Depois de Velha

Mas mãe? O que a senhora tá fazendo? O filho perguntou e ao mesmo tempo largou o copo de cerveja no balcão e foi como se, de imediato, não estivesse em lugar nenhum, como se flutuando no vazio, ele e sua mãe, uma mulher de estatura baixa, cabelos ainda bastante escuros para quem já ia para além dos sessenta anos,  um olhar firme que denunciava algo da sua vida pregressa, e que acabara de se abaixar para pegar uma latinha na entrada do bar.  Os amigos perceberam que a mudança radical no clima atrapalharia definitivamente a bebedeira e se viraram de lado e continuaram a conversar como se nada estivesse acontecendo. Aquele era o filho mais novo, era perceptível os traços da mãe nele, mas sem aquele olhar misterioso, mas preservando os alguns traços do rosto, a estatura baixa e os cabelos bastante escuros. Ele deu dois passos em direção a mãe, mas, relutante,  parou na metade do caminho.  A mãe guardou a latinha numa bolsa que parecia já cheia e não disse uma só palavra, depois olhou para o rumo que seguiria, e se foi. Nos dias seguintes o rapaz frequentou a casa dos irmãos tentando  convencê-los de que algo precisava ser feito. Mas ela não precisa disso, ela tem uma boa pensão. Argumentava com o tom digno de desespero. Os irmãos passavam a mão na cabeça, desviavam o olhar: pareciam querer evitar o confronto a ao mesmo tempo dissessem: Ah, deixa ela, pelo menos ela tá fazendo algo.

Um ano se passou: a casa onde aquela senhora morava estava abarrotada de todos os tipos de metais, objetos velhos, móveis quebrados… O filho estava no mesmo bar e comentava sobre a situação com um amigo. Dizia que os irmãos agora reclamavam, que ela havia perdido o interesse nos netos, que passava o dia na rua, vasculhando lixos e entrando em terrenos baldios, que a casa parecia um lixão… E ele vivia repetindo – era o que podia fazer, ainda que com isso ele atestasse a sua impotência diante do assunto – que tinha avisado.  Quase setenta anos, cara! Como que pode? Depois de velha? Que papelão! O amigo suspirou mas não disse nada, uma vez que queria desesperadamente mudar de assunto, mas o amigo não deixava a coisa virar. Porque você não leva ela pra sua casa? Ah minha mulher não  dá certo com ela não. O amigo soltou um riso estranho e voltou para a sua bebida. Depois de um tempo disse, para provocá-lo: o que não tem solução, resolvido tá. Mas isso soou mal para aquele entristecido filho que decidiu parar de beber e ir embora, mas não sem antes dar sinais que o fazia com bastante irritação.

Esse aí tá enrolado… Disse o amigo ao dono do bar. A mãe só queria atenção, disse o velho do outro lado do balcão. Como você sabe? Olha a minha idade, eu sei do que falo. Mas como assim? e se ajeitou no balcão, provando com o corpo a sua incompreensão. Os pais tão ali o tempo todo, os filhos acham que apenas isso basta. Seguem sua vida. Acham que tá tudo no lugar certo. Mas não tá.  Eu lido bem com isso, na verdade não me faz falta. O bar me ajuda muito. Mas tem gente, como a senhora lá, que não suporta a pressão da solidão. Você acha que ela tá meio lelé? E fez um gesto com o dedo indicador esquerdo na região pouco acima da orelha esquerda. Não sei, vai saber, disse o dono do bar, como se encerrando o assunto.

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