Tubarões de Água Doce

Maurílio, também conhecido como Magrão, abriu a janela do quarto sem nenhuma pressa. Anda logo, cara. Era André, o pedreiro. Magrão esfregou os olhos, passou depois a mão na cabeça e só então perguntou o que ele queria.  Tem um trabalho ali, tô precisando de ajuda, cê tá afim? Magrão precisava de grana, mas sabia que aquele cara ali era problema. Setenta conto o dia, grana fácil! É, é boa grana, pensou Magrão. Cê não vai ficar me esculachando igual da última vez, né? André sorriu, constrangido. Qual é?, esquece aquilo, o trampo é suave, a parte pesada já fiz tudo sozinho, é só acertar uns detalhes… anda, me diz aí, vai ou não? André estava construindo um deque que avançava por sobre um lago artificial na chácara de um tal doutor. Uma vez na chácara Magrão ficou impressionado com o lugar: árvores imensas, pedras brancas assentadas pelos caminhos, bancos estranhos espalhados por todos os lugares, assim como redes coloridas nos galhos das árvores mais baixas, cachorros peludos correndo por todo lugar, um casarão entre dois bosques, sons de pássaros cantando o tempo inteiro, pequenos jardins espalhados pelo lugar, cada um com uma cor predominante… Num desses jardins um senhor podava algumas plantas. André passou direto, nem bom dia disse. Magrão o seguiu, sem olhar pros lados, pensou ser aquele senhor um empregado qualquer. Velho maldito, disse André assim que chegou no deque, no mesmo instante Magrão percebeu a encrenca que havia se metido.  Porra André, tu vai me meter noutra furada, cara! Relaxa moleque: olha que belezura, hein? Sou ou não sou foda? Fiz essa porra praticamente sozinho, com esse velho caduco me enchendo o saco. Pisa ali, se quiser pode pular, nem o chão é mais firme que isso aqui, e sabe por quê? Porque foi eu quem fez, caralho! E gargalhava. Magrão inquietou-se, não sabia ao certo o que fazer, sentia vontade de ir embora, de largar tudo, voltar pra casa, fazer uns currículos, procurar trabalho numa indústria qualquer, ou trabalhar de badeco numa oficina automotiva… Passaram-se vinte minutos e ele na mesma posição, sem saber o que fazer. André soltava grunhidos por conta dos pregos que segurava com a boca, mas não exigia nada do rapaz. Magrão não sabia se perguntava o que tinha de fazer ou se dava as costas e sumia dali. Fazia frio, o brisa matutina parecia aumentar a intensidade do frio mesmo com o avanço das horas do dia e as árvores antes tranquilas se inquietavam, os pássaros cantavam cada vez mais alto, e não fosse pela luz dura do sol vazando pelas copas das árvores tremulantes a sensação de que uma tempestade se aproximava ganharia cada vez mais força. O tempo passava e Magrão permanecia na mesma. Fora uma ou outra ferramenta, André não exigia muito dele, e isso o deixava cada vez mais confuso. Teve uma hora que sentiu vontade de perguntar qual era a sua função ali, mas sentia medo da resposta, e depois lembrou da distância, não sabia qual era o caminho de volta. Situação bizarra, mas ele saiu de casa sabendo no que ia dar aquilo: da última vez testemunhou um bate boca pesado entre André e o dono da obra, quase saíram no braço. Mas André era o melhor pedreiro da região, sabia fazer de tudo e com uma habilidade tão incrível que as pessoas o contratavam sabendo que, apesar de suas grosserias, todos os contratempos valeriam a pena. André sabia de suas qualidades e foi se tornando cada vez mais truculento, mais arrogante e até desleal nalguns pontos.  O café tá pronto André, gritou o senhor que estava no jardim, dando alguns passos de um dos jardins em direção ao deque. Não, agora não, ah olha só: tá aqui meu ajudante, tá bom pro senhor? gritou.  Não, André, eu não disse que você tinha de trazer um, falei que seria bom você ter alguém pra te ajudar, você poderia cair daí, por exemplo… André fez um grunhido e gesticulou algo no ar e aquilo fez com que o doutor parasse de falar. Vá lá Magrão, agorinha eu vou, assim que dar um jeito na porra dessa madeira, parece que ela tá envergando… O doutor fez um gesto para o rapaz que ficou desnorteado, olhou para o pedreiro e depois para o doutor, o vento sacolejava as árvores e a fome doía no estômago: seguiu o doutor. Ele é sempre assim, né? Magrão balançava a cabeça de maneira irresoluta, sem saber como se posicionar diante do assunto. Contratei por ser bom de serviço, o pessoal fala muito bem dele, me avisaram sobre seu temperamento peculiar, mas fazer o quê, né? Chegando na varanda do casarão, Magrão sentou-se num banco feito de tronco de árvore velha, mas estilizado, bastante bonito, aliás, todos os móveis pareciam feitos de outras coisas, reaproveitados, de um marrom meio escuro.   Veja, aqui tá o café e o leite, e ali, olhe, tem alguns bolos que eu mesmo fiz, e aqueles biscoitos ali, aqueles amarelados, minha filha trouxe ontem, são deliciosos, ela é boa cozinheira, mas não se acanhe, vá, coma. Magrão colocou o café com leite numa xícara e pegou um dos biscoitos; eram realmente deliciosos e ficaria apenas neles não fosse a suspeita de que o doutor o observava, então decidiu por pegar um dos pedaços de bolo. Estava tão gostoso quanto o biscoito, mas havia um quê de canela, algo sutil, mas que deixava o sabor do bolo mais interessante que o do biscoito. Sentiu o sabor de canela? disse André surgido do nada. Melhor bolo que comi na minha vida, você sabe desse negócio de bolo, hein doutor? André parecia outra pessoa, mas ainda sim um tanto desequilibrada: ele colocou café no copo, cortou três pedaços de bolo e enrolou num guardanapo e ia saindo avexado. Antes, se virou e disse: Bora moleque, pare de me enrolar. Ué? respondeu Magrão olhando para o doutor que sorriu e fez um gesto confuso. O deque estava praticamente pronto, André preparava os acabamentos, mas havia algo que o incomodava, mas ele não dizia nada sobre, apenas soltava sons entrecortados, como resmungos ou talvez se valesse de outra língua pra expressar o que lhe perturbava. Magrão lhe entregava uma ou outra ferramenta, mas gastava a maior parte do tempo observando o lago, os jardins, as árvores, os caminhos de pedras brancas: sentia vontade de ir por determinados rumos pra ver onde dava tudo aquilo. Foi se tornando sereno com o abrandar dos ânimos do pedreiro. André se fechava cada vez mais nos seus afazeres, ensimesmado, às vezes parecia que nem se lembrava do ajudante. Magrão percebeu o doutor vindo do casarão, aquela frágil sensação de serenidade se foi.  Tô precisando de uma ajuda ali, você pode me emprestar seu ajudante. Vá, vá… respondeu André sem se virar. O que você faz da vida?  Nada, só estudo. Tô terminando o ensino médio. Vai fazer o quê, qual faculdade? Não sei ainda. O doutor perguntava com a cabeça dentro de um sótão que ficava no andar de cima do casarão. Eles entraram pelo corredor depois da cozinha e subiram por uma escada no final desse corredor e lá em cima havia outro corredor e diversos quartos, quase como num hotel: era enorme o casarão. No final desse corredor se encontrava a entrada pro sótão. Aqui, pegue isso aqui, cuidado, coloque aí no chão, aliás, coloque ali, com cuidado, por favor.  Eram embalagens escritas com umas letras e uns desenhos estranhos. O doutor desceu com um saco menor, pegou uma das embalagens no chão e o rapaz a outra. Foram pelo caminho que levava até o deque e depois seguiram uma das trilhas de pedra, aparentemente a mais longa.

Tudo bem aí, seu André? Tá tá, respondeu, ríspido.  Ele é muito engraçado, sorriu o doutor. Venho lhe perguntando por que não arruma alguém pra lhe ajudar, mas ele sempre respondia de forma grosseira, mas acho que ele se cansou das minhas perguntas… mas tudo bem, as pessoas são assim, né? Magrão não sabia o que responder, apenas o seguia. No percurso descobriu como era ainda mais belo tudo aquilo que tinha para depois do que se via do deque: árvores ainda maiores, casebres abertos, jardins, um imenso canil vazio, e uma serra de um verde-escuro se desenhava lá no horizonte. O lago terminava por ali, e havia uma lancha encalhada na margem. O doutor falava de outra coisa, mas a percepção do rapaz queria dar conta de tudo aquilo que ia surgindo. Aqui, eis meus aquários. Não é bonito?  Magrão ficou ainda mais impressionado! Era uma casa grande, não tanto quanto o casarão, e sem paredes, quer dizer, um único cômodo, e eram vários os peixes, de todas as cores e tamanhos, nos diversos aquários.  Bonito, não é? repetiu. Compro a maioria da Ásia, sou fascinado por essas espécies, mas esta aqui é minha favorita, meu xodó, tubarão da Malásia, são tubarões-de-água-doce, veja, que beleza: estes dois são chamados de Pangasius Myanmar, mas no lago há outras espécies como o Arius Arenarius e também… Como assim? Tem tubarão no lago? perguntou o rapaz assustado. Sim, faz algum tempo soltei alguns aí pra ver se se criam, se crescem, pra ver o que acontece. Mas olhe aqui: alguns não passam de 50 centímetros: são pequenos, não há pelo que se preocupar, olhe esse outro aqui, por exemplo… O doutor discorria sobre as espécies, alimentações, sobre a cultura do aquarismo, as águas da Ásia, mas o rapaz só pensava no lago infestado de tubarões. E aí cara? vai passar o dia aí conversando? berrou André à meia distância dos aquários. Deixa eu ir, disse o rapaz como que voltando à realidade. Esse doutor é maluco, viu, é cada coisa que ele inventa, vai na conversa dele pra você ver. Magrão permanecia em silêncio. Esses ricos desse tipo aí, por falta do que fazer ficam inventando coisa, mas não é pro nosso bico não, fica viajando nessas coisas aí não, pisa no chão que daqui a gente não cai, viu!  Magrão permaneceu um bom tempo calado, encostado no parapeito, observando o lago. Tubarões-de-água-doce. O lago era extenso, de água escura, de um verde-escuro. A vista do deque deixava tudo mais bonito. Sentiu vontade de ir até à margem, mas teria de esperar até que André se acalmasse. O doutor não apareceu mais e pelo resto do dia Magrão ficou ali, olhando o outro trabalhar e pensando tanta coisa que nem sabia ao certo donde vinha tanta pergunta a lhe perturbar o juízo. Ao fim do dia o doutor apareceu.  Aí ó, amanhã, graças a Deus, e antes do meio-dia, termino tudo. Certo certo, sem problemas, André… ah, vem cá, rapaz. Qual seu nome? Maurílio, mas o pessoal me chama de Magrão. André fez cara feia, Magrão se enrubesceu. Preciso de ajuda aqui, Maurílio, queria alguém interessado em aprender sobre peixes, plantas, alguém pra me ajudar, tu se interessaria? Magrão, sem saber o que dizer, esboçou um riso opaco e disse algo confuso. Ok, caso se interesse venha aqui amanhã e a gente troca uma ideia melhor, ok? No carro voltaram em silêncio. Magrão se sentia incomodado, mas algo dentro dele vibrava, era uma alegria misturada com medo, com receio, e até angústia. André olhava de forma dura pra estrada, parecia irritado. Mas ele era sempre assim, então não dava pra saber se estava irritado com a proposta do doutor ou sabe-se lá com que. Na porta de casa André tirou uma nota de cem e deu pro rapaz, que quase foi enxotado do carro. Ele olhou e viu que era mais que o combinado. Pode ficar, tem nada não. Ah, você passa aqui amanhã, disse, encabulado. Ê moleque!… Vê se acorda cedo que não vou lhe chamar não, já esteja de pé e na porta quando eu chegar. Magrão não foi pra aula, ao invés disso foi até a casa de um primo que tinha computador e internet,  pretendia pesquisar sobre peixes. Mas o primo havia saído, então ele esperou um pouco ali, conversou um bocado com sua tia; então, percebendo que o primo demoraria ainda mais, decidiu andar por aí, estava ansioso pela chance de emprego, e não apenas isso, de um aparente bom emprego: um interessante emprego: e que emprego. Nunca antes nada havia surgido de maneira a lhe causar tamanha impressão, mas não tinha com quem conversar, era preciso segurar a onda e por isso decidiu andar por aí até o sono bater: era o que restava. Seu primo chegou tarde e lhe ligou, mas o cansaço bateu e Magrão resolveu ir dormir. À noite sonhou com filas e mais filas de pessoas. Ele tentava escapar de uma fila e caia noutra fila, e as filas, às vezes, eram compostas ora por gigantes ora por anões, e parecia noite e as pessoas não tinham rostos. De tanto buscar escapar das filas e procurar por uma porta qualquer pra escapar dali acordou cansado e bem antes da hora. Sua mãe, que sempre madrugava para o trabalho, estranhou vê-lo de pé tão cedo. Tomaram café e conversaram amenidades. Ela parecia contente, ele parecia perdido. Se despediram. Magrão se preparou e foi para a porta da rua. Faltavam vinte minutos pras sete. Dali até sete e ponto André passaria, era pontual, quer dizer, chato até com essa coisa de horário. As ruas do bairro estavam desertas, uma ou outra pessoa cortava o vento frio com passos firmes, tudo estava tão quieto como em todas as manhãs. Surgia qualquer barulho de carro ele pensava ser André, mas não… nada. Passava das sete e meia e nada. Lembrou do rosto dele dirigindo no dia anterior. Tentou lembrar o caminho, nada. Havia voltado tão atordoado que esquecera de observar o trajeto. Nem o nome do doutor ele se lembrava direito. Ah não, André… suspirou. Alguns dias se passaram e Magrão havia desistido de procurar pelo doutor, não sabia onde o médico trabalhava, aliás, nem se era médico ou juiz. Havia imprimido vários currículos e tão desanimado andava que fazia dias que nem pra aula ia. Certo dia, quando as coisas estavam voltando ao normal, André aparece, buzinando igual louco. Ô moleque: se arruma aí, bora. Bora pra onde, cara? respondeu da janela do quarto, um tanto irritado.  A porra do velho só me paga se eu te levar até lá, mas o que diabos cê falou pro velho, hein moleque? Anda se arruma vam`bora que tô atrasado. Magrão desapareceu da janela. Velho filho da puta, André suspirou e desligou o motor do carro.

O Reflexo

A menina era problema. Ninguém mais sabia o que fazer. Quinze anos apenas. Na época estava suspensa das aulas, envolvida com umas pessoas suspeitas. Diziam que andava fumando maconha às escondidas, dentre outros entorpecentes mais pesados. Diziam de tudo pelo bairro. Logo logo aparece prenha, diziam uns. Ou morta, sentenciavam outros. No bairro todos sabiam que a coisa não ia terminar bem. Um dia foi pega cometendo um delito. Foi levada à delegacia. As amigas conseguiram fugir. Foi pega sozinha.

Quantos anos cê tem, menina?

Quinze.

Ah, é? Ele quer te dar só um susto.

Mas é ilegal!

Pior que é. Mas fazer o quê? Quem manda é eles lá, fia…

Não pode, sou menor de idade. Não me chame de fia, você não sabe quem eu sou!

Mas vai por mim, isso aqui é melhor do que descer. Lá embaixo o bicho pega,,,

Foda-se, quero sair daqui!

Se descobrir um jeito mostra pra gente…

Não quero papo! Fica na sua aí tia?

Ha ha ha ha. Beleza então…

Quem tentava em vão abrandar os ânimos da menina era uma mulher de pouco mais de 30 anos que parecia ter passado dos 40, de nome Lídia. Havia sido detida por agredir uma velha num bar. Estava ali fazia um dia já, o delegado disse que era pra ela poder pensar melhor sobre o que fez. O novo delegado, que por benevolência lhe deu essa chance de reflexão, era um homem que havia assumido aquela região da cidade fazia pouco tempo e trazia métodos nada ortodoxos que agradava boa parte da comunidade local. Lídia tinha duas filhas: uma de quatro e outra de dois anos. A de quatro nasceu no ano em que ela passou pro regime semiaberto e a mais nova nasceu assim que terminou de cumprir sua pena. Mas não lidava muito bem com as crianças, por isso elas viviam com a avó. Na noite anterior havia dado uns tapas numa velha fofoqueira lá no bar do Alemão. A velha jogou um copo nela que arremessou de volta uma cadeira. A velha desmontou. O pessoal achou que a velha tinha morrido. Alguém chamou a polícia, ela disse que não fugiria, que assumiria o que fez porque a velha merecia. A polícia chegou no mesmo instante que a ambulância, mas a velha já estava de pé e cheia de palavra contra sua agressora.

A menina não suportou a pressão e começou a gritar, repetindo que era ilegal aquela atitude do delegado. Na cela havia mais cinco mulheres, que pareciam querer dormir. Lídia começou sorrir, sabia o que aconteceria em seguida. A menina começou berrar mais alto e com isso fez uma das detidas se levantar, ir até ela e lhe aplicar um murro daqueles na boca do estômago.

Cala a porra da boca, pirralha!

A menina cai no chão meio que sem ar. Lídia meneou a cabeça ao ver a menina cair gemendo. Depois sorriu. Aos treze anos Lídia foi presa pela primeira vez, foi jogada numa cela pior que aquela e depois foi transferida pro Batalhão, onde até hoje fica o albergue pra jovens infratores. Nem lembrava mais por que tomara aquele rumo na vida, parecia ser seu destino. Mas nas consequências daquela primeira prisão ela sempre evitou pensar. Não falava sobre aquilo com ninguém, nem nos momentos de bebedeira extrema. No dia daquela primeira prisão seu pai, que se dirigia à delegacia pra saber o que tinha acontecido, atravessou com a moto a frente de um ônibus e morreu no local. Depois que saiu do Albergue foi morar na rua. Depois sumiu. Conheceu outras cidades. Voltou. Entrou pesado no submundo do crime. E por fim foi presa, e como já era de maior, desceu pro presídio. Pegou seis anos de punição. Ficou fechada dos vinte aos vinte e seis.

Na condicional descobriu que estava grávida de um dos guardas prisionais que era casado. Sozinha e de barriga criou coragem e procurou a mãe. Ela lhe abriu as portas, resignada. Quando a primeira nasceu os olhos da avó brilharam, e ao pegar a neta nos braços pela primeira vez foi como se enfim conseguisse redescobrir a vida. Lídia odiou aquela cena toda. Anos depois voltou a se encontrar com aquele guarda prisional e novamente engravidou dele. A mãe recebeu a notícia com alegria. E com alegria recebeu a outra neta. Livre das filhas, Lídia ficava vagando sem trabalho ou perspectiva, bebendo, se drogando, fazendo bicos, e na maioria das vezes se prostituindo pra levantar uma grana. Mas pro submundo da criminalidade ela não voltaria, era uma promessa que fizera a si mesma: havia sofrido muito na cadeia. Vivia em bares sujos, com homens casados e/ou tipos mais suspeitos, mas sabia como não cair no vacilo de cometer algum crime, sabia qual era o limite, e vagueava até ele com perícia. Causava brigas quando bêbada e por se achar mais valente que qualquer outra mulher – e até uns homens – arrumava confusão o tempo inteiro. E aquela era a sua primeira noite detida após tantos anos de vida noturna vadia. Maldito delegado novo. A mãe nada falava, e parece que até preferia assim, preferia as coisas do jeito que estavam, do jeito que iam, Lídia não tinha jeito não: e mais, desde que deixasse suas netas em paz, tanto faz tanto fez. A mãe recebia uma pensão, e vivia bem com essa pensão, mas não dava um centavo à Lídia.

A menina tentou se levantar, mas o estômago ainda doía. E sentia medo. Mas parecia que ia manter o silêncio, estava acuada. As outras detentas, depois daquele soco, despertaram e ficaram conversando e esnobando a menina. Lídia sentiu vontade de ir lá e provocar a pirralha.

Quando se é novinha assim a gente se acha pra caralho né sua… antes que completasse a frase veio a imagem de seu pai. Ela ficou sabendo da morte dias depois do enterro. Sentia raiva da mãe por conta disso: quando saiu do albergue foi direto pra rua. Só quando presa e condenada, anos depois, que ela sentiu algum remorso pela morte do pai: foi obrigada a pensar principalmente quando na solitária, um dos momentos mais difíceis na prisão. Depois conseguir descobrir como recalcar aquelas imagens.

Cê é como eu! Pirralha idiota! Vai se fuder bonitinho na vida! Olha pra mim e vai sacar qual é o seu futuro, sua idiota!

Quase não conseguiu segurar o riso de deboche. Um sentimento obscuro fervia dentro de si e transbordava num riso nodoso. Era como um espelho refletindo a sua primeira juventude, daquele jeitinho ali mesmo, amedrontada dentro do albergue depois de tomar um soco na boca do estômago, caída no chão da cela, sem saber o que fazer.

A gente é a mesma coisa, pirralha.

Daí se ouviu uma movimentação nos corredores. Sons de chaves, surge um homem com o delegado que num movimento rápido abre a cela. O homem adentra e puxa a menina que estava encolhida no chão e a abraça. Os dois choram. Abraçados eles saem, o delegado fecha a cela e antes diz pra Lídia, com olhar duro: Espere mais um pouco aí, tá? Você não vai sair hoje ainda não, acho que você vai ter uma surpresa não tão muito boa, e saiu pisando duro. Tão rápida a cena que pareceu um sonho pra Lídia, que do fundo da cela, já sem aquele sorriso demoníaco, de dentro da escuridão, da mais profunda escuridão viu no rosto daquele que viera resgatar a menina as feições de seu pai.

Ferruge

Lembra do Ferruge, mano? Trombei ele ano passado. Ou foi retrasado, não me lembro direito quando foi. Sei que fazia um sol desgraçado: o calor do asfalto faltava derreter a botina. E ainda subir tudo aquilo com aquela bicicleta arrombada. Porra, vai se fuder! Época difícil do caralho! Aí o Ferruge surge do nada, tava de bike também, uma bike bem mais ajeitada que a minha, mas ele tava com aquela mesma cara de otário… Eu fui o que menos sacaneou o Ferruge lá no trampo e ele ia conversar comigo de vez em quando na hora do almoço, aliás, eu era o único que pegava leve com ele. As brincadeiras da galera era pesada demais, cê tá ligado… Então, como eu tava dando ideia, ele me viu e acelerou o passo, ao se aproximar ele acenou e já foi perguntando:

Eaí, vindo de onde?

Do trampo, eu disse, enquanto fragava a bike dele.

Canseira esse calor, taquepariu.

Tá foda mesmo.

Mora no mesmo lugar ainda? ele perguntou depois de um tempo.

Moro… mas noutra quadra, eu casei, tá ligado?

Não, tava ligado não mano, que bom, hein?

Porra nenhuma. Trabalheira do cão. Minha mina é treta, mano.

Boto fé, casei também, mas a minha é tranquila.

Sorte sua, Ferruge.

Eu não tava com a menor vontade de conversar. Queria chegar logo em casa, tomar um banho, sabe como é. Mas ele ia pela calçada, trombando nos sacos de lixo, mano, desajeitado do mesmo jeito, e eu pela rua, tentando vazar dali, buscando uma forma de me despedir e acelerar pra casa. Daí que eu acelerava o passo, mas quem disse que ele se tocava? Lá pelas tantas ele me chama pra tomar umas:

Bora, eu pago.

Uai, Ferruge, onde?

Onde cê quiser.

Então bora matar essa subida, logo ali tem um lugar massa.

Fechou, disse e esboçou um sorriso.

Aí até que dei uma animada. Porra fazia dias sem tomar uma cervejinha, as contas tudo zuada, faltando coisa lá em casa, a mulher braba, menino precisando de leite, porra, minha vida tava só a desgraceira! Hoje até que tá de boa, meu moleque é só alegria, a mulher continua só a treta, mas olha eu também mano, tá ligado? Mas a vida deu uma aliviada, e a vida é cabulosa né vei, na moral mesmo.

Aí chegamos lá no bar e tal, aí ajeitei as bikes do lado da mesa. E ele começou a descer sem dó. Mano, fiquei alto pra caralho. Até sinuca rolou. Eu tava alegre, daquele jeito, falava tudo da minha vida, e o Ferruge num falava nada pessoal, parece que queria resolver uns assuntos da época da firma lá, falar do passado. Aí entrei na dele:

Mas cê tinha que se impor, Ferruge! Cê vacilava pra caralho.

É difícil pra mim. Até hoje. Mas naquele tempo os cara abusava demais.

Era engraçado, falei sem perceber e o Ferruge me olhou com dureza. Ele foi ficando sombrio. Largou o taco e voltou pra mesa. Eu terminei a partida com outro mano lá, eu tava contente, saca? Vei, nessa a gente foi até perto das 9 da noite. Imagina. Eu me esqueci de casa, dos perrengues, das canseiras, de todas as paradas: caralho, que dia foi aquele, me sentia como antigamente, perdido no mundão. Porra, onda massa. Daí que naquele grau voltei pra mesa e ele ja emendou na mesma:

Eu nem precisava daquele trampo. Mas eu ficava porque tinha que enfrentar aquela situação, mas não sabia como.

Uai Ferruge, cê quer mesmo falar só do passado né?

Só quero conversar.

Só sobre o passado! Relaxa mano. Porra, bora voltar pra sinuca. Já era, passou, tá enterrado! Me diz aí: e sua mina, é massa mesmo?

Casei porra nenhuma mano, tava mentindo, eu minto pro pessoal das antiga. Continuo o mesmo bosta.

Acendeu a luzinha de alerta, mas a noite avançava, e aquela cerva tava tão boa, fazia tanto tempo que não experimentava aquele tipo de rolê, saca, que acabei me deixando levar, e mais se ele queria desabafar então que mandasse bronca, foda-se.

Eu sou um covarde. Eu odeio tudo nessa vida, mas me odeio dez vezes mais, mas nunca tenho coragem pra nada, queria acabar com tudo.

Calma aí, Ferruge.

Meu nome é Carlos, cara! nunca curti essa droga de apelido. Mas aí o outro Carlos, o Carlão, ele que inventou isso. Pegou porque me irritei. Aí já era.

Apelido mano, é apelido, relaxa. Desce mais uma aqui, ei, ô maluco, desce outra aqui!

Cara como eu odiava aquela porra de firma. O dia que abriram minha marmita e derramaram óleo de máquina e ficaram esperando eu comer…

Essa foi engraçada. E quando sumiram seu crachá e cê num conseguia bater o ponto e ficou lá um tempão?

E a máquina, aquilo quase decepou meu braço.

Ah, dessa achei graça não.

E o líder não fazia nada.

Carlão era sangue bom, quê que será que foi feito dele?

Eu tentei matar ele, mano.

Olha as ideia do Ferruge, falei sem pensar e sorri um riso torto.

Fiquei muito tempo planejando, muito mesmo.

Quê que cê fez?

Afrouxei os parafusos das rodas dianteiras… Numa reunião saí pra ir ao banheiro e fui pra garagem, sabia como tirar aquelas calotas, era moleza, tinha deixado a chave mocada, sabia o tamanho dos parafusos e tudo. Calculei o quanto deveria deixar frouxo até que com a velocidade…

Caralho mano! Cê tá falando sério?

É a real! Aquele dia foi cabuloso. Senti um medo desgraçado. Faltei os dois dias seguintes. Me vi preso. Foi tenso, mano. Ficava assistindo TV e ouvindo o rádio esperando a notícia do acidente. Mas aconteceu nada. Bicho sortudo da porra esse Carlão. Nunca falou nada sobre na firma, mas era como que soubesse que eu tinha feito aquilo. Mas ele parou de pegar no meu pé como antes. Os outros que continuaram a me sacanear. Logo pedi conta e sumi, o remorso me matava. Me sentia um monstro, e o fato dele parar de me zuar me deixava ainda mais bolado.

Fazia algum sentido o que o Ferruge dizia. Cê lembra, mano, que as coisas deram mesmo uma mudada antes dele sumir da firma? Mas porra, o Ferruge tinha saído lá da puta que pariu, quase 5 anos depois, pra enfiar cerveja em mim e confessar seu quase crime. Ou crime mesmo… Mas como o Carlão se safou dessa é que não sei. Num era a hora dele né, deve ser isso. E cê lembra que o Carlão tinha um Golf Sapão, turbinado, adorava andar chutado, porra, imagina mano…

Vivi na escuridão mano, continuou o Ferruge com a voz embargada, foi um tempo difícil. Caí numa deprê fudida. Ninguém imagina o inferno que foi.

E eu só ouvia. Parecia que de repente eu entendia as coisas de outra forma. Tava ficando muito bêbado e a lucidez era outra, mas ainda era lucidez.

Faz pouco tempo voltei a sair de casa, viver sozinho. Mas minha mãe me arrumou médico tratamento remédio…

Porra Ferruge, tenho que vazar, mano, tá ficando tarde. 

Tô ligado, valeu por me ouvir aí mano. Quer levar umas latinhas pra tomar em casa?

Tá maluco, já vou levar maior esculacho, mano.

Leva bebendo então, ué, já que tá fudido mesmo…

Faz sentido, uai mano, se pá desce aí então.

Mano, nessa fui até o outro dia com ele. Dali por diante lembro de mais nada. Vem umas paradas assim tipo umas lembranças do que falei. Parece que comecei a mandar altas ideias sobre tudo que ele tinha falado. Devo ter falado coisa pra caralho. Parece que ele chorou, não sei. Parece que até eu chorei. Porra esqueci a bike no boteco, nem sei como cheguei em casa, acordei na rede, perdi o dia de trampo, vei, que fita que me meti, maluco do céu! Mas mano, que dia sinistro, na moral. Que rolê foi aquele! Nunca mais trombei o Ferruge, mas queria, saca? Queria mesmo. E nem sei bem o por quê. Tem hora que penso: sai fora desse cara, potencial suicida e assassino: mano olha os tipo de doido que a vida fabrica, porra. Mas sei lá, acho que falei alguma coisa de importante, tem hora que rola umas lembranças cabulosas mesmo, mas não acesso direito que que rolou, até sonho com isso às vezes, mas é tudo muito confuso. Queria trombar ele pra saber o que virou depois disso, como ele tá. Na moral, parece que o que eu disse serviria pra mim também, tá ligado? Nessa de chapar cê acessa altas ideia que cê nem sabia que elas tavam ali, tá ligado? Fico tentando lembrar, vem só a sensação do momento, sentado na calçada, falando pra caralho sobre algo muito importante… Ah cê tem que vazar mano? De voa, porra de papo estranho que eu arrumei também, né? É a bebida mano, ela sempre me deixa assim… Mas aí, tá na hora de parar, vou pra casa também, logo a mulher me liga braba…, Mas aí, bom te reencontrar vei, cola lá em casa qualquer dia desses.