinho não falou nada. Foi até o quarto e rasgou uma camiseta velha e estancou o ferimento na mão. Depois foi pra sala e ligou a televisão; depois foi até a cozinha e botou o almoço no prato. Paulinho parou de chorar e com o semblante pesado trocou de camisa e saiu de casa, sem olhar pros lados. Pedrinho terminou seu almoço com calma, como se nada tivesse acontecido e ainda tirou um cochilo.

V

Já havia anoitecido quando a mãe dos meninos chegou em casa extremamente cansada, e já foi se irritando ao perceber os pratos do almoço na pia e as panelas abertas sob o fogão. Esbravejou contra os filhos que estavam na rua jogando bola, e foi até a sala e pegou os copos que estavam sob o sofá. Pegou a vassoura e começou a varrer todo o lugar. Não sei se era culpa da fraca lâmpada amarelada ou se já era um ato automático, mas ela limpou toda a casa sem se dar conta que aquilo que manchava o chão da sala era sangue. Lá pelas tantas chegou Paulinho, e logo depois Pedrinho, e a mãe lavava a louça da cozinha, enquanto na TV passava novela das 9.

2 comentários em “O Aprendiz de Feiticeiro”

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