Mataram o Agiota

I

O restaurante ficava na avenida principal, não possuía fachada, e a cor branca da parede externa, por estar bastante deteriorada por conta das últimas chuvas, contratava com o branco do ambiente interno, que parecia ter sido pintado recentemente. Lá dentro havia quatro mesas com cadeiras de metal, e fora mais três mesas com cadeira, mas de plástico. O restaurante abria as 11 e fechava sua primeira hora com pouco movimento. Quando dava meio dia quando o restaurante enchia por completo. Saía muitos marmitex, e havia gente esperando por lugares, enquanto os que estavam nas mesas conversavam alto, e os que esperavam pediam para ele alugar um local maior; e naquela algazarra toda ele não conseguia falar sério, brincava com todos quase ao mesmo tempo, o que dava ao lugar um clima bastante familiar.  Por volta da uma e meia o fluxo reduzia drasticamente. Mas ele mantinha o restaurante aberto até as duas porque sempre aparecia uma ou outra pessoa que tinha se enrolado no banco ou numa consulta médica. Durante o período de pouco movimento, seja pelas onze ou depois da uma, Fábio colocava a mão no queixo e ficava pensando sabe Deus em quê, e era despertado pela esposa que falava algo sobre a outra remessa de frango ou batata frita, isso antes do meio dia, ou das contas atrasadas, depois da uma. A comida do restaurante era muito elogiada, forte como só a nordestina conseguia ser, bem temperada, e talvez por isso a grande maioria dos seus clientes era composta por mecânicos e trabalhadores da construção civil, e a outra parte, menor em quantidade se comparada com a primeira, mas tão fiel quanto, era composta por vendedoras de calçados ou de roupas que atuavam na parte alta do bairro, onde o comércio de vestuários era mais intenso. Os dois grupos se misturavam de tal forma que não dava para distinguir quem era de qual área. Fábio era o cozinheiro, sua mulher cuidava da parte da limpeza e das contas. Quase não brigavam. Mas gostavam de conversar, vez ou outra, sobre o passado enquanto os fregueses devoravam suas refeições, poluindo sonoramente ainda mais o ambiente ruidoso.  Às vezes não interrompiam o assunto, quando esse fosse por demais interessante: muito menos nem durante a feitura dos marmitex. Quer salada? Perguntava em meio a outra frase. E ele nem quis saber o quê que tava acontecendo! Frango ou costela? E eu lá vou me esquentar com isso? Batata frita? E ele prestava atenção na conversa, no cliente e no marmitex, numa precisão incrível. O restaurante funcionava de segunda a segunda. O rádio sempre na mesma estação. O cardápio oscilava pouco. Os dias corriam sem grandes alterações.

Certo dia o houve algumas alterações no cardápio. A sogra de Fábio havia assumido a cozinha.

– Oxe, cadê o Baiano? Toda hora um perguntava, e a sogra dizia apenas que Fábio, e pelo tom se percebia que ela não gostava que usassem aquele apelido, havia saído para resolver um problema. Por volta do meio dia a esposa aparece.

– Eita, o Fábio? O Fábio subiu pro Tocantins.

Ela disse de pronto após o primeiro questionamento. Sua mãe fechou o semblante, odiava a língua solta dela e do marido. Apesar disso e de um gesto impaciente, a filha continuou sua narrativa.

– Não é de ver que ele tava no banco ontem e apareceu um conterrâneo. Desses que a gente tem pouco contato, mas que é conversador, sabe? Se mete em tudo. Daquele tipo linguarudo mesmo.  Veio com uns papo esquisito, disse que assim que a gente sumiu da fazenda encontraram o Armando morto, numa estrada vicinal, morto de facada, coisa mais horrível. O problema é que o Armando era um agiota perturbado, bebia demais, tinha meio que uns problema na cabeça, sabe? E oferecia dinheiro na maior facilidade, mas era afoito na hora de cobrar, e perturbava sem dó nem piedade se atrasasse em um dia se quer. E o Fábio inventou de pegar um dinheiro emprestado com ele. Tava tudo de boa, até que quando faltava pouco pra terminar a gente tomou uns prejuízo pesado na fazenda. Mas o Fábio conversou com o Armando e explicou tudo, pediu mais uns quinze dias pra acertar o que faltava e o Armando aceitou, mas também passou a ir todo santo dia na porta de casa pra dizer que não daria mais que aqueles 15 dias. Pra tu vê como era o tipo. Foi nessa que o Fábio decidiu vender os boi, a caminhonete da feira, os trem tudo. Pra pagar o Armando mas também pra descer pra cá. Tô cansado dessa terra, ele disse, tava mesmo amargurado. Mas a gente vai viver de quê, home de Deus? Deixa que eu me viro! Mas quando Fábio mete uma coisa na cabeça, ele num arreda o pé. É tipo burro empacado. Mas no fundo eu também tinha me cansado daquela vida. Falei pra mamãe que iria embora e mamãe me chamou de doida.

– Me tire dessa conversação, gritou da cozinha.

– Oxe mamãe, tem nada demais no que tô falando.

Um pessoal da mesa que ficava mais perto do balcão parecia o grupo mais interessado na demorada narrativa. O resto do pessoal fingia não ter interesse, mas todos estavam atentos ao que ela dizia.

– E aí mulher, conta logo o que aconteceu.

– Ué? Chegando aqui Fábio encontrou esse cômodo e teve a ideia de servir o almoço. Ele não cozinhava em casa, vivia cuidando dos bicho, das planta. Eu odeio cozinhar, mas me virava do jeito que dava, eu sempre preferi trabalhar com os bicho. Ele nunca reclamou da minha comida, mas eu sabia que tinha dias que eu errava a mão e ele comia calado, não dizia um pio. Aí quando ele falou desse negócio de restaurante e eu disse: Tu tá doido Fábio, eu não sei cozinhar pra muita gente não. E quem disse que é tu que vai cozinhar? Mas tu sabe cozinhar? E pra muita gente? Que ideia mais doida, Fábio. Mas ele bateu o pé. E num é que deu certo? Lá se vão dois anos desde então. Dois anos. Ele se levanta cedo, vai no mercado, ajeita tudo, e não cansa da repetição. Eu não sei como ele da conta não, eu já teria me cansado disso tudo. Mas ele não, parece gostar da mesma coisa todo santo dia. E ele vai só vai melhorando a mão, sabe? Já falei que ele daira um desses chefe de cozinha chique se ele quisesse: o homem tem boa mão, ceis tão vendo aí…

– Mas e o que aconteceu que ele teve de viajar? Cê da volta demais mulher a gente já sabe da história do restaurante. Disse um dos clientes da mesa que parecia mais interessada.

– Ah, parece que andaram falando que a morte do Armando tinha a ver com a gente e por isso que nóis mudamo. Ele morreu no mesmo dia que mudamo. Povo fala demais. E a gente também não se despediu de ninguém, Fábio vendeu as coisas prum fazendeiro que tava doido pelos bicho. Ele queria que a gente fosse trabalhar na fazenda dele, mas o Fábio nunca quis. E agora ele foi lá, tirar essa história a limpo. Eu disse, mas Fábio, pra que cê vai fazer isso? Se tivesse acontecido alguma coisa a gente sabia, não fizemo nada, pra quê isso?

– Mas você não fica preocupada não?

– E pra quê? Do quê adianta? Quando Fábio mete uma coisa na cabeça… Preocupada eu fico, mas fazer o quê?

E então ela põe a mão no queixo, e era como se imitasse o gesto do marido, e passa a olhar os carros apressados e a pensar sabe lá Deus em quê. O pessoal da mesa conversa consigo mesmo sobre aquilo e citam casos parecidos e que terminaram tragicamente. A mãe na cozinha vem até o balcão e aumenta o volume do rádio pra abafar a conversa daquele pessoal que parece compreender o gesto e muda de assunto. Logo se despedem e saem todos. O restaurante vai entrando aos poucos naquele período de tempo  em que não entra ninguém. E então, perto das duas, surge um ou outro cliente.

– Ué, cadê o baiano? Pergunta um desses clientes.

– O Fábio subiu pro Norte! diz abaixando o volume do rádio. A mãe, que estava ali pelo balcão volta para a cozinha, sai pisando duro, gesto que em nada abala a filha que recomeça a contar sobre a viagem do marido e a confusão com a morte do agiota Armando. Passa do meio dia, o sol queima o asfalto, e o cliente presta atenção no que a esposa do Baiano conta e, entre uma abocanhada e outra, se espantam com a naturalidade dela diante de um assunto tão estranho.

II

– Desci na rodoviária de bermuda, acho que era essa bem aqui, uma camisa polo amarela, chinelo, boné, e meti uns óculos escuros. Eu tinha passado a noite em claro, dormi nada. O que aconteceu foi que as ideias ficava assim, zum zum zum… E eu, da hora que pus o pé naquele ônibus, me perguntava se tinha sido uma boa voltar lá. E se eu fosse preso? Mas eu não matei ninguém não. Tenho como provar. Mas quando eu tava quase dormindo começava tudo de novo: Mas o que diabos tu vai fazer lá, Baiano?

– E teu nome lá é Baiano, Fábio?

– Fique quieta mulher! E aí na escuridão do ônibus eu ia nessa. Repassava toda minha vida naquele escuro. Antes da mudança. Depois pensava na minha vida atual. Mas como alguém pode levantar uma suspeita dessas, gente, e eu lá sou assassino? Daí pensava na minha honra: eu tenho que tirar isso a limpo. E a noite foi todinha desse jeitinho. Eu na função de dar sentido praquela doidera, nem aproveitei a viagem. E como eu gosto de viajar durante a noite… Quando eu desci do ônibus percebi da rodoviária tudo que tinha mudado nela, e aí que eu caí no desespero. Mas o que diabos tu tá fazendo aqui, Baiano?  Dei meia volta e fui direto pro guichê. Moça que horas tem ônibus de volta pra Capital? Vixi moço, só amanhã agora. É que não vou pra capital mesmo, sabe? Vou parar em Anápolis. Tem um que vai pra São Paulo, mas ele vai passar em Niquelândia, e esse passa aqui sete da noite, e se tiver lugar. Eu tava é lascado. Em cinco anos da pra mudar um bocado, né? E com o boné e aquelas roupas então, eu parecia outra pessoa, ficava me olhando no reflexo do guichê, olha o nível da doidera. Mas e se a polícia achar que sou suspeito pela morte do Armando e me prender? Mas que merda que eu tô fazendo aqui? Aí resolvi procurar um hotel perto da rodoviária. Tava tudo lotado, época da festa do peão de boiadeiro, uma mulher me disse. Aí cada mais eu sentia um frio na barriga. Não conseguia me controlar, cara.  Não podia procurar meu pai, porque se ligasse ele ia lá onde eu tava, e aí todo mundo ia saber que eu tava lá. Vou ligar não, eu decidi. Mas ficava pensando nele, e queria ligar, mas não conseguia. Uma mulher de um hotel lá me indicou um tal de hostel, quarto divido, ali perto, desse povo que vive viajando. Como a cidade tinha mudado em cinco anos… Fui até o tal hostel e pela metade do preço que me cobraram no hotel grande eu consegui um quarto só pra mim, mas tinha que dividir o banheiro,  Bom, eu pensei, pelo menos aqui não vou encontrar ninguém de antigamente. Me acomodei na cama e tentei relaxar. Mas que covarde eu me tornei, veio essa ideia me perturbar. A cabeça da gente é uma desgraça, né? Daquela vez que o filho do dono do armazém, qual era o nome dele mesmo? Daquela vez eu dei uma surra nele na frente de todo mundo do mercado, caboco vagabundo. E no festejo que eu moí aquele sem vergonha do Cláudio que tentou dar em cima da minha mulher? Na escola não perdia uma briga. Eu domava boi era no braço. Mas que tremendo covardão! Quer saber, vou fazer o que vim fazer! Decidi. Me levantei, mas as pernas tremeram tanto que decidi ficar voltar pra cama. Não, melhor não, não sei de qual é dessa confusão, e eu devia ter ligado pro meu pai antes de vir. Mas o negócio é que aquele sujeito no banco me aperreou de um jeito que eu fiquei afobado, sai do banco e fui direto pra rodoviária, comprei a passagem, fui em casa arrumei uma muda de roupa na mochila e pronto. E fiz tudo isso afobado, sem juízo nenhum. Eita, e cadê aquela coragem toda? Eu me perguntava. Mas agora tá decido, vou voltar pra casa! Se meu pai não me disse nada até hoje é porque não era pra eu saber, então deixa como tá! É o melhor a fazer. A ignorância é uma benção, dizia minha avó. Tenho que por a cabeça no lugar, já que tomei uma decisão. Fiquei um bom tempo deitado. Aí me levantei e fui até a rodoviária e consegui comprar a passagem de volta, mas apenas pro meio dia do outro dia… Decidi que não arriscaria dar aquela volta toda por Niquelândia, Quase 7 horas a mais de viagem, porque o ônibus entra em toda currutelinha que tem por ali. Melhor esperar. Voltei pro meu quarto aí eu consegui dormir. Acordei já era bem de noite. Tomei um bom banho e fui me sentar na porta do hostel. Trem bom o tal do hostel, gostei mesmo. A cidade toda tava indo pra festa do Peão. O clima na rua me fez sentir uma coisa triste, mas é porque tinha hora que vinha as mesma pergunta: O que diabos estou fazendo aqui, e por que tô parecendo um covarde? Aí eu dizia: eu vou é na festa! Mas aí vinha na ideia: prisão, cadeia, assassinato, acusado sem ter feito nada, pagar advogado, e o restaurante, como ia ser? Bem que eu podia ir na festa, tomar uma de leve, depois ir no meu pai… Mas vou ficar bem aqui, que se foda.

– Ê Baiano… Só tu mesmo…

– Pois é, só eu mesmo… No ônibus da volta, eu sentia um alívio danado, conseguia sentir a distância daquela cidade maldita aumentando, e meu restaurante cada vez mais perto:  o lugar donde eu não devia ter saído. Minha cozinha, esses freguês folgado, a rua de casa, o clima mais de boa, diferente daquele calorão todo de lá, pra lá é quente demais, ave maria… E tem a sorveteria lá na esquina de casa, a igreja  dia de domingo de noite, o pastelzinho de frango e catupiri na feira, trabalhar todo dia de boa… Tem vida melhor não! No ônibus tinha onde carregar o telefone celular, e quando chegou a noite eu botei pra carregar e depois liguei ele e vi que tinha um monte de ligação da mulher, mensagem de voz e tudo. Mas eu não li nenhuma. Mandei uma mensagem falando que tava tudo bem e que já tava voltando. Aí desliguei o telefone. Mas então veio a curiosidade e resolvi ouvir uma ou outra mensagem. Numa dessas ela falava que tinha ligado pro meu pai, porque tava muito preocupada, e que ele não dava conta de ir na cidade naquele dia porque tava tendo problemas com o leite, mas que ficou preocupado, e ela falou sobre a morte do agiota, e meu pai disse não saber de nada daquilo não. Ela disse que passou o resto do dia passando mal. Nem no restaurante foi, que sua mãe que cuidou das coisas lá, que tava se virando sozinha. Passou a noite passada com uma dor de estômago lascada, que dormiu pouco mas o pouco que dormiu só teve pesadelo.

– E pior que tive mesmo! O home some, não manda nenhuma notícia, como que a gente fica?

– E eu lá tinha cabeça pra falar coisa alguma? Eu tava numa vergonha lascada. E num tinha acontecido nada, e eu tava voltando em segurança, daí eu ouvia as mensagens e caía na risada…

– Pra tu vê a preocupação dele…

– E tava uma noite estrelada. O barulho bom do ônibus correndo aquela estrada escura. Só ajeitei a poltrona e dormi igual uma criança…

– É cada uma que a gente se mete, né Baiano?

– É, é cada uma…

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