Resnais e Hitchcock, Apontamentos sobre Cinema e Viagem no Tempo

Han Shuo

Partindo da aproximação de dois filmes, Eu Te Amo, eu te amo, de Resnais, filme de 1968 e Vertigo, ou Um corpo que Cai, de Hitchcock, filme de 1958, pretendo levantar alguns apontamentos sobre a viagem no tempo e como ela se dá por meio desses dois filmes, tentando demorar em algumas questões que sempre quis mergulhar.

O cinema como uma máquina do tempo. De viagem no tempo. Um dispositivo que te permite se ausentar do presente e ocupar outro lugar, sem se ausentar totalmente, criando uma duplicação: é possível estar em dois lugares ao mesmo tempo. Vertigo é uma das mais belas amostras do que pode essa máquina. Hitchcock tece toda uma teia de armadilhas (ou engrenagens) que trabalha para nos distanciar da nossa realidade e nos jogar por completo noutra realidade, na que ele constrói. Passamos a ocupar o lugar como testemunhas e vítimas, vivendo as mesmas dúvidas do protagonista ao mesmo tempo em que mantemos a distância de observadores seguros. Somos como fantasmas flutuando ao redor dos personagens, amarrados a eles, sendo arrastados de um a outro lado.

Tentar desenhar o cinema como essa máquina do tempo, de tempo, sobre o tempo, é algo que esboço faz um bom tempo mas não consigo concluir. Talvez o desejo de que ela fosse realmente uma máquina sucumba diante da força que a mesma tem como jogo, como brincadeira, onde, ao aceitarmos o contrato, abrimos mão da nossa realidade e embarcamos no faz de conta proposto pelo realizador, preenchendo os espaços com nossas experiências, medos, sonhos, desejos… Mas essa viagem no tempo também acontece, uma vez que visitamos outro fluxo, e percorremos ele durante um período, experimentando seus trâmites. É meio que um dispositivo híbrido, meio máquina meio jogo, onde a disposição em jogar é fundamental para que a máquina desperte e se ponha em movimento. Uns chamam o cinema de máquina de sonhos, onde se pode ter aventuras oníricas, fantásticas, experimentando mundos impossíveis, distantes, mágicos. Mas eu não compro muito essa ideia porque tudo é sempre pano de fundo para representar a tragédia humana ou suas variações: o drama e a comédia. A gente é engolido pelo cinema pra ver outras pessoas, personagens, lidando com a condição humana, independente se é num mundo medieval ou numa espaçonave. E o que envolve essa condição humana é o tempo: ele é o fator que provoca o homem, o põe em movimento, o obriga a tomar decisão, a fazer algo diante do absurdo. O cinema arquiteta esse tempo, preenche o espaço dos personagens, cria o aceleramento, através dos cortes, da montagem, comprimindo os acontecimentos, justapondo-os, sintetizando para que o essencial venha à tona, e vejamos o que foi capital para que certas decisões fossem tomadas pelos personagens e o porquê das consequências.

Em Vertigo parece haver um compêndio sobre tudo isso, um manual sobre o que pode o cinema, sobre reviravoltas, mistérios, sobre o psiquismo humano diante de eventos traumáticos: sobre decisões e as suas consequências desmedidas ou justas. As espirais que surgem nos créditos iniciais não são gratuitas: vamos ser jogados, seguindo seus traços, dentro de um buraco negro! Buraco esse que somos nós mesmos! Veja bem, quando Scottie olha pra freira e no segundo seguinte Judy ou Madallaine se joga da torre, dali até o instante em que a freira toca os sinos, é um período de tempo muito curto, e Hitchcock comprimi tudo isso para que, sem que tenhamos tempo para nos dar conta, toda aquela carga seja transferida pra nossa mente: sairemos do filme sobrecarregados, desdobrando o que restar do filme na nossa vida linear, repetindo o filme na mente, tentando resolver uma ou outra coisa que nos escapou. Hitchcock potencializa a máquina, o jogo, torna tudo ainda mais intricado, mais complexo: ao desligar da máquina nos sentimos deslocados!

E há diversas repetições no filme, tentativas de refazer o passado: seja no acidente que vitimou o policial, seja na tentativa de salvar Madelleine. Scottie quer voltar ao passado, esse é seu drama. E ele o faz, no auge do desespero: assim que percebe que o colar no pescoço de Judy fora usado por Madalleine, ele desperta, recobra os sentidos, percebe-se numa trama funesta, e o furor o impele a criar uma forma de, enfim, voltar ao passado! Revivê-lo, transformá-lo! Fora vítima de uma armação: seu trauma, sua solidão, sua humanidade, tudo milimetricamente pensado. E volta no tempo, uma vez que Judy é também o fantasma de Maralleine, quer dizer, quase um mapa que pode lhe conduzir de volta para vivenciar aquele momento e quem sabe vencê-lo. E nós de cá revivemos o momento duplicado, novamente a cena da torre, o medo pulsante de Scottie, o fantástico efeito de profundidade de campo, o escuro, a relutância de Juddy e de Madellaine, tudo comprimido num tempo que parece pesado, arrastado. E Scottie vence suas limitações, mas há um preço a ser pago.

Vertigo não quer discutir o tempo, ele quer jogar com ele. Interessa bem mais se apropriar de tudo que o cinema torna possível e a disposição das pessoas em jogar com ele, em se sujeitar, e consegue um resultado assustador, pra não dizer avassalador, nos oferecendo uma experiência única sobre a força dessa máquina e desse jogo, o cinema.

Já o filme de Resnais, Eu Te Amo, eu te amo, quer discutir e também se valer desse tempo arquitetado. Quer fabular sobre a viagem no tempo, discutir aspectos, propor possibilidades. E ao mesmo tempo, como Vertigo, jogar, brincar com o espectador disposto a brincar. O fundamental é que o espectador saia da sala com questionamentos: é possível o que esse filme propõe? É uma forma de contaminar a vida pós-experiência proposta pelo filme, e perdurar na vida regular do expectador.

Eu Te Amo, eu te amo é um filme que tenta dar conta de questões importantes à ideia de viajar no tempo ao mesmo tempo em que se vale da montagem para criar um efeito psicológico no espectador durante o levantamento dessas questões. Quer dizer, não há viajem no tempo sem avarias na psique do viajante. Viajar no tempo é ir contra a natureza! Então por que viajar no tempo? Resolver as pendências não resolvidas? Mudar as decisões erradas? Modificar algo? Ou mera curiosidade? No caso dos cientistas, mera curiosidade: entender como o homem se porta durante uma viagem temporal. Claude Ridder está indiferente a tudo, sobrevivente de um suicídio mal sucedido, meio que secretamente deseja ver o que é possível daquilo, o que quer dizer voltar, entender a proposta feita pelos cientistas. E volta, mas ocupa o lugar como se fosse a primeira vez. Os dois são um, o do futuro e o do passado, mas prevalece como que diante do mundo como algo a acontecer, diante do incerto, do porvir. Claude Ridder, quando no passado, vivencia como se na primeira vez, o viajante ocupa uma parte da consciência do seu eu no passado, mas como observador, como nós, espectadores. E quando retorna ao presente a memória do passado está mais vívida e pulsante, como algo acabado de ser experimentado, mas a distância se torna a mesma, violentamente, um ano, as vezes mais, as vezes menos.

Mas é na montagem que temos o grande trunfo de Resnais. Fragmentando as experiências, mostrando que o passado é algo que resiste às tentativas de reocupação, de retorno, o passado é touro selvagem com diversas cabeças e dorsos, impossível de ser domado. E a viagem se torna algo que se esbarra em fatos distantes, se funde com outros fatos, se confunde, se reinventa, se faz ficção. O essencial Ridder extrai daquela viagem: ele ama Catrine. E como Scottie de Vertigo, ele passa a desejar vivenciar o que está morto! Ridder quer viver o passado com ela, e isso é bem mais que o vazio presente, uma vez que descobrira essa força em si, o amor por ela, suas instâncias psíquicas mais remotas se apossam da máquina! E por isso passa a voltar mais vezes, a provoca a máquina, se torna o fator que os cálculos dos cientistas não previram (ou suspeitariam se se aproximassem mais da filosofia) e que, portanto, desperta as irregularidades daquela viagem. Desde que viva novamente todas aquelas coisas, mesmo seus erros, deslizes, suas péssimas escolhas, suas culpas, ainda sim ele deseja o retorno. A montagem é o grande personagem do filme, é a metalinguagem, e o conceito, o texto sobre viagem no tempo, um texto em códigos: vemos a máquina do cinema pega em suspenso, em funcionamento, tudo que se pode extrair dela. Mas voltar ao passado é voltar a sofrer, escolher errado, cometer os mesmos deslizes, sofrer suas culpas novamente, tudo de novo. É dar alento à nostalgia, mas dar também continuidade à tragédia, estendê-la, aumentar sua duração. E é quando Ridder tenta, novamente, se suicidar que a sua viagem se colapsa de forma mais violenta, (o problema do suicídio), e ele retorna ao presente, ainda mais fraturado, desgastado pela experiência, quase morto.

O filme termina com a imagem do rato no seu recipiente, ainda na máquina do tempo. E é a chave que explica quase tudo: o pequeno mamífero não vive o tempo como o homem, não sofre reveses pelas suas escolhas e não vive o caos do mundo com medo e frustração e angústia. Viajar no tempo para o pequeno rato é como viver o mesmo presente, da mesma forma, sem grandes tribulações, perturbado apenas pela curiosidade do homem que os enclausura naquelas experiências malucas. O homem, por outro lado, é um animal político, se relaciona com a cidade seus habitantes e consigo mesmo, tudo ao mesmo tempo, sendo obrigado a tomar posições enquanto se desloca pela polis e pela sua consciência. A viagem no tempo acaba se tornando uma questão filosófica, emaranhada de questionamentos sobre ética e a liberdade humana, apontando para possíveis respostas não tão reconfortantes sobre nossa prisão temporal.

Mas o filme entrega tudo que propõe: uma fantástica viagem no tempo, uma volta ao passado, investigando o comportamento do tempo, dos personagens envolvidos e da plateia que acompanha toda a aventura como os fantasmas que se tornam, flutuando pela história, levemente ausentes do presente, acoplados na máquina-cinema, vivenciando vidas alheias e seus trâmites humanos tão familiares aos espectadores protegidos em suas poltronas.

Elipse

O que falta, que é ocultado, escondido, disso que é feita a máquina e o jogo. Vemos e não vemos. Sabemos que não vemos tudo, que vemos apenas o que é apresentado com uma finalidade bem definida: nos levar a compreender algo maior. Pode tudo estar relacionado com a condição humana, mas essa condição apresenta diversos aspectos, nuances, velocidades, oscila na compreensão de cada vivente. A máquina quer sempre descobrir algo novo na condição humana, algum aspecto soterrado que não foi descoberto. Scottie demorou encontrar o amor, o amor com a força que só poderia emanar de Madellaine. E o perdeu, perdeu duas vezes. Vemos o que é perder duas vezes dentro das condições propostas. Estabelecemos comparações, distanciamentos, proporções. Compreendemos algo maior de tudo aquilo, compreendemos em nós mesmos. Entramos na máquina e algo retorna a nós. No filme de Resnais percorremos um labirinto mais fraturado para também acessar algo secreto. Passamos de novo pela perda, pela falta de tato em lidar com a perda, e vemos tudo o que somos diante dela. É plausível, somos como esses protagonistas, eles nos representam, nos vemos em suas angústias. As elipses são como peças fundamentais para o funcionamento da máquina! É preciso saber o que omitir, o que esconder, o que não mostrar, quase uma ciência, e um cuidado fundamental. É quase como se, com isso, essa máquina se tornasse independente, e como espelhos, e nos olhassem enquanto nós refletem. Elas aprisionam um exemplo do humano, do demasiado humano, e coloca em movimento, faz dançar, e sabemos que aprenderemos algo amargo, mas há um prazer soturno nisso tudo, que não sabemos precisar, mas que precisamos, sem saber porquê, mas precisamos, apenas precisamos.

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