Helena

I

A professora escreve no quadro negro enquanto comenta sobre as provas, a sala está totalmente dispersa. Alguns falam baixo entre si, outros mexem no celular, o resto dorme. A professora, uma mulher de meia-idade e de estatura baixa e cabelos encaracolados escuros, pede silêncio sem se virar, o texto que escreve no quadro negro vai se tornando longo.

Vocês não estão copiando! Tá difícil sala, é tema de prova, já falei, vocês não me escutam, depois não reclamem. – Todos, de repente, fingem prestar atenção ao perceber o timbre de irritação da professora. Todos menos Helena.

Quem é aquela ali? – A sala diz que é Helena, em tom de algazarra, já esperando a punição.

Acorde aquela mocinha pra mim, você aí mesmo, acorde ela. – Helena levanta a cabeça sem saber o que está acontecendo, tira os fones de ouvido.

Saia da minha sala agora, saia, aqui não é hotel, não faço questão de aluno desinteressado! E se alguém mais quiser sair que saia! – Helena passa pela professora e coça os olhos e boceja e coloca de volta os fones de ouvido nas orelhas. – Não vou tolerar mais isso nas minhas aulas, chega! As provas tão aí, o problema é de vocês!

Helena procura um lugar pra se sentar no pátio da escola, deixa o caderno sobre o colo e mexe no seu celular. Depois de um tempo ela se levanta e procura um bebedouro. No caminho encontra Giza.

Falei pra você não entrar naquela aula. – Helena não responde. – Mas que desânimo. Credo! Nós vamos vazar daqui! O portão tá destrancado, quer dizer, o Lucas destrancou quando saiu e deixou aberto. Bora?

Só o Lucas?

O Paulo e o Júnior vão também. Sei lá se vai ter mais alguém, esses que falei eu tenho certeza! Vamos andar por aí, sei lá, beber algo…

Sei não…

Se eu fosse você iria, o Lucas, cê sabe…

Lá vem você de novo.

Bora, porra. Sai dessa vida. Se ficar aqui a diretora vai te fragar, e vai ser bem pior.

Sei não… Depois você faz alguma gracinha com o Lucas…

Esquece esse papo de Lucas, foi mal. Não tá mais aqui quem falou. Vamos dar um rolê por aí e só, na moral, só isso.

II

Helena, Giza e outros três garotos andam pelas ruas. Se empurram enquanto cantam as músicas que sai do celular de um deles. Helena parece outra, mais solta e disposta a brincar.

Quem vai buscar? – Giza interrompe a cantoria.

Cadê o dinheiro, ué?

Mas de novo?

Como assim de novo? – Os meninos brigam entre si.

Se liga, você não me deu nada ainda, malandrão, só falta sua parte aqui!

Eu vou com você!

Precisa não, vou rapidão! – Responde Lucas.

Os outros se sentam na calçada enquanto esperam. Um deles liga o som do celular.

Desliga isso aí Júnior, e escuta isso aqui, baixei hoje, pira nesse som! – Ouvem a nova música em silêncio.

Esse som é doido de mais! – Diz Giza. – Passa pra mim!

Passo nada, vai ficar na vontade. – Antes que Giza proteste Lucas reaparece. Dividem a bebida em copos e a música continua.

Se liga nessa passinho.

Que merda de dança..

Que nada, sou mestrão nessa porra…

Tá indo bem, mas falta rebolar mais, cê parece uma vassoura!

Como assim não sei rebolar? Se liga nisso.

Credo mano para, porra.

Paro não, aqui ó, bem na sua cara! – Todos riem da situação.

Ensina ele aí Lucas, diz Giza.

Peraí, segura meu copo Helena. – Lucas começa a dançar e logo Giza se joga entre eles. Depois de um tempo Lucas se senta ao lado de Helena.

A Lacraia te botou pra fora da aula? – Helena não respondeu de imediato, tomou um trago da bebida. Faz careta.

Essa parada tá horrível.

Era o que o dinheiro dava, o Paulo nunca contribui. – Depois de um silêncio Helena responde à primeira pergunta:

Aquela mulher é um saco. – E depois de outro tempo remenda:

Lacraia…

O Paulo que deu esse nome pra ela. Mas não parece? – Giza para de dançar.

Tá muito fraco isso aqui.

Tá mesmo Giza.

Mas tá muito fraco mesmo! – Reitera Giza.

Bora dar um grau nessa merda, me dá uma grana aí Paulo, pra deixar isso aqui  mais forte.

Mas que saco, aqui ó, só tenho cinco!

Já é alguma coisa. – Os outros tiram o que restava de dinheiro nos bolsos e Lucas sai em busca de reforçar a bebida. Helena parece a mais alta da turma e também parece a mais descontraída: eles se empurram, cantam, parecem amigos de longa data.

Quem tá a fim fumar um? – Diz Paulo.

Tem aí?

Tô ligado num chegado meu ali, ó!

Mas você num tava sem grana?

Nada, sempre tem, pro bagulho ele sempre tem! – Ironiza Giza.

Pra maconha sempre tenho mesmo, num curto álcool não, num me dá tanta brisa assim. Borá lá comigo! As meninas esperam a gente aqui.

Vou nada!

Beleza, seu otário! Me espera aqui galera.

III

Paulo vasculha o celular em busca de uma música nova. Giza se afasta com a amiga na desculpa de procurar um lugar pra mijar.

Ele não é uma gracinha?

Quem? Ahh…

Nah, para vai Helena! – Helena não responde. Andam até chegar num posto de gasolina. Na volta Giza fala qualquer coisa enquanto Helena parece não prestar atenção.

Nossa parece que já tô alta, mas parece que não vai passar disso!  – Diz Helena, interrompendo a amiga.

Presta atenção: eu dou um jeito com os meninos e tu se vira com o Lucas, vê se num vacila.

Você não presta mesmo.

E aí, que demora, onde cês tavam, demoraram pra porra!

Tava mijando, caralho, cê tá parecendo minha mãe!

Achei aquele som lá, anda logo, minha bateria tá acabando.

Calma! Tô bêbada já! – Grita Giza.

Guarda minhas coisas aí, tô com medo de perder. – Helena entrega os cadernos pra Giza.

Joga essa porra fora.

Tô falando sério.

Tá tá, coloca aqui, e deixa de drama.

Cuidado com meu fone.

Que se foda o fone!

Não, me dá aqui o fone.

Que se foda esse fone!

IV

As ruas estão desertas. Já passa das onze da noite, mas eles não parecem se importar. Helena está conversando com Lucas, ambos se destacam do grupo.

Você mora perto da Giza?

Não, mas com certeza vou ter que dormir na casa dela hoje.

Você mora longe?

Não é tão longe. Quantas horas, hein?

 Deixa eu ver. É onze e quinze.

Cara, essa bebida tá muito ruim!

Tá mesmo. Achei que ia melhorar, só piorou. – Os dois sorriem.

Mas é melhor que aquela aula lá. – Helena percebe o pessoal acelerando o passo, logo somem. Depois de um tempo em silêncio Lucas puxa Helena e lhe dá um beijo que é de pronto correspondido. Logo se encostam numa parede. Se beijam por um tempo.

Vamos ali. Ele puxa Helena pela mão e a leva duas ruas abaixo. Entram numa viela mal iluminada. Voltam a se beijar. Eles vão tirando parte das roupas. Suspiram.

Aqui é seguro, não tá a fim?

Não sei…

V

Os dois estão em busca dos amigos, em silêncio. Helena parece forçar indiferença, enquanto Lucas olha algo no celular.

Ela não responde. O que a gente faz?

Tentei também, deu nada.

Já é madrugada… Vamos pra minha casa, moro aqui perto.

Acho que não.

Mas tá muito tarde pra você ir sozinha.

Não dá nada.

A Giza deve tá chapada e o celular do Paulo tá dando direto na caixa, mas que merda… – Depois de um tempo ele toma coragem e diz que a levará até em casa. Helena não responde, procura algo no celular.

É sério, não vou deixar você ir sozinha.

Não precisa, na moral mesmo.

Te deixo na porta da casa da Giza.

Não precisa, já falei mano! – Foi meio áspera.

Não quer ligar pra alguém, chamar um conhecido – Insiste Lucas.

Tá de boa, sério mesmo. – Responde com menos acidez.

Não posso deixar você ir sozinha, vai ser foda.

Pode sim, é de boa, até amanhã.

Ela se vira e continua a descer a rua. Ele fica parado sem saber o que fazer. Parece decepcionado. Ela continua andando, e de repente olha pro celular e para no meio da rua. Se vira pra trás. O rapaz ainda está lá, parado.

Me diz uma coisa, você tem um fone de ouvido pra me emprestar? Acho que perdi o meu.

Tenho.

Amanhã te entrego.

De Boa, mas cuidado, hein.

Vou cuidar dele sim!

Não, cuidado com você.

Dá nada, sou cria, valeu pelo fone.

Ela coloca o fone de ouvido e vai embora.

Lucas a observa até que ela desaparece. Reluta em segui-la, ao menos à distância, mas aquela dureza dela o desencoraja, então toma a direção de casa. Depois de alguns passos, não suportando a ideia de deixá-la sozinha naquelas ruas, desiste de ir pra casa e sai em busca de Helena. Desce correndo pela rua da direita até a quadra de baixo, respira e toma a da esquerda, vê um vulto, é Helena. A alcança, controla a respiração ofegante, e se põe a caminhar ao lado dela. Helena percebeu ele se aproximando e não disse nada. Motocicletas barulhentas cortam ruas distantes, cachorros latem pros gatos nos telhados e os dois seguem em silêncio pelas ruas vazias.

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