Muco, ou Um Pedaço do Inferno

A viatura subia preguiçosamente a avenida principal. Passava do meio-dia. Porra, comi um bocado! Mas que calor, vai tomar no cu! Se pudesse eu tirava esse cinto… falou de uma só vez o que estava no banco do carona. O do volante não gostava daquele jeito de falar, talvez por isso mantinha-se em silêncio na […]

Um Homem Santo

Depois de um dia inteiro gravando CDs pirata num quarto pequeno e sem ventilação saíamos na tentativa de vender uma boa parte daquele material. Mas sempre que conseguíamos uma certa quantia encerrávamos o expediente, comprávamos um vinho ou outra bebida mais pesada para ser misturada com outra bebida e então ligávamos pro Carlos, que não […]

Lara

Não daria o braço a torcer. O marido conhecia bem o gênio dela, e por isso mesmo sabia que não adiantaria nada tentar explicar coisa alguma. – Isso mesmo, saia, saia, me deixe em paz! Saia! Assim que ele saiu ela permaneceu sentada, repetindo a postura de sempre: recolhia as pernas para cima do sofá […]

O Deserdado

Um barulho estranho fez-se lá fora. Jânio fingiu não ouvir, mas se sobressaltou. Forçando o estado de espírito anterior ao barulho, se ajeitou no sofá e colocou a xícara de chá na mesinha de centro e ligou a TV. Ô tio, tem alguém aí? – A voz veio lá de fora, invadiu a sala sutilmente, […]

O Velho Do Caixa

Três da tarde. Sinal vermelho. Motocicletas forçando espaços por entre os carros. Alguém solta um palavrão. Outro buzina.  Dali da pastelaria se vê todo tipo de confusão entre motos e carros o tempo inteiro, e é bem ali , na fachada dessa típica pastelaria do centro da cidade que, carregando uma criança nos braços, uma […]

Um Assassinato Qualquer

Um boteco é como uma zona livre, um espaço autônomo perdido nas entranhas da cidade: ideias irresponsáveis, casos fantásticos, personalidades em ebulição, e o companheirismo que parece se afirmar autêntico e livre das amarras da competição, e às vezes o oposto também, como uma guerra fugaz e furiosa, uma tempestade assustadora que de repente se […]

Os Remanescentes

Moro bem ali, naquele prédio amarelo – disse enquanto lutava contra as imperfeições da pista. No meu andar quase todo mundo se foi… Pisou no acelerador tentando aproveitar o sinal amarelo. Somos três, os remanescentes. Eu, pra lá dos setenta; um outro, deve ter passado dos oitenta, um velho rabugento; e uma senhora, também com […]