A Morte do Bookmaker Chinês

Os filmes de Cassavetes exigem um esforço, um deslocamento, um trabalho, porque temos de lidar com terrenos pantanosos, irregulares, íngremes. Não é entretenimento, é trabalho, é esforço, é lidar com a inquietude em duas vias: uma que acompanha o personagem e que de imediato se desdobra no espectador.

Em A Morte do Bookmaker Chinês nos vemos cúmplices de uma derrocada, de uma tragédia eminente, de um vagar pela cidade (vida) enquanto condenado. O personagem principal parece compreender a sua condenação desde o primeiro minuto de filme e parece fazer as pazes a todo instante com a sua sorte. Assim que o carro, dado pelos gangsters para que ele cumprisse a sua missão, quebra na auto estrada, ele toma a decisão de tomar um táxi, para numa cabine telefônica e, depois de pedir o táxi, liga para sua boate, onde monitora, com uma estranha tranquilidade, a ordem das apresentações: é como se ali que estivesse seu coração! E saber disso parece lhe fazer suportar toda a pressão da missão amaldiçoada. Ele vai sofrer revezes, indiferente se aceitar ou não a missão. E assim ele cumpre seu destino. Mas o seu foco é a boate, é manter o seu pleno funcionamento. Se puder vivê-la enquanto os males o circunda, vivê-la por míseros instantes, ele poderá, assim, suportar o resto, enfrentar o que está no seu encalço como um animal feroz.

No entanto, logo desconfio de tudo isso: parece haver uma motivação secreta, um sentimento secreto no personagem, algo, que eu chamaria de sagrado, a lhe dar energia pra enfrentar aquilo tudo, quase uma fé… aliás, como gosto de adentrar nessa dúvida, nessa desconfiança, nessa suspeita. Até porque é uma relação estranha, a dele com toda aquela situação, é algo que parece antinatural, que me incomoda. Mas podemos olhar pro filme e compreender que o exagero, que o excesso, que o desmedido, que tudo isso é paródia da situação humana. Estamos nos equilibrando acima do precipício, dia após dia, segundo a segundo; e o que nos acalenta, o que nos move, os nossos objetivos pessoais, sonhos, desejos, tudo isso é o que nos faz persistir diante do absurdo da vida e todas as consequências que sempre virão, por vezes desmedidas, e que tendem sempre a nos ferir de alguma forma, por serem desmedidas! E cada um de nós parece cultivar uma fé secreta, uma chama que nos faz persistir diante do absurdo.

Na tela sentimos toda a angústia por meio de uma montagem que consegue isolar apenas o que deve causar desconforto no espectador, aproximando-o do personagem principal, da sua sorte, fazendo com que sintamos um suor frio escorrer pelas nossas costas, sentindo a distância do personagem e sua vil sorte e a proximidade com nós mesmos e nossa vil sorte: nos aproximamos de nós mesmos sem perceber. É um trabalho, é um esforço, chegar ao final do filme, quase que ferido de morte e mesmo assim não morrer. E segue o show, o teatro caótico e infame continua, com suas mulheres seminuas, narrativas torpes, desejos corrompidos, bebidas e escuridão: tudo permanece no seu curso natural.

Cassavetes entende a vida como ninguém! É consegue transportá-la pras telas como o grande artista que só ele consegue ser. E reflete os nossos segredos com uma translucidez assustadora.

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