A Mulher do Maranhão

Vem cá, Maranhão, sente aqui!

Só se me pagar uma.

Cê já tá bêbado?

Tô nada, vou fazer um quatro, ó… – Maranhão tentou se equilibrar numa das pernas e quase caiu: no reflexo alterado pela bebida tentou se apoiou na mesa e quase levou toda bebida ao chão. O pessoal passava mal de tanto rir. Sujeito folgado. Vivia sendo sacaneado pelo pessoal e gostava disso. Era só aparecer gente nova no bar, ele se encostava no sujeito procurando um jeito de explicar seu apelido, e caso o novato demonstrasse algum interesse a primeira coisa que dizia era que, na verdade, ele era paraense e não maranhense.

Nasci em Carolina, na divisa do Maranhão com Tocantins, mas só nasci mesmo, porque no dia seguinte eu tava indo pra Belém.

Deixe de ser burro, homem! tu nasceu foi no Maranhão, não importa se tu se mudou uma hora depois.

Quem sabe sou eu!

Tu é muito burro, Maranhão… – Mas ele teimava e com aquela mansidão de sempre, argumentando sem muita fluidez que se é mesmo é do lugar onde se cresce, não do lugar onde se nasce.

Era de estatura média, queimado de sol, um típico maranhense: digo nesse tom porque minha mulher é de lá, e quando os irmãos dela descem pra cá parece que ao mesmo tempo sou quem subo pra terra deles. Maranhão adorava uma cachaça! Adorava até demais. Era preciso, vez ou outra, que o encarregado da obra prometesse umas doses após o expediente para que ele se dedicasse ao trabalho com um pouco mais de seriedade. E adiantava por pouco tempo. Ele ia se desleixando, folgando aqui e ali, até se relaxar de vez, e caía na lerdeza de sempre enquanto os outros se matavam para cumprir as obrigações do dia. Coitado do encarregado, de vez em quando ele vinha aqui, mas nunca reclamava, parece que ele gostava do Maranhão, ou sentia pena, sei lá.

Meu estabelecimento é tipo um pequeno armazém: de manhã vendo pães e bolos e biscoitos, essas coisas, e dá até pra fazer uma comprinha básica e tal; depois do meio dia isso aqui vira praticamente um bar, apesar que tem gente que faz compras aqui sem se incomodar com a algazarra. Foram as inúmeras obras de expansão do bairro que criaram essa peculiar dinâmica no meu estabelecimento. Apesar disso nunca tive problemas. Mas o Maranhão vivia procurando um jeito de me ferrar: bicho folgado, conversador, metido a mulherengo! Era preciso enxotar o cabra quando a madrugada chegava, ou até antes, quando ele estava numa daquelas fases das mais difíceis. Às vezes ele dormia na calçada, bem aqui na entrada. Lavava o rosto no banheiro lá de fora, comia do pão com manteiga que eu preparava pro meu desjejum e tomava do café que era pra minha manhã, e por fim se arrastava até a construção que ficava à duas quadras daqui. Tinha fim de semana que era ainda mais difícil, ele dava o dobro de trabalho: dançava nas mesas, mexia com o pessoal na rua, cantava alto, cochilava sentado e derrubava os copos no chão, quebrando também as garrafas. Era tanta algazarra que o pessoal sentia o lugar sem graça quando Maranhão vez ou outra desaparecia. Era estranho isso, mas ele sumia por uns dois ou três dias.

Certa vez, depois de desaparecer por uns dias, ele entrou aqui com um camarada parecido com ele, um tal primo seu, muito parecido mesmo, tão folgado quanto. O primo se enturmou de primeira.

Ei, tu sabe pronde o Maranhão vai quando some? – E o primo respondeu:

Pra casa da mulher dele!

Achei que ela morasse num albergue…

Nada, moço, essa desgraça é casado!

Como assim casado? Olha o jeito dessa peste, pelo amor de deus, que casado o quê!

Mas moço, eu tô te falando que essa desgraça desse primo meu é casado! E a mulher é a coisa mais linda do mundo. – Sacou o celular do bolso e mostrou uma foto de uma festa onde havia uma mulher bastante bonita, cabelos lisos escuros, rosto arredondado, pela morena, os olhos de um brilho sem igual, sentada ao lado de um Maranhão bem-vestido e aparentemente muito bêbado. Maranhão se ria no canto, enquanto tentava cantar uma música qualquer: estava quase travado de bêbado.

Aquela história não colou muito. Podia ser armação dele com o primo, querendo pregar uma peça no pessoal. Mas dias depois, na obra, alguém fuçou no celular dele e viu outra imagem da mesma mulher, e havia uma criança na foto. Pessoal passou a não entender bem o porquê do Maranhão ser do jeito que era. Mas ele conseguia desarmar qualquer um com aquele sorriso indolente, com suas histórias indecentes, e aquele cantar desafinado que modificava as canções ao ponto de soarem estridentes e irritantes.

Os dias passavam e ele conseguia, com todo aquele tino pra vadiagem, manter seu encarregado irritado, e depois do expediente mantinha o bar entretido com sua fala arrastada e histórias que nunca davam em nada. Numa dessas o primo aparece ali de novo. Era dia de pagamento e o pessoal estava muito animado, uma farra só. Maranhão dançava e tentava xavecar as mulheres na rua. Fui à cozinha e quando voltei percebi o pessoal amontoado na porta do bar. Maranhão havia desmaiado. Pronto, pensei, o cabra morreu no meu estabelecimento! O primo foi lá e o abanou umas duas vezes e mandou que colocassem o moribundo sentado numa cadeira ali mesmo, na porta.

Calma gente, isso acontece de vez em quando.

Mas aqui nunca havia acontecido dele apagar assim, e ainda tão cedo. 

Pense num homem louco – disse o primo enquanto ajeitava o desacordado: Teve um casamento de um parente nosso que este doido desmaiou na pista e mal foi socorrido, este maluco bem aqui, mal o socorreram e ele já tava de pé dançando de novo, oxe! Não é de ver que este cara aqui, da vez que andou pras bandas de São Paulo se meteu numas de fazer testes de remédio? Isso mesmo: trabalhou pras farmacêuticas de lá, olha as ideias! Ganhava uma grana boa, mas o doido não podia beber, e bebia escondido. O pessoal da indústria lá descobriu que ele bebia, daí foi dispensado. Desde então vez ou outra ele desmaia assim, apaga do nada, e tu acha que se foi, que já era: que nada! Agorinha vocês vão ver. Acho que ele vai passar por isso pelo resto da vida; lá em casa a gente já tá é acostumado. Só deixe ele sentado aí, assim, deixe, vá, deixe assim que logo ele volta ao normal. 

O primo se parecia muito com Maranhão, o jeito de falar então… Se passariam por irmãos tranquilamente. Mesma estatura, mesmo timbre de voz, mesma petulância. Ambos pareciam com os meus cunhados. O pessoal chamou o primo numa mesa, que passou a ser chamado de Maranhão 2, e foram perguntar sobre a vida secreta daquele sujeito estranho apagado na mesa lá do lado de fora.

É um sujeito de sorte, disse o primo, um sujeito de muita sorte. Cada loucura que esse maluco já se meteu. Num é de ver que um dia… – de repente o desacordado cai no chão de novo. Todo mundo se levanta. Maranhão se põe de pé, apoiando na cadeira, parecia meio tonto ainda. E mal se segura de pé e já pede outra dose de pinga. O pessoal cai na gargalhada. O primo vai até ele e pede que pague uma dose.

Que dose o que seu vagabundo, tu é que tá me devendo.

Mas acaba pagando a bebida. O primo não falou mais nada sobre o passado, parecia gostar do Maranhão e preferia andar atrás dele, fortalecendo a algazarra que o parente desencadeava com muita sem-vergonhice.

Poucos dias depois Maranhão largaria tudo por conta duma carona que subiria pro Norte. O encarregado, que não aguentava mais aquela situação, e vendo a hora do sujeito morrer numa dessas bebedeiras, aceitou o pedido e fez o acerto. Maranhão não se despediu de ninguém: sumiu com uma carona que ninguém sabia ao certo onde ele tinha arrumado.

Ontem, vindo da casa da minha sogra, vi o primo do Maranhão atravessando a rua. Estava com sua família. Alias,  era o que parecia num primeiro momento. Brigava com o menino, enquanto a mulher o empurrava. Quase fui lá procurar saber do Maranhão, mas deixei pra lá, até porque a briga com a mulher e o menino estava se tornando algo mais sério: e o menino chorava e o primo xingava a mulher de tudo que lhe vinha à mente enquanto ela gesticulava com furor, dando tapinhas nas costas dele. Mas logo a briga deu uma amenizada e então atravessaram a rua. Quando chegaram do outro lado percebi que aquela mulher se parecia muito com a da foto, a dita esposa do Maranhão. E era mais bonita que na foto, um belo corpo, os cabelos  escuros e lisos, cabelos de índio… Se não fosse a mesma mulher da foto, seria sua irmã gêmea. Talvez fosse mesmo a mulher do Maranhão, talvez o primo estivesse cuidando dela até que o Maranhão voltasse. Os segui por um tempo, mas faltou coragem pra uma abordagem. Eles tomaram a via principal e depois entraram numa rua estreita que dava num cortiço que era também o final da ruela. Memorizei o endereço. E fui embora. Quem sabe um dia desses eu não apareça por lá pra saber o que aconteceu com o Maranhão.

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