O Reflexo

A menina era problema. Ninguém mais sabia o que fazer. Quinze anos apenas. Na época estava suspensa das aulas, envolvida com umas pessoas suspeitas. Diziam que andava fumando maconha às escondidas, dentre outros entorpecentes mais pesados. Diziam de tudo pelo bairro. Logo logo aparece prenha, diziam uns. Ou morta, sentenciavam outros. No bairro todos sabiam que a coisa não ia terminar bem. Um dia foi pega cometendo um delito. Foi levada à delegacia. As amigas conseguiram fugir. Foi pega sozinha.

Quantos anos cê tem, menina?

Quinze.

Ah, é? Ele quer te dar só um susto.

Mas é ilegal!

Pior que é. Mas fazer o quê? Quem manda é eles lá, fia…

Não pode, sou menor de idade. Não me chame de fia, você não sabe quem eu sou!

Mas vai por mim, isso aqui é melhor do que descer. Lá embaixo o bicho pega,,,

Foda-se, quero sair daqui!

Se descobrir um jeito mostra pra gente…

Não quero papo! Fica na sua aí tia?

Ha ha ha ha. Beleza então…

Quem tentava em vão abrandar os ânimos da menina era uma mulher de pouco mais de 30 anos que parecia ter passado dos 40, de nome Lídia. Havia sido detida por agredir uma velha num bar. Estava ali fazia um dia já, o delegado disse que era pra ela poder pensar melhor sobre o que fez. O novo delegado, que por benevolência lhe deu essa chance de reflexão, era um homem que havia assumido aquela região da cidade fazia pouco tempo e trazia métodos nada ortodoxos que agradava boa parte da comunidade local. Lídia tinha duas filhas: uma de quatro e outra de dois anos. A de quatro nasceu no ano em que ela passou pro regime semiaberto e a mais nova nasceu assim que terminou de cumprir sua pena. Mas não lidava muito bem com as crianças, por isso elas viviam com a avó. Na noite anterior havia dado uns tapas numa velha fofoqueira lá no bar do Alemão. A velha jogou um copo nela que arremessou de volta uma cadeira. A velha desmontou. O pessoal achou que a velha tinha morrido. Alguém chamou a polícia, ela disse que não fugiria, que assumiria o que fez porque a velha merecia. A polícia chegou no mesmo instante que a ambulância, mas a velha já estava de pé e cheia de palavra contra sua agressora.

A menina não suportou a pressão e começou a gritar, repetindo que era ilegal aquela atitude do delegado. Na cela havia mais cinco mulheres, que pareciam querer dormir. Lídia começou sorrir, sabia o que aconteceria em seguida. A menina começou berrar mais alto e com isso fez uma das detidas se levantar, ir até ela e lhe aplicar um murro daqueles na boca do estômago.

Cala a porra da boca, pirralha!

A menina cai no chão meio que sem ar. Lídia meneou a cabeça ao ver a menina cair gemendo. Depois sorriu. Aos treze anos Lídia foi presa pela primeira vez, foi jogada numa cela pior que aquela e depois foi transferida pro Batalhão, onde até hoje fica o albergue pra jovens infratores. Nem lembrava mais por que tomara aquele rumo na vida, parecia ser seu destino. Mas nas consequências daquela primeira prisão ela sempre evitou pensar. Não falava sobre aquilo com ninguém, nem nos momentos de bebedeira extrema. No dia daquela primeira prisão seu pai, que se dirigia à delegacia pra saber o que tinha acontecido, atravessou com a moto a frente de um ônibus e morreu no local. Depois que saiu do Albergue foi morar na rua. Depois sumiu. Conheceu outras cidades. Voltou. Entrou pesado no submundo do crime. E por fim foi presa, e como já era de maior, desceu pro presídio. Pegou seis anos de punição. Ficou fechada dos vinte aos vinte e seis.

Na condicional descobriu que estava grávida de um dos guardas prisionais que era casado. Sozinha e de barriga criou coragem e procurou a mãe. Ela lhe abriu as portas, resignada. Quando a primeira nasceu os olhos da avó brilharam, e ao pegar a neta nos braços pela primeira vez foi como se enfim conseguisse redescobrir a vida. Lídia odiou aquela cena toda. Anos depois voltou a se encontrar com aquele guarda prisional e novamente engravidou dele. A mãe recebeu a notícia com alegria. E com alegria recebeu a outra neta. Livre das filhas, Lídia ficava vagando sem trabalho ou perspectiva, bebendo, se drogando, fazendo bicos, e na maioria das vezes se prostituindo pra levantar uma grana. Mas pro submundo da criminalidade ela não voltaria, era uma promessa que fizera a si mesma: havia sofrido muito na cadeia. Vivia em bares sujos, com homens casados e/ou tipos mais suspeitos, mas sabia como não cair no vacilo de cometer algum crime, sabia qual era o limite, e vagueava até ele com perícia. Causava brigas quando bêbada e por se achar mais valente que qualquer outra mulher – e até uns homens – arrumava confusão o tempo inteiro. E aquela era a sua primeira noite detida após tantos anos de vida noturna vadia. Maldito delegado novo. A mãe nada falava, e parece que até preferia assim, preferia as coisas do jeito que estavam, do jeito que iam, Lídia não tinha jeito não: e mais, desde que deixasse suas netas em paz, tanto faz tanto fez. A mãe recebia uma pensão, e vivia bem com essa pensão, mas não dava um centavo à Lídia.

A menina tentou se levantar, mas o estômago ainda doía. E sentia medo. Mas parecia que ia manter o silêncio, estava acuada. As outras detentas, depois daquele soco, despertaram e ficaram conversando e esnobando a menina. Lídia sentiu vontade de ir lá e provocar a pirralha.

Quando se é novinha assim a gente se acha pra caralho né sua… antes que completasse a frase veio a imagem de seu pai. Ela ficou sabendo da morte dias depois do enterro. Sentia raiva da mãe por conta disso: quando saiu do albergue foi direto pra rua. Só quando presa e condenada, anos depois, que ela sentiu algum remorso pela morte do pai: foi obrigada a pensar principalmente quando na solitária, um dos momentos mais difíceis na prisão. Depois conseguir descobrir como recalcar aquelas imagens.

Cê é como eu! Pirralha idiota! Vai se fuder bonitinho na vida! Olha pra mim e vai sacar qual é o seu futuro, sua idiota!

Quase não conseguiu segurar o riso de deboche. Um sentimento obscuro fervia dentro de si e transbordava num riso nodoso. Era como um espelho refletindo a sua primeira juventude, daquele jeitinho ali mesmo, amedrontada dentro do albergue depois de tomar um soco na boca do estômago, caída no chão da cela, sem saber o que fazer.

A gente é a mesma coisa, pirralha.

Daí se ouviu uma movimentação nos corredores. Sons de chaves, surge um homem com o delegado que num movimento rápido abre a cela. O homem adentra e puxa a menina que estava encolhida no chão e a abraça. Os dois choram. Abraçados eles saem, o delegado fecha a cela e antes diz pra Lídia, com olhar duro: Espere mais um pouco aí, tá? Você não vai sair hoje ainda não, acho que você vai ter uma surpresa não tão muito boa, e saiu pisando duro. Tão rápida a cena que pareceu um sonho pra Lídia, que do fundo da cela, já sem aquele sorriso demoníaco, de dentro da escuridão, da mais profunda escuridão viu no rosto daquele que viera resgatar a menina as feições de seu pai.

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