O Demônio dos Outros

I

Um dia Dária, a administradora de uma pequena empresa de limpeza de obras situada na última rua do bairro B., chegou mais cedo no trabalho e surpreendeu o Pastor jogando sal em todo o galpão. Esse Pastor era um rapaz de uns 22 anos, magro, com uma face sofrida, envelhecida, com trejeitos que faziam suas cicatrizes no lado esquerdo do rosto se tornarem ainda mais assustadoras. Era esforçado, mas não conseguia aprender muito, mas ainda sim tentava. Dária percebia isso e respeitava, mas o tratava com dureza como fazia com os demais funcionários. Havia se convertido havia pouco tempo e já se tornara auxiliar de pastor. Se convertera ainda na prisão, e quando conseguiu a liberdade saiu com um lugar garantido na congregação. O líder da comunidade havia descoberto o rapaz durante os cultos na cadeia municipal, e dedicou muita energia para que ele seguisse o caminho evangélico: havia percebido que o rapaz era inteligente, bem articulado, e poderia desenvolver com muita facilidade o dom da palavra. Assumiu como pastor auxiliar e logo seria pastor adjunto, mas já pregava nos cultos de quinta, estava indo bem, mas ainda não podia ser remunerado pela congregação, então precisaria, por um tempo, trabalhar no mundo pra ajudar a esposa e o filho pequeno. Foi o líder da congregação que arrumou emprego pra ele naquela empresa. Pediu para que tivesse fé, disse que sabia que ele venceria as dificuldades, e o rapaz aceitou o desafio. Mas ele gastava muita energia tentando superar os problemas, que eram muitos: e ele não tinha habilidade alguma pro trabalho braçal: não conseguia assimilar bem os mais simples afazeres. Mas ele não era mal educado ou grosseiro como os outros funcionários, mas havia algo que vibrava no seu interior sempre que Dária reclamava de algo mal feito por ele. O Pastor trabalhou 30 dias ali e foram 30 dias em que Dária mandava ele refazer as suas obrigações. A administradora tentava ter paciência, sabia que ele estava se esforçando. Mas ela ficou fora de si quando viu o sal grosso sendo alucinadamente jogado no galpão.

Mas o que você tá fazendo? – Ela gritou.

Tô santificando este lugar, tô limpando isso aqui! – Ele respondeu com a mesma voz embargada de sempre.

Largue isso agora, você não tem o direito de fazer isso aqui! – Dária gritou ainda mais alto.

Não vou parar, não obedeço mais a você, serva do demônio! – Um berro acentuou a última palavra, quase como se tivesse enlouquecido.

O encarregado chegou bem no momento do último grito do rapaz e ajudou Dária a convencê-lo de que aquilo não estava certo. Ele jogou o copo de sal na direção de Dária, em um gesto que resumiu todo seu desprezo por ela e saiu, para não voltar mais. Dária respirava com calma e permaneceu um tempo olhando o vazio, parecia estar buscando energias pra prosseguir.

Mas que coisa, dona Dária, nunca tinha visto isso! Mas olhe tome cuidado, esses tipos aí…

Como que está o pessoal, tudo certo?

Tá sim, dona Dária.

Como que vamos fazer com a vaga do Pastor? Mas logo hoje?

Sim, mas eu já sabia dona Dária, esse rapaz aí…

Era uma bomba relógio, dava pra ver… – Ela complementou. ajeitando a bolsa no ombro e procurando o rumo do escritório.

Olha, tem meu sobrinho, ele é de menor, mas dá pra segurar a bronca, pelo  menos até o fim de semana: e ele parece ter mais que 16, ele é grande, e dá conta do trabalho, se a senhora quiser mando chamar agora…

De menor…

Ninguém vai ficar sabendo…

Você cuida disso?

Cuido, deixa comigo.

Vou ter que arriscar, ou é isso ou estamos todos ferrados.

Deixa dona Dária, deixa comigo, vai dar tudo certo.

O resto do dia foi de muito esforço pra Dária. O olhar do ex-funcionário a perseguia. Não sentiu medo, mas a advertência do encarregado vinha logo no encalço daquele olhar: ambos em loop, perturbando sua percepção e atrapalhando a plena execução das suas atividades. Não sabia se avisava ao marido, se procurava ajuda de alguém, se estava sendo leviana ao deixar aquilo daquele jeito. Mesmo assim decidiu que não faria nada, nem contaria ao marido, nem polícia, nem ninguém: o marido, polícia ou qualquer outra pessoa que percebesse nela o medo só traria mais problemas pra uma semana que seria demasiado difícil. Tinha de suportar toda a pressão.

II

No dia do pagamento o Pastor apareceu no escritório pra receber seus dias trabalhados. Dária pensou que não o veria mais e se surpreendeu ao vê-lo: parecia que havia se passado muito tempo desde aquela confusão.

Bom dia. – Ele disse, cabisbaixo. Estava vestido de forma diferente, as roupas denunciavam que algo de radical havia acontecido. Lá fora estava parado um Chevette azul com mais dois caras dentro. Ele havia voltado pro crime, ela pensou.

Me desculpe por aquele dia lá… – Ele tentou não parecer tímido.

Tem nada não, e como tá a família, e a igreja?

A família vai mais ou menos, mas a igreja eu larguei, aquilo lá num é pra mim não, eu tenho de resolver meus corre é na rua mesmo. Não consigo levar essa vida aí não, eu sou bicho solto, meus corre é outro mesmo, na moral, nem sei como vocês aguentam isso aqui não. – Disse de uma vez, como se tivesse ensaiado.

É, é difícil mesmo, entendo o que você quer dizer, assine aqui ó, aqui também, e aqui. Ela entregou o envelope com o dinheiro e ele pegou meio desajeitado. Antes de sair ele se virou, meio relutante, e disse:

Desculpe por aquele dia, sério mesmo…

Deixa pra lá, não foi nada.

Eu sei… E ainda deixei a senhora na mão…

Mas deu tudo certo.

Ainda bem, de qualquer forma me desculpe.

Dária sorriu.

De qualquer forma cuidado, e se precisar de outra chance pode vir que as portas estão abertas.

O rapaz corou as bochechas, esboçou um movimento com a cabeça e saiu apressado. Dária ficou mal, sentindo que talvez tivesse soado falso a sua postura. O Encarregado logo entrou na sala e vendo Dária reflexiva tentou extrair algo dela.

Mas que coisa, dona Dária…

Você viu isso, seu Helô?

Pois é, esse aí logo aparece morto. Uma pena.

Uma pena, ela repetiu. Viver é enfrentar os demônios da gente e os demônios dos outros… Demônios pra todo lado… – Dária disse suspirando e depois de um tempo complementou: O mundo tá cheio de gente pra todo lado, não adianta fugir não, a gente tem de enfrentar, viver é guerra mesmo, tem pra onde fugir não. – Repentinamente, como se desse por encerrado de vez aquele assunto, ela pediu os recibos do carregamento que acabara de chegar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s