O Aprendiz de Feiticeiro

I

Segura a onda, moleque.

Mas a feira tá pra acabar, anda logo com isso.

O irmão mais novo fazia um gesto irritado com a mão esquerda enquanto mantinha a outra no bolso da bermuda e os olhos grudados na porta do bar. 

E agora? Posso ir?

Ainda não, calma!

Paulinho não compreendia aquele demorado ritual, passou a andar de um lado a outro, fazia gestos impacientes e insistia em repetir as mesmas perguntas. Pedrinho, o irmão mais velho, mantinha o controle da situação com frieza, calculando toda movimentação dentro e fora do bar e sem se deixar levar pela danação do irmão mais novo. Dali de onde estavam era possível não só ver a bicicleta na porta do bar, como entender todo o movimento lá de dentro, e ainda monitorar toda a feira. 

Não esquece que cê vai até a segunda rua, vira pra esquerda, entra na da direita e me espera naquele beco, lá no final. 

Mas eu posso ir direto pra casa, não dá nada não! – Pedrinho se irritava com a teimosia do mais novo, mas tentava manter-se calmo. 

Olha aqui, ou faz do jeito que tô falando ou nada feito. 

Tá tá, beleza! E depois?

Depois nada, me espera lá.

Paulinho ficou encostado no poste, olhando vez ou outra pros lados, parecia mais calmo, enfim algo iria acontecer. Pedrinho foi até o bar, entrou e procurou algo na vitrine de salgados, perto do caixa. 

Quê que cê quer, moleque?

Ah eu? ah… é quanto o doce? 

Depende do doce. 

Então me vê um copo de água, por favor.

Foi tão desenvolto que de pronto irritou o dono do bar que, enquanto o moleque ajeitava os cotovelos em cima do balcão, teve de enfiar as mãos molhadas nos bolsos, como que tentando entender a petulância do moleque. Dali a pouco, a contragosto, o dono do bar foi até a torneira e encheu um copo com água. 

Toma e vê se some daqui, ô moleque. – E virou-se pro homem grisalho que bebia cerveja no balcão: Esse moleque aí tem cara de treta, não tem? 

O homem grisalho olhou pro menino e sorriu com tom de escárnio, depois voltou pra sua bebida.  Paulinho saiu do bar e foi em direção à feira. De lá ficou de olho pra ver se alguém sentia falta da bicicleta. Foi como tinha planejado. Aquele homem grisalho bebia sempre de costas pra rua e se esquecia da bicicleta: o problema era desviar a atenção do dono do bar. Deu a volta na feira e pegou a rua de trás, que dava uma longa volta, mas que também não deixava vestígios. Pensava apenas no irmão:

Aquele moleque burro, tomara que tenha feito o que falei.

II

Passou por algumas ruas desertas, algumas vielas e por um grande supermercado. Dobrou à esquerda e por fim viu o beco. Caminhou até o final do beco e, de soslaio, percebeu o irmão sentado na porta da última casa da rua. 

Cadê a bicicleta? 

Tá ali. – Pedrinho percebeu uma porta encostada e entreviu a bicicleta lá dentro.

Acho que não mora ninguém aí não – disse Paulinho com ar entediado, se esforçando pra não se mostrar envaidecido pela brilhante ideia.

Levanta daí e me ajude aqui. 

A gente vai pegar por ali e atravessar o brejo até o asfalto lá. – Paulinho apontou pro pasto que se perdia de vista. O irmão mais velho pela primeira vez não reclamou. A demora do irmão serviu para que Paulinho pensasse em várias possibilidades, traçasse rotas, e de todas aquela era a melhor opção.

Enquanto atravessavam o pasto Paulinho não parava de tagarelar. Falava sobre os amigos, sobre passeios, sobre tunar a bicicleta, quem sabe até rebaixar ela; perguntou pro irmão se ele sabia o que era bicicleta rebaixada, e Pedrinho fazia de conta que não ouvia.

Mas acho que não vou fazer isso não, vou só pintar o quadro, porque depois vai que cê precisa dela, daí vai dar ruim, bike rebaixada é foda … Se pá meter uns aro dos mais foda, sabe de qual?

Não, não sei, e olha aqui: mandar um papo reto, pega a visão: cê não vai dar ideia pra ninguém dessa bicicleta ainda, falô?

Quê que tem?, é só pintar ela e pronto, já era, ninguém vai ficar sabendo.

Eu falei que não, porra! E se liga: a gente nem vai levar ela pra casa ainda, tá ligado? Tenho um lugar pra esconder ela por um tempo, vai ser perigoso ficar roletando com ela por aí agora.

Paulinho se alterou no mesmo instante:

Que nada, eu que me arrisquei: quem decide sou eu, e num dá nada, já falei: cê acha que sou otário, cê num vai passar o pé ne mim não, mano! Vai se fuder! Acha que sou otário?

Pedrinho fingiu calma, mas foi severo:

Presta atenção, moleque burro: o dono dessa bicicleta andava pra todo lado, cê acha que ele não vai sair por aí perguntando dela não? No primeiro dia cê vai rodar, e vai rodar bonito, seu trouxa! Olha essa bicicleta, olha esse quadro aí, cê acha que ninguém vai sacar? Ainda mais com quem nunca teve uma bicicleta? Vai ser latada na certa. Aliás, tanto faz, cê num vai durar uma semana.

III

Uma vez no asfalto e percebendo que a dura no mais novo havia surtido efeito, Pedrinho chamou novamente a atenção do irmão de novo:

Se vacilar, Paulo, já era: a mãe vai ficar sabendo, cê vai se fuder de tudo quanto é jeito; então me escuta, moleque, me obedece que logo cê tá com ela na rua, nem me interessa essa bike, tô terminando de montar a minha lá no Kevinho, então só me obedece, que daí cê rebaixa essa porra, faz o que quiser com ela.

Paulinho parecia incomodado com alguma coisa. É que eu sempre me ferro, você vive me passando pra trás… – o mais velho interrompeu:

Olha aqui eu sou sujeito homem e cê mostrou que é também, então já era, esquece essas fitas e só faz o que eu tô falando, a bicicleta é sua e pronto, vê se não me enche, só quero te ajudar a ter a porra de uma bicicleta, moleque burro. 

Pedrinho apontou pro lote baldio entre duas construções novas:

A bicicleta vai ficar num buraco que tem ali, até daqui a umas duas ou três semanas, lá vai tá tudo certo.

Caminharam até o final do lote baldio. Tiraram esquadrias velhas e algumas madeiras da boca do buraco, que parecia ter uns dois metros de profundidade.

Murcha o pneu dela.

O irmão mais velho fez que não ouviu. A distância entre os dois não diminuía e por mais que o irmão mais velho tentasse demostrar respeito pelo mais novo, principalmente pela coragem de pegar a bicicleta, na prática o que se percebia era outra coisa. Paulinho tinha lá seus 12 anos, havia sido presa fácil do irmão por anos, por isso odiava tanto o mais velho. Ele entrou naquela porque queria provar que não era nem vacilão e muito menos o mesmo trouxa de antes: mas já entrou na fita desconfiando de tudo. E aceitou participar daquela sem que o irmão soubesse das outras paradas que havia feito com o Vesgo no supermercado e umas até naquela feira lá: umas três ou quatro ações de sucesso. Estava seguro de si e sabia que se sairia bem, porque dificilmente ficava nervoso na hora da ação. Mas o mais velho não parecia ver nada disso, nada a não ser ele mesmo. Mas dessa vez não, pensava o mais novo, vou ficar ligeiro.

IV

Os dias foram passando e nada de tocarem no assunto da bicicleta. Paulinho todo santo dia ia verificar se a bicicleta continuava no buraco. Depois passou a ir dia sim dia não, passou a confiar levemente no irmão. E assim se passaram lá umas três semanas. 

Perguntei pro Vesgo se ele tinha ouvido falar de algo por aí e ele disse que nada! Já deu né, vou tirar ela de lá!

Pedrinho deu um pulo:

Cê num falou com aquele linguarudo do Vesgo, falou? Não acredito nisso, mano! Mas como você é burro! Agora entendi, agora entendi. Acabei de passar lá e a bicicleta já não tava lá, entendi tudo!

Paulinho se sobressaltou:

Como assim não tava? Passei hoje de manhã com o Vesgo e tava lá do mesmo jeito! 

Mas agora já não tá, mas já saquei, tu é burro demais, moleque!

Sabia que cê ia me roubar! – gritou Paulinho que partiu pra cima do irmão – Seu desgraçado, seu desgraçado!

Mas Pedrinho deu um empurrão e o irmão caiu no chão. Paulinho se levantou e foi até a cozinha, pegou uma faca pequena e avançou pra cima do irmão, cego em seu furor, e num golpe foi derrubado novamente pelo irmão. De repente havia sangue pra todo lado: Pedrinho estava ferido. O impacto do sangue pelo chão da sala fez com que ele se detivesse, e então caiu num choro doído. 

Ela era minha, você não podia ter feito isso, era minha. 

Pedrinho não falou nada. Foi até o quarto e rasgou uma camiseta velha e estancou o ferimento na mão. Depois foi pra sala e ligou a televisão; depois foi até a cozinha e botou o almoço no prato. Paulinho parou de chorar e com o semblante pesado trocou de camisa e saiu de casa, sem olhar pros lados. Pedrinho terminou seu almoço com calma, como se nada tivesse acontecido e ainda tirou um cochilo.

V

Já havia anoitecido quando a mãe dos meninos chegou em casa extremamente cansada, e já foi se irritando ao perceber os pratos do almoço na pia e as panelas abertas sob o fogão. Esbravejou contra os filhos que estavam na rua jogando bola, e foi até a sala e pegou os copos que estavam sob o sofá. Pegou a vassoura e começou a varrer todo o lugar. Não sei se era culpa da fraca lâmpada amarelada ou se já era um ato automático, mas ela limpou toda a casa sem se dar conta que aquilo que manchava o chão da sala era sangue. Lá pelas tantas chegou Paulinho, e logo depois Pedrinho, e a mãe lavava a louça da cozinha, enquanto na TV passava novela das 9.

Muco, ou Um Pedaço do Inferno

A viatura subia preguiçosamente a avenida principal. Passava do meio-dia. Porra, comi um bocado! Mas que calor, vai tomar no cu! Se pudesse eu tirava esse cinto… falou de uma só vez o que estava no banco do carona. O do volante não gostava daquele jeito de falar, talvez por isso mantinha-se em silêncio na maior parte do tempo. A viatura dobrou à esquerda. A rota percorria todo o Setor Norte, entrava em todas as vielas, vasculhava todos os cantos, procurava sabe-se lá o quê. Eram dias tranquilos, coisa rara naquela região: alguns furtos aqui, um pai de família que bebe demais ali, brigas entre vizinhos acolá… Ih!!!! olha quem tá ali. O motorista desviou o olhar até o canteiro onde um rapaz caminhava descalço, aproveitando a sombra das árvores.

Ei Muco, o quê que tá pegando? Pare o carro, pare! O motorista obedeceu a contragosto.

Ei Muco… Ei cara, chegue aqui, anda, vem aqui moço…

Não, tá quente, o asfalto tá quente…

Cadê seu pisante?

Perdi.

Tá alto?

Tô de cara, usei nada não. Uso mais nada não, senhor.

Vem cá rapaz!

Vou nada, tá muito quente, senhor!

Deixa esse bosta pra lá… bora subir… – protestou o motorista bastante irritado.

Não, calma aí, pô! Acabei de almoçar, bota pressão não…

Mas que merda, bora subir logo…

Ei, Muco… Qual é? Venha aqui rapaz.

Não rola não, mano…

E eu lá sou seu mano?

Desculpa, senhor.

Tem rap novo pra jogar na minha mão?

Mas o senhor não gosta de rap.

Mas tem nada novo rolando na área não?

Tem não senhor. Agora posso ir?

Mas você não veio aqui, porra!

Mas não dá não!

Venha aqui, ande!

Não, não dá pô…

Quê que tá rolando nas áreas?

Nada não senhor, já falei, tô quieto desses corre aí. Nada de droga nem de vida do crime. Tô procurando trampo.

Tá a fim de capinar meu quintal?

Mas o senhor mora num prédio…

Ah… é mesmo! Tá ligeiro hein Muco…

Bora porra… Larga esse viciado…

Calma aí! Ô Muco, eu te arrumo trabalho, mas cê tem que vir aqui, cara.

Mas se eu ferrar meu pé, como vou poder trampar?

Boa, Mucão, boa! Dá pra ver que hoje cê não tá louco de pedra.

Tô não senhor. Tô limpo faz uns dias já…

Mas vem cá, pega aqui… – esticou o braço fora do carro, parecia se divertir. O do volante acelerou o carro.

Eu falei pra esperar, caralho! Cada vez que cê por pressão mais eu demoro.

Puta que pariu! Vai-te embora, anda ô marginal, pega subindo… – gritou o do volante.

Liga não Muco, ele tá meio estressado. Por que não gosta que lhe chamem de Moacir?

Não pô… Muco! Existe Moacir não!

Tudo bem, Moacir! Ha ha.

Posso ir?

Vem pegar na minha mão que depois cê pode ir embora.

O rapaz, bastante angustiado com a situação, se apoiou na ponta dos dedos dos pés, quase como uma bailarina e correu até a viatura, pegou na mão do policial e voltou, tudo em pouco mais de quatro passos.

Ah, e eu porra? Me respeita não? – gritou o do volante. O outro policial caiu na gargalhada. O rapaz abaixou a cabeça e resmungou alguma coisa.

E aí, vai vir ou não, seu bandidinho de merda.

Mas eu já fui aí senhor, eu já fui.

Ha ha ha ha. Ê Muco, Moacir, Mucão, meu parça. Anda logo, vá lá! Ele é meio… hum, é mais estressado que eu… ha ha ha ha.

Anda logo seu merda!

Muco, contrariado e querendo acabar logo com aquilo, subiu na ponta dos dedos dos pés novamente e deu um salto rumo à viatura. Antes que completasse o percurso a viatura acelerou e saiu cantando pneu. Muco ficou alguns segundos com os pés no asfalto quente. Logo saltou de volta pra sombra, enquanto ouvia distanciar os dois policiais e suas respectivas gargalhadas.

Um Homem Santo

Depois de um dia inteiro gravando CDs pirata num quarto pequeno e sem ventilação saíamos na tentativa de vender uma boa parte daquele material. Mas sempre que conseguíamos uma certa quantia encerrávamos o expediente, comprávamos um vinho ou outra bebida mais pesada para ser misturada com outra bebida e então ligávamos pro Carlos, que não demorava muito aparecia lá pelas imediações do Estadinho, onde preparávamos as bebidas e assim iniciávamos um processo que se estendia madrugada adentro. Andávamos sem rumo, os três, conversando geralmente sobre o passado, enquanto bebíamos ou o vinho barato ou o misturado de bebidas da qual, muitas vezes, nem sabíamos a procedência, mas sempre como se fosse a melhor bebida do mundo. Naquele tempo não havia muita perspectiva, as coisas iam mal: não falávamos sobre o futuro e muito menos sobre a falta de perspectiva presente, buscávamos nos distanciar dos problemas. Falávamos sobre o passado, apenas sobre ele, e quando era pra gerar polêmica recorríamos sempre aos assuntos místicos. Carlos era filho de um ex-pastor, mas a fé de Carlos era inabalável, e quando bêbado ela se tornava ainda mais firme. Ele dizia que um dia largaria a vida louca e se dedicaria a algo mais sério dentro da antiga congregação de seu pai. Eu era o mais cético, e gostava de provocar os outros dois, que frequentemente se irritavam com a minha falta de fé.

Certo dia a chuva nos pegou logo no início da bebedeira e na correria encontramos refúgio num bar onde alguns caras jogavam sinuca, decidimos ficar ali esperando a chuva passar. Alguns conhecidos chegaram. O dono do bar percebendo que éramos amigos da malandragem da área deixou que bebêssemos o que estava escondido na minha mochila, sem precisar ter de mentir, indo ao banheiro toda hora fingir que precisávamos mijar. Os caras que chegaram contaram como, mais cedo, haviam escapado da polícia graças ao dono daquele bar. Eram tipo uns pilotos de fuga, e dos melhores: os serviços daqueles caras eram requisitados em quase todas as quebradas da cidade. A bebida deixava tudo ainda mais impressionante: as narrativas de fuga, a chuva que caía torrencialmente, a cor amarelada do ambiente, o gosto acre da bebida, o som das bolas de bilhar que estalavam enquanto os jogadores berravam… E assim passamos um bom tempo ali até que a chuva abrandou e saímos a caminhar: nos despedimos dos malucos e do dono do bar e dos caras que jogavam bilhar e pegamos a rua. Nem nos distanciamos muito a chuvinha apertou de novo. Tivemos de dar um tempo debaixo de um toldo velho de um mercado abandonado.

A água torrencial que cobria o asfalto faltava pouco nos encharcar sempre que um carro passava apressado. A gente estava um tanto ensopado, mas o álcool roubava a sensação de frio e deixava outra coisa no lugar, como, por exemplo, um certo estado de espírito melancólico, que buscávamos espantar evitando o silêncio. Bem ali que começamos a contar certos acontecimentos passados, e sempre buscando as coisas mais estranhas na memória. Eu sempre inventava muita coisa, a partir de fatos verdadeiros, mas aumentando e muito, e creio que eles faziam a mesma coisa. Carlos falou algo sobre seu pai e percebendo a brecha resolvi perguntar por que ele tinha largado esses lances de igreja. Carlos, que não gostava de falar sobre o assunto, disse que ele teve uma visão e não suportou a verdade.

Que verdade? o outro perguntou. A verdade, uai – Carlos respondeu irritado – a Verdade que vem de Deus mesmo. Deus mostrou pra ele como as treta acontece na igreja e meu pai não aguentou a pressão. Eu tinha chegado da escola mais cedo e tava esquentando o rango quando ele entrou em casa como se tivesse visto um fantasma. Sentou no sofá e ficou ali, sem falar nada, a noite inteira. Minha mãe achou que era uma das paradas que rolam com ele, saca, dessas que meu pai sempre tinha, sabe, que rolam sempre depois do culto, tipo experiência mística. Mas não. No dia seguinte minha mãe acordou e preparou o café aparentemente tranquila. Eu acordei atrasado e dei com meu pai na sala e perguntei se tava tudo bem. Sim sim, ele disse, mas dava pra ver que não tava nada bem não. E foi assim até a noite. Na hora do jantar ele disse que tava largando a congregação de vez. Minha mãe, imaginando ser apenas uma fase, falou nada, mas eu fiquei meio assim, achei que logo logo ele ia voltar a beber como antes de se converter. Os dias passaram e ele parecia atormentado por mil demônios e não falava muito e parecia sofrer pra caralho com aquilo e até dava pra sacar que ele tentava falar, mas não conseguia de jeito nenhum. Um dia aconteceu: ele bebeu, tomou todas, chegou bastante chapado em casa. Disse pra mãe que precisava conversar comigo e me esperou no mesmo sofá onde ele tinha ficado a primeira noite em claro, e quando cheguei em casa ele me colocou sentado na sua frente. A mãe tava na cozinha, chorando. Eu fiquei maluco com aquilo e tava me segurando de raiva, mas queria saber o que ele ia dizer. Aí ele falou sobre a visão que teve. Falou que Deus apareceu pra ele depois do culto e revelou seu processo sagrado de atuação. Filho, meu pai disse com a voz cheia de cachaça, a vaidade nos cega, foi o que Deus me mostrou! Ele tentou se levantar apoiando no meu ombro e falou algo sobre uma série de imagens enigmáticas, e que foi nas séries de imagens que ele entendeu como as coisas se davam. Eu, meu filho, não valho nada e Deus usa os cafajestes no seu plano! E só os que não possuem valor algum que são os escolhidos! Quantas vezes eu não percebia que inventava minhas pregações e me envaidecia da minha capacidade de inventar justificativas pros textos bíblicos e como minha vaidade se inflava ao ver as pessoas com seus olhos brilhantes devorando minhas palavras e como eu me sentia importante por tudo aquilo. Naquele dia entendi a armadilha em tudo. Eu não suportei quando as imagens encadearam… Mas que porra de desculpa é essa pai, eu gritei. Que desculpa mais estúpida! E fui pra cima dele e dei um tapa no seu rosto, ele desmontou no chão! Seu cachaceiro de merda! eu gritei… Minha mãe correu e tentou me segurar e me acalmar, mas eu tava maluco de raiva. Os dias passaram e meu pai não conversava comigo e nem eu com ele, mas ele não bebeu mais desde então. Se dedicou ao trabalho e aos poucos as coisas foram voltando ao normal, até que um dia voltou a falar comigo e eu com ele, pai né mano, num tem jeito! mas não falava nada sobre a igreja ou aquele dia em que lhe dei um tapa na cara.

Um ano depois, mais ou menos, um amigo de meu pai, o Mauro, me encontrou na rua e perguntou sobre ele, falei que tava de boa, trabalhando e tal, que não voltaria à igreja, mas que ninguém falava mais nada sobre o assunto, nem eu nem minha mãe, e no fim das contas minha mãe vivia mais feliz como as coisas iam. O Mauro disse, me puxando prum canto, que no dia da última pregação saiu mais cedo porque tinha que receber uns parentes em casa e depois disso foi até a igreja pra ver se encontrava meu pai pra pegar a chave do salão, já que era sua mulher que limpava a igreja nas quintas feiras. Ao virar a esquina, e assim ele me contava todo afoito, diz que deu de cara com uma forte luz vindo de dentro da igreja e correu até lá assustado e chegando cada vez mais perto a luz foi desaparecendo e quando ele entrou na igreja a luz sumiu por completo e foi aí que ele viu meu pai desmaiado, perto do altar. Disse que meu pai demorou um bom tempo até despertar, e que ao abrir os olhos pareciam um outro homem, mais velho talvez, mas bastante radiante. Disse que falava em línguas e se tremia todo, como se algo corresse pelo seu corpo. Mas logo ele foi voltando ao normal. Eu vi Deus, foi a única coisa que meu pai disse. Quando alguém da família diz algo, a gente já vai preparado pra desmentir e jogar na cara os vacilos e todas as coisas que a gente já sabe do passado e tal, mas ao ouvir aquele cara eu meio que me balancei: ah… a gente sabia que ao Mauro aumentava uma coisa ou outra, mas repetindo as coisas que meu pai tentou me dizer quando bêbado, aquilo me deu um frio na espinha, fiquei agoniado. Eu sei que você brigou com seu pai, ele me disse, tente conversar com ele, nunca contei nada disso pra ninguém, e tentei conversar com seu pai, tentei convencer ele a voltar, mas ele não me ouve, diga que ele precisa voltar pra igreja, você precisa me ajudar, ele é um homem santo! Lhe foi dado um dom e ele precisa contar isso às pessoas, peça pra que ele volte à igreja. Não falei nada, balancei a cabeça e vazei.

Você não quer que a gente acredite… ah pelo amor, cara! eu disse, forçando um riso irônico. Eu boto fé, disse o outro, já ouvi muitas coisas assim por aí. A chuva abrandou, mas não percebemos. Uma hora você vai trombar com alguma coisa e você não vai conseguir explicar e vai ser Deus tirando uma com sua cara, disse Carlos. Porra nenhuma, eu retruquei enquanto tragava a bebida. E aí, falou com teu pai sobre o que o cara te disse?, perguntou o outro ainda interessado. Não, não tive coragem, fiquei com vergonha por ter batido nele. Mas já pedi perdão a Deus, e Deus me entendeu, com certeza. Um dia, depois desse encontro aí com o Mauro, cheguei bêbado e tentei pedir desculpas pro velho e queria também saber como eram as imagens e o que mais ele tinha visto, mas ele não disse nada, me abraçou, disse que não guardava mágoa, mas já não se lembrava mais. Ele tá pra se aposentar, parece que virou um homem santo mesmo, mas de uma maneira bem estranha, sabe, santo apesar de não orar mais, nem ler mais nada, muito menos tocar no nome de Deus. Eu já acho que ele continua religioso, mas de uma forma mais elevada.

Nós ficamos calados por um tempo e, no fundo eu também queria saber quais eram as imagens que o pai dele havia visto, mas não daria o braço a torcer, ficaria calado. Eu conhecia o velho, era um homem enigmático mesmo, quando fiquei amigo do Carlinhos fazia um tempinho que o pai dele não congregava mais e ele, vez ou outra, aludia ao fato, mas nunca se demorara no assunto como naquele dia. Passava das três da matina e a chuva não dava trégua. Amanhã vamos ver se a gente consegue vender mais que hoje hein, porque tá foda… tentei quebrar o silêncio. Mas nada disseram. Você não leva nada a sério, Carlos disse, por fim, e comecei a rir e eles falaram que um dia eu entenderia, e nem bem disseram isso sugeri que fôssemos embora, a chuva não pararia mesmo e o cansaço batia forte. Eles concordaram e fomos embora com a chuvinha nos acompanhando, enquanto eu ficava zombando de toda e qualquer fé.

Lara

Não daria o braço a torcer. O marido conhecia bem o gênio dela, e por isso mesmo sabia que não adiantaria nada tentar explicar coisa alguma.

– Isso mesmo, saia, saia, me deixe em paz! Saia!

Assim que ele saiu ela permaneceu sentada, repetindo a postura de sempre: recolhia as pernas para cima do sofá como se sentisse frio e olhava para a estante como se ela fosse o ponto de partida para outro lugar. E naqueles instantes seus pensamentos poderiam alcançar lugares ainda mais distantes que o infinito. Mas havia o marido, força motriz de toda desagradável situação.

– Maldito!

Ficou remoendo o acontecido durante um bom tempo.   Na mesma posição.  Ele voltaria meio ébrio. Faria alguma graça. Tomaria banho. Pediria o jantar. Caso não tivesse –  uma vez que isso explicasse a gravidade da briga – ele tomaria um banho e se deitaria, manso.

– Maldito!

Passou a pensar em se vingar. Mas como?  Sempre a mesma coisa, os mesmos pensamentos, a mesma postura.

– Um dia esse otário vai ver só! Mas…

Mas por que não agora? Ela pensou.

– Quer saber?

Desfez a postura de uma vez. Um pequeno rato estava havia um bom tempo parado no meio da sala observando ela e seus pesares. Depois da primeira manifestação de asco dela, um sufocado grito de desespero,  ele passou a mexer o focinho como que tentando decifrar aquela nova postura.

– Ah bicho nojento! Socorro! Sai sai!

Mas nada, o ratinho permaneceu no mesmo lugar. Tentou se abaixar pra pegar o chinelo. Mas sentia repulsa, tanta repulsa que não completava a ação. Ratos e baratas eram as coisas das quais mais sentia nojo. Certa vez tomara coragem e tocara numa cobra de estimação na casa de uma prima, estava meio embriagada e o pessoal da festa havia insistido muito. Mas se fosse uma barata ou rato ela não aceitaria o desafio nem estando muito bêbada ou que estivesse em jogo muita grana.

– Ai ai, sai bicho, sai!

O rato fez menção de ir até o sofá!

– Não não… sai sai!

Ele avançou um pouco mais.

– Sai daqui, SAI DAQUI!

Começou a dar pulos no sofá. O coração acelerado faltava sair pela boca; desesperada, começou a berrar e chorar enquanto sapateava em cima do sofá.  E fez aquilo por um bom tempo. Talvez a comicidade da situação deva ter assustado o ratinho: ele desapareceu como surgiu, sem que ela percebesse.

Ela sentou no sofá e ficou soluçando. Manteve os pés encima do sofá e foi se acalmando aos poucos. Voltou o olhar para estante como se dali conseguisse atingir o infinito.

Algum tempo depois o marido abriria a porta da sala.

– Ainda, do mesmo jeito? Quando vai passar essa raiva? Olha o que eu trouxe pra você… Olhe aqui…

Mas ela ficou do mesmo jeito, pés recolhidos sobre o sofá e o olhar fixo na estante.

– Só você mesmo, Lara, Só você! Vou tomar um banho…

O Deserdado

Um barulho estranho fez-se lá fora. Jânio fingiu não ouvir, mas se sobressaltou. Forçando o estado de espírito anterior ao barulho, se ajeitou no sofá e colocou a xícara de chá na mesinha de centro e ligou a TV.

Ô tio, tem alguém aí? – A voz veio lá de fora, invadiu a sala sutilmente, e depois invadiu por completo: Tem sim que eu vi!

Jânio foi até a janela, era um de seus sobrinhos, o mais velhos talvez. Resmungou algo.

Ei tio, eu tô te vendo, abre aqui!

O que foi que tu aprontou dessa vez? – Gritou da janela.

Poxa tio! Vai me convidar pra entrar não?

O quê que tu aprontou dessa vez?

Foi abrir o portão. Ao passar pelo tio o rapaz sorriu.

Mas o que diabos é isso? Não! Não! Pode parar aí: o que significa isso?

Por favor tio! Eu não tinha pra onde ir. O senhor quer que eu suma, eu sumo! Não se pode contar com ninguém nessa família. Quer saber o que aconteceu? Isso aqui foi uma brincadeira.

Como assim brincadeira?

O pessoal me deixou assim e saíram correndo. Brincadeira de mau gosto.

Aqui você não entra!

Porra tio, que vacilo! Um copo de água, só… – O rapaz passou correndo. Procurou um lugar onde se sentar na aconchegante sala e não conseguiu. – Droga, é impossível se virar com isso. O senhor consegue serrar esse treco aqui tio, não consegue?

Jânio, se sentindo ofendido, fingiu não ouvir. Depois rebateu:

Pode começar a falar a verdade.

Ô tio, já falei

Ah, quer saber, vou embora! – Mas não saiu do lugar. Depois esboçou um riso cínico. O senhor tem razão. Não tinha pra onde correr, e olha que horas são… ainda é cedo, andar por aí desse jeito ia dar merda. Mas eu juro que vou pegar aqueles moleques e vou descontar ess…

Deixe disso. Já falei que essa desculpa não cola. Vou ligar pra sua mãe.

Aff, tio, quer saber? Pense o que quiser, ligue pra quem quiser… Pelo menos pode me arrumar um pouco de água?

Jânio foi até a geladeira, colocou água num copo verde. Depois ajudou o sobrinho a beber. Quando você vai crescer, virar homem? Quando vai desconfiar que tudo isso que você tá fazendo só piora as coisas? Que não leva a lugar nenhum?

O rapaz bocejou, e ao bocejar arreganhou a boca com deboche.

Sabe tio, parou e movimentou as mãos, como se quisesse tirá-las a força das algemas. Eu acho que com o maçarico, se aquecer… Não, aí eu vou me machucar. É melhor serrar mesmo. Havia pensado no maçarico. Mas é burrice. O senhor tem umas máquinas aí que eu sei…

A indiferença do sobrinho reverberou na sua tentativa de dissuadi-lo daquela vida errada e minou sua vontade de continuar a dizer algo construtivo. Quase o expulsou de casa. Não adiantava falar. E uma surra, aproveitando as mãos algemadas? Também não. Tentou encontrar uma solução. Sentiu o pensamento bloqueado.

O melhor a fazer é me mudar mesmo sumir daqui, daqui e deixar essas co…

Ô tio, desenrola. E aí? Balançou as mãos algemadas: O que vamos fazer?

Sentiu uma imensa vontade de mandar o sobrinho embora pra sempre daquela casa e da sua vida. E mandar por ele um recado aos outros daquela família maldita: chega de tudo isso! Levou-o pra oficina que ficava nos fundos da casa e rompeu a algema. O rapaz agradeceu laconicamente e saiu apressado: o repentino e sombrio silêncio do tio lhe pareceu assustador. Jânio entendeu muita coisa com aquele episódio. Demorou algum tempo diante da televisão e do chá, já frio. Ouviu alguns barulhos vindo de fora. Depois um som de carro derrapando. Decidiu que ao invés de se deitar sairia por aí, sem saber pra onde ir, talvez pararia em algum bar, não sabia ao certo. Voltaria lá pela madrugada, ver alguns filmes antigos, meio ébrio, dormir no sofá… Vestiu uma blusa mais quente e saiu pra rua. Antes de chegar ao final da esquina encontrou o corpo do sobrinho ali, sem vida, com um corte no pescoço.

Era o que tu tava procurando, né, seu bosta! cuspiu no cadáver e seguiu seu rumo.

O Velho Do Caixa

Três da tarde. Sinal vermelho. Motocicletas forçando espaços por entre os carros. Alguém solta um palavrão. Outro buzina.  Dali da pastelaria se vê todo tipo de confusão entre motos e carros o tempo inteiro, e é bem ali , na fachada dessa típica pastelaria do centro da cidade que, carregando uma criança nos braços, uma mulher negra encosta. O dono da pastelaria a observa do caixa, repara bem na mulher. Resmunga algo.

Como pode ser tão… folgada. Tipinho de… Não suporto essa gente. Diz tudo entre os dentes, enquanto devolve o troco pra uma mulher distraída.

Passa das três da tarde. O Suco é cinco reais. Com ou sem gelo? Açúcar ou adoçante? A mulher permanece na porta, espera sabe-se lá o quê, parece ansiosa. Não na minha entrada… não mesmo! Ela se senta no chão. Seu Antônio, decidido, sai do caixa. Surge um cliente. Seu Antônio volta. Limpa o suor do rosto. O cliente sorri satisfeito. Seu Antônio não repara, vigia a figura sentada na entrada do seu estabelecimento com uma criança miúda nos braços. Logo vai começar a pedir esmolas. Inferno de dia quente! Preciso encontrar uma forma de acabar com esse tipo de coisa nessa entrada.

Surge um sujeito. Ele aponta pra rua de baixo e parece com raiva. O sujeito grita com a mulher negra. A criança de colo começa a chorar. Seu Antônio chama o rapaz responsável pelos sucos. Enquanto o empurra em direção à porta dá a ordem. O rapaz dos sucos vai lá e explica pros três a situação. O sujeito se altera. A mulher nada fala. A criança berra. Um palavrão sai da boca do sujeito. O rapaz dos sucos faz um gesto com os ombros. Seu Antônio acena e o rapaz volta.

Seu Antônio começa sentir um aperto no peito. Precisa do remédio.

Alguém… – Mal consegue pedir. Cai na cadeira. O rapaz do suco percebe que Seu Antônio não está bem. Observa a gesticulação e percebe que ele aponta pro remédio. Alguém da cozinha traz um copo com água. Ele toma. A tontura continua. O rapaz assume o caixa. Seu Antônio tenta se levantar. Tenta se recompor. Ergue a cabeça e olha pra entrada. Procura demoradamente, mas não sabe bem o quê.

Entra e sai constante na pastelaria. Quase quatro da tarde. Sol forte. Asfalto firme. Sinal verde. Carros fantasmagóricos rasgando as ruas. Seu Antônio parece tão cansado, alguém diz. Esforçou-se pra ver quem dizia aquilo. Permaneceu sentado. Abanou algo perto do pescoço pra espantar o calor, em seguida percebeu que eram panfletos. O rapaz do suco zigue-zagava do caixa até o liquidificador, do liquidificador até o caixa. Reclamaria uma última vez com ele sobre aqueles malditos panfletos.

Nada de propagandas aqui, eu já avisei tantas vezes! – Se pôs de pé num salto, como que recuperado. Surge um menino, desses que pedem esmola no sinaleiro, e resolve descansar na frente da pastelaria. Aqui não é lugar, sai sai sai, seu pivete, sai sai! Explode Seu Antônio ainda no caixa. O menino se faz de surdo. Seu Antônio sai do caixa e atravessa o estabelecimento gritando, descontrolado. Uma vez na entrada ele empurra o menino. Aqui não, aqui não! O menino faz zombaria. Algumas pessoas sobressaltadas acompanham dos seus lugares o velho gritando e o menino fazendo gaiatice. Outras parecem nem ligar, concentradas no seu lanche. Teve gente que riu da situação, como as mulheres na cozinha, que gargalhavam tão alto que era possível que o velho ouvisse lá de fora, mas estava tão empenhado em exigir do moleque respeito que dificilmente perceberia as gargalhadas das funcionárias. O rapaz do suco observa tudo sem saber ao certo o que fazer, pousa o queixo na mão e suspira.

O rádio, indiferente, avisa: Já são cinco em ponto! E uma música do momento toma o ambiente.

Um Assassinato Qualquer

Um boteco é como uma zona livre, um espaço autônomo perdido nas entranhas da cidade: ideias irresponsáveis, casos fantásticos, personalidades em ebulição, e o companheirismo que parece se afirmar autêntico e livre das amarras da competição, e às vezes o oposto também, como uma guerra fugaz e furiosa, uma tempestade assustadora que de repente se desfaz para que tudo volte ao normal, por pouco tempo. É o melhor lugar para se estar e ir desaparecendo aos poucos. Dá pra aprender muito, apesar da teimosia e da resistência que o álcool edifica e sustenta, mas que não é impossível de se vencer, desde que se saiba como e quando ceder.

Foi numa dessas que me perguntaram se eu já havia matado alguma vez na vida. Disse que não. E o sujeito resolveu ser mais específico: queria saber se eu já, com minhas próprias mãos, havia tirado a vida de outro ser. O álcool tira o estranhamento de tudo e faz com que você participe dos jogos que surgem sem ressalva alguma. Perguntei se vermes e baratas serviam. Era uma piada, mas ele não sorriu. Então respondi, cedendo à sua feição endurecida, que não, que nunca havia tirado a vida de nada, a não ser insetos ou bichos peçonhentos que invadiam minha casa nas épocas de chuva. Ontem experimentei algo do tipo, ele me disse e deu um gole na cachaça e depois um longo gole na cerveja, que estavam dispostos na sua frente como os cálices de hóstia e de vinho diante de um padre em plena missa. Eu tive de fazer, não tinha outro jeito! O vira-lata vivia adoentado, eu precisava, tá me entendendo? Precisava de ser feito. Meu moleque saiu pra casa de uns amigos, jogar bola, sei lá, era finalzinho de tarde, aquele crepúsculo melancólico… Foi quando decidi matar o bicho. Peguei um saco, uma sacola, algo pra sufocar, cortar sua respiração; se eu fosse me matar, pensei na hora, enforcamento, recorreria ao enforcamento! Sempre essa coisa do enforcamento né… Tive um amigo que chamava a corda de solução, dá pra acreditar?

Ele fez uma pausa.

Então cara, procurei as luvas do meu trabalho e não achei, na pressa decidi que não precisaria delas. Coloquei o primeiro saco que achei, de um supermercado lá de perto de casa, e coloquei na cabeça do animal, e a logo do mercado ficou bem no focinho do bicho. Ele sabia o que ia acontecer, se debatia, mesmo cansado ele extraiu energia sabe-se lá de onde. Senti pena, mas fui em frente, seria pior deixar o bicho ali, daquele jeito, mais uma noite de sofrimento, meu filho chorando no meu pé, pedindo pra fazer alguma coisa. Com o saco na cabeça passei a mão no pescoço do bicho. Coisa estranha, cara, bem estranha.

Tomou outra dose de cachaça e depois outro longo gole de cerveja. Reiniciou a sua história sem parecer mais bêbado, ou menos lúcido.

Ele se debateu e muito. Então concentrei e apertei ainda mais forte. E fiz assim ô!

Desenhou no espaço vazio com um gesto, como se torcesse uma roupa recém tirada da máquina de lavar e consegui imaginar o bichinho desvanecendo.

Ele foi parando de se debater e eu fiquei assim, sabe, segurando ele, sei lá, por uns cinco minutos ou mais. O corpo do bichinho foi endurecendo, endurecendo até que endureceu de vez. Eu respirei, pronto, resolvido. Foi um alívio estranho. E o bicho ficou ali duro no chão!

Ele parou de falar e ficou pensativo. Aquilo me causou uma forte impressão, a imagem se estabeleceu com força na minha imaginação e me senti cúmplice de tudo aquilo.

E aí? perguntei, mesmo sentindo ultraje na pergunta eu a fiz. Uai, ele respondeu, matei o bicho e joguei fora. Mas o que cê sentiu depois? ele respondeu indiferente: Nada. Matar não é nada disso que falam por aí não. O processo é penoso, precisa de força, mas se tiver um pouco de determinação, já era. Por isso se mata tanto pelo mundo, não tem nada demais. Você pode matar outro ser e ter duas reações, culpa ou indiferença. Eu não senti nada. Você precisa passar por isso pra entender a vibração, só passando, tá me entendendo?… Ele continuou seu ritual diante das bebidas e eu permaneci em silêncio.

Outro cara que tava por perto iniciou sua contestação, mas aí eu já tinha perdido o clima. Algo se instalou no meu espírito. Enquanto o outro falava sobre moral e Deus e a diferença entre matar seres humanos e animais, eu evitei o embate, decidi ir embora. Tava ficando tarde. Na rua a chuva me pegou desprevenido, tive de correr, cheguei em casa já quase curado da embriaguez: tinha esquecido completamente da história do cãozinho.

Mas ela voltaria em sonho, numa das noites seguintes, com todas suas cores preservadas, aliás, com muito mais contrastes.