Tubarões de Água Doce

Maurílio, também conhecido como Magrão, abriu a janela do quarto sem nenhuma pressa. Anda logo, cara. Era André, o pedreiro. Magrão esfregou os olhos, passou depois a mão na cabeça e só então perguntou o que ele queria.  Tem um trabalho ali, tô precisando de ajuda, cê tá afim? Magrão precisava de grana, mas sabia que aquele cara ali era problema. Setenta conto o dia, grana fácil! É, é boa grana, pensou Magrão. Cê não vai ficar me esculachando igual da última vez, né? André sorriu, constrangido. Qual é?, esquece aquilo, o trampo é suave, a parte pesada já fiz tudo sozinho, é só acertar uns detalhes… anda, me diz aí, vai ou não? André estava construindo um deque que avançava por sobre um lago artificial na chácara de um tal doutor. Uma vez na chácara Magrão ficou impressionado com o lugar: árvores imensas, pedras brancas assentadas pelos caminhos, bancos estranhos espalhados por todos os lugares, assim como redes coloridas nos galhos das árvores mais baixas, cachorros peludos correndo por todo lugar, um casarão entre dois bosques, sons de pássaros cantando o tempo inteiro, pequenos jardins espalhados pelo lugar, cada um com uma cor predominante… Num desses jardins um senhor podava algumas plantas. André passou direto, nem bom dia disse. Magrão o seguiu, sem olhar pros lados, pensou ser aquele senhor um empregado qualquer. Velho maldito, disse André assim que chegou no deque, no mesmo instante Magrão percebeu a encrenca que havia se metido.  Porra André, tu vai me meter noutra furada, cara! Relaxa moleque: olha que belezura, hein? Sou ou não sou foda? Fiz essa porra praticamente sozinho, com esse velho caduco me enchendo o saco. Pisa ali, se quiser pode pular, nem o chão é mais firme que isso aqui, e sabe por quê? Porque foi eu quem fez, caralho! E gargalhava. Magrão inquietou-se, não sabia ao certo o que fazer, sentia vontade de ir embora, de largar tudo, voltar pra casa, fazer uns currículos, procurar trabalho numa indústria qualquer, ou trabalhar de badeco numa oficina automotiva… Passaram-se vinte minutos e ele na mesma posição, sem saber o que fazer. André soltava grunhidos por conta dos pregos que segurava com a boca, mas não exigia nada do rapaz. Magrão não sabia se perguntava o que tinha de fazer ou se dava as costas e sumia dali. Fazia frio, o brisa matutina parecia aumentar a intensidade do frio mesmo com o avanço das horas do dia e as árvores antes tranquilas se inquietavam, os pássaros cantavam cada vez mais alto, e não fosse pela luz dura do sol vazando pelas copas das árvores tremulantes a sensação de que uma tempestade se aproximava ganharia cada vez mais força. O tempo passava e Magrão permanecia na mesma. Fora uma ou outra ferramenta, André não exigia muito dele, e isso o deixava cada vez mais confuso. Teve uma hora que sentiu vontade de perguntar qual era a sua função ali, mas sentia medo da resposta, e depois lembrou da distância, não sabia qual era o caminho de volta. Situação bizarra, mas ele saiu de casa sabendo no que ia dar aquilo: da última vez testemunhou um bate boca pesado entre André e o dono da obra, quase saíram no braço. Mas André era o melhor pedreiro da região, sabia fazer de tudo e com uma habilidade tão incrível que as pessoas o contratavam sabendo que, apesar de suas grosserias, todos os contratempos valeriam a pena. André sabia de suas qualidades e foi se tornando cada vez mais truculento, mais arrogante e até desleal nalguns pontos.  O café tá pronto André, gritou o senhor que estava no jardim, dando alguns passos de um dos jardins em direção ao deque. Não, agora não, ah olha só: tá aqui meu ajudante, tá bom pro senhor? gritou.  Não, André, eu não disse que você tinha de trazer um, falei que seria bom você ter alguém pra te ajudar, você poderia cair daí, por exemplo… André fez um grunhido e gesticulou algo no ar e aquilo fez com que o doutor parasse de falar. Vá lá Magrão, agorinha eu vou, assim que dar um jeito na porra dessa madeira, parece que ela tá envergando… O doutor fez um gesto para o rapaz que ficou desnorteado, olhou para o pedreiro e depois para o doutor, o vento sacolejava as árvores e a fome doía no estômago: seguiu o doutor. Ele é sempre assim, né? Magrão balançava a cabeça de maneira irresoluta, sem saber como se posicionar diante do assunto. Contratei por ser bom de serviço, o pessoal fala muito bem dele, me avisaram sobre seu temperamento peculiar, mas fazer o quê, né? Chegando na varanda do casarão, Magrão sentou-se num banco feito de tronco de árvore velha, mas estilizado, bastante bonito, aliás, todos os móveis pareciam feitos de outras coisas, reaproveitados, de um marrom meio escuro.   Veja, aqui tá o café e o leite, e ali, olhe, tem alguns bolos que eu mesmo fiz, e aqueles biscoitos ali, aqueles amarelados, minha filha trouxe ontem, são deliciosos, ela é boa cozinheira, mas não se acanhe, vá, coma. Magrão colocou o café com leite numa xícara e pegou um dos biscoitos; eram realmente deliciosos e ficaria apenas neles não fosse a suspeita de que o doutor o observava, então decidiu por pegar um dos pedaços de bolo. Estava tão gostoso quanto o biscoito, mas havia um quê de canela, algo sutil, mas que deixava o sabor do bolo mais interessante que o do biscoito. Sentiu o sabor de canela? disse André surgido do nada. Melhor bolo que comi na minha vida, você sabe desse negócio de bolo, hein doutor? André parecia outra pessoa, mas ainda sim um tanto desequilibrada: ele colocou café no copo, cortou três pedaços de bolo e enrolou num guardanapo e ia saindo avexado. Antes, se virou e disse: Bora moleque, pare de me enrolar. Ué? respondeu Magrão olhando para o doutor que sorriu e fez um gesto confuso. O deque estava praticamente pronto, André preparava os acabamentos, mas havia algo que o incomodava, mas ele não dizia nada sobre, apenas soltava sons entrecortados, como resmungos ou talvez se valesse de outra língua pra expressar o que lhe perturbava. Magrão lhe entregava uma ou outra ferramenta, mas gastava a maior parte do tempo observando o lago, os jardins, as árvores, os caminhos de pedras brancas: sentia vontade de ir por determinados rumos pra ver onde dava tudo aquilo. Foi se tornando sereno com o abrandar dos ânimos do pedreiro. André se fechava cada vez mais nos seus afazeres, ensimesmado, às vezes parecia que nem se lembrava do ajudante. Magrão percebeu o doutor vindo do casarão, aquela frágil sensação de serenidade se foi.  Tô precisando de uma ajuda ali, você pode me emprestar seu ajudante. Vá, vá… respondeu André sem se virar. O que você faz da vida?  Nada, só estudo. Tô terminando o ensino médio. Vai fazer o quê, qual faculdade? Não sei ainda. O doutor perguntava com a cabeça dentro de um sótão que ficava no andar de cima do casarão. Eles entraram pelo corredor depois da cozinha e subiram por uma escada no final desse corredor e lá em cima havia outro corredor e diversos quartos, quase como num hotel: era enorme o casarão. No final desse corredor se encontrava a entrada pro sótão. Aqui, pegue isso aqui, cuidado, coloque aí no chão, aliás, coloque ali, com cuidado, por favor.  Eram embalagens escritas com umas letras e uns desenhos estranhos. O doutor desceu com um saco menor, pegou uma das embalagens no chão e o rapaz a outra. Foram pelo caminho que levava até o deque e depois seguiram uma das trilhas de pedra, aparentemente a mais longa.

Tudo bem aí, seu André? Tá tá, respondeu, ríspido.  Ele é muito engraçado, sorriu o doutor. Venho lhe perguntando por que não arruma alguém pra lhe ajudar, mas ele sempre respondia de forma grosseira, mas acho que ele se cansou das minhas perguntas… mas tudo bem, as pessoas são assim, né? Magrão não sabia o que responder, apenas o seguia. No percurso descobriu como era ainda mais belo tudo aquilo que tinha para depois do que se via do deque: árvores ainda maiores, casebres abertos, jardins, um imenso canil vazio, e uma serra de um verde-escuro se desenhava lá no horizonte. O lago terminava por ali, e havia uma lancha encalhada na margem. O doutor falava de outra coisa, mas a percepção do rapaz queria dar conta de tudo aquilo que ia surgindo. Aqui, eis meus aquários. Não é bonito?  Magrão ficou ainda mais impressionado! Era uma casa grande, não tanto quanto o casarão, e sem paredes, quer dizer, um único cômodo, e eram vários os peixes, de todas as cores e tamanhos, nos diversos aquários.  Bonito, não é? repetiu. Compro a maioria da Ásia, sou fascinado por essas espécies, mas esta aqui é minha favorita, meu xodó, tubarão da Malásia, são tubarões-de-água-doce, veja, que beleza: estes dois são chamados de Pangasius Myanmar, mas no lago há outras espécies como o Arius Arenarius e também… Como assim? Tem tubarão no lago? perguntou o rapaz assustado. Sim, faz algum tempo soltei alguns aí pra ver se se criam, se crescem, pra ver o que acontece. Mas olhe aqui: alguns não passam de 50 centímetros: são pequenos, não há pelo que se preocupar, olhe esse outro aqui, por exemplo… O doutor discorria sobre as espécies, alimentações, sobre a cultura do aquarismo, as águas da Ásia, mas o rapaz só pensava no lago infestado de tubarões. E aí cara? vai passar o dia aí conversando? berrou André à meia distância dos aquários. Deixa eu ir, disse o rapaz como que voltando à realidade. Esse doutor é maluco, viu, é cada coisa que ele inventa, vai na conversa dele pra você ver. Magrão permanecia em silêncio. Esses ricos desse tipo aí, por falta do que fazer ficam inventando coisa, mas não é pro nosso bico não, fica viajando nessas coisas aí não, pisa no chão que daqui a gente não cai, viu!  Magrão permaneceu um bom tempo calado, encostado no parapeito, observando o lago. Tubarões-de-água-doce. O lago era extenso, de água escura, de um verde-escuro. A vista do deque deixava tudo mais bonito. Sentiu vontade de ir até à margem, mas teria de esperar até que André se acalmasse. O doutor não apareceu mais e pelo resto do dia Magrão ficou ali, olhando o outro trabalhar e pensando tanta coisa que nem sabia ao certo donde vinha tanta pergunta a lhe perturbar o juízo. Ao fim do dia o doutor apareceu.  Aí ó, amanhã, graças a Deus, e antes do meio-dia, termino tudo. Certo certo, sem problemas, André… ah, vem cá, rapaz. Qual seu nome? Maurílio, mas o pessoal me chama de Magrão. André fez cara feia, Magrão se enrubesceu. Preciso de ajuda aqui, Maurílio, queria alguém interessado em aprender sobre peixes, plantas, alguém pra me ajudar, tu se interessaria? Magrão, sem saber o que dizer, esboçou um riso opaco e disse algo confuso. Ok, caso se interesse venha aqui amanhã e a gente troca uma ideia melhor, ok? No carro voltaram em silêncio. Magrão se sentia incomodado, mas algo dentro dele vibrava, era uma alegria misturada com medo, com receio, e até angústia. André olhava de forma dura pra estrada, parecia irritado. Mas ele era sempre assim, então não dava pra saber se estava irritado com a proposta do doutor ou sabe-se lá com que. Na porta de casa André tirou uma nota de cem e deu pro rapaz, que quase foi enxotado do carro. Ele olhou e viu que era mais que o combinado. Pode ficar, tem nada não. Ah, você passa aqui amanhã, disse, encabulado. Ê moleque!… Vê se acorda cedo que não vou lhe chamar não, já esteja de pé e na porta quando eu chegar. Magrão não foi pra aula, ao invés disso foi até a casa de um primo que tinha computador e internet,  pretendia pesquisar sobre peixes. Mas o primo havia saído, então ele esperou um pouco ali, conversou um bocado com sua tia; então, percebendo que o primo demoraria ainda mais, decidiu andar por aí, estava ansioso pela chance de emprego, e não apenas isso, de um aparente bom emprego: um interessante emprego: e que emprego. Nunca antes nada havia surgido de maneira a lhe causar tamanha impressão, mas não tinha com quem conversar, era preciso segurar a onda e por isso decidiu andar por aí até o sono bater: era o que restava. Seu primo chegou tarde e lhe ligou, mas o cansaço bateu e Magrão resolveu ir dormir. À noite sonhou com filas e mais filas de pessoas. Ele tentava escapar de uma fila e caia noutra fila, e as filas, às vezes, eram compostas ora por gigantes ora por anões, e parecia noite e as pessoas não tinham rostos. De tanto buscar escapar das filas e procurar por uma porta qualquer pra escapar dali acordou cansado e bem antes da hora. Sua mãe, que sempre madrugava para o trabalho, estranhou vê-lo de pé tão cedo. Tomaram café e conversaram amenidades. Ela parecia contente, ele parecia perdido. Se despediram. Magrão se preparou e foi para a porta da rua. Faltavam vinte minutos pras sete. Dali até sete e ponto André passaria, era pontual, quer dizer, chato até com essa coisa de horário. As ruas do bairro estavam desertas, uma ou outra pessoa cortava o vento frio com passos firmes, tudo estava tão quieto como em todas as manhãs. Surgia qualquer barulho de carro ele pensava ser André, mas não… nada. Passava das sete e meia e nada. Lembrou do rosto dele dirigindo no dia anterior. Tentou lembrar o caminho, nada. Havia voltado tão atordoado que esquecera de observar o trajeto. Nem o nome do doutor ele se lembrava direito. Ah não, André… suspirou. Alguns dias se passaram e Magrão havia desistido de procurar pelo doutor, não sabia onde o médico trabalhava, aliás, nem se era médico ou juiz. Havia imprimido vários currículos e tão desanimado andava que fazia dias que nem pra aula ia. Certo dia, quando as coisas estavam voltando ao normal, André aparece, buzinando igual louco. Ô moleque: se arruma aí, bora. Bora pra onde, cara? respondeu da janela do quarto, um tanto irritado.  A porra do velho só me paga se eu te levar até lá, mas o que diabos cê falou pro velho, hein moleque? Anda se arruma vam`bora que tô atrasado. Magrão desapareceu da janela. Velho filho da puta, André suspirou e desligou o motor do carro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s