Ferruge

Lembra do Ferruge, mano? Trombei ele ano passado. Ou foi retrasado, não me lembro direito quando foi. Sei que fazia um sol desgraçado: o calor do asfalto faltava derreter a botina. E ainda subir tudo aquilo com aquela bicicleta arrombada. Porra, vai se fuder! Época difícil do caralho! Aí o Ferruge surge do nada, tava de bike também, uma bike bem mais ajeitada que a minha, mas ele tava com aquela mesma cara de otário… Eu fui o que menos sacaneou o Ferruge lá no trampo e ele ia conversar comigo de vez em quando na hora do almoço, aliás, eu era o único que pegava leve com ele. As brincadeiras da galera era pesada demais, cê tá ligado… Então, como eu tava dando ideia, ele me viu e acelerou o passo, ao se aproximar ele acenou e já foi perguntando:

Eaí, vindo de onde?

Do trampo, eu disse, enquanto fragava a bike dele.

Canseira esse calor, taquepariu.

Tá foda mesmo.

Mora no mesmo lugar ainda? ele perguntou depois de um tempo.

Moro… mas noutra quadra, eu casei, tá ligado?

Não, tava ligado não mano, que bom, hein?

Porra nenhuma. Trabalheira do cão. Minha mina é treta, mano.

Boto fé, casei também, mas a minha é tranquila.

Sorte sua, Ferruge.

Eu não tava com a menor vontade de conversar. Queria chegar logo em casa, tomar um banho, sabe como é. Mas ele ia pela calçada, trombando nos sacos de lixo, mano, desajeitado do mesmo jeito, e eu pela rua, tentando vazar dali, buscando uma forma de me despedir e acelerar pra casa. Daí que eu acelerava o passo, mas quem disse que ele se tocava? Lá pelas tantas ele me chama pra tomar umas:

Bora, eu pago.

Uai, Ferruge, onde?

Onde cê quiser.

Então bora matar essa subida, logo ali tem um lugar massa.

Fechou, disse e esboçou um sorriso.

Aí até que dei uma animada. Porra fazia dias sem tomar uma cervejinha, as contas tudo zuada, faltando coisa lá em casa, a mulher braba, menino precisando de leite, porra, minha vida tava só a desgraceira! Hoje até que tá de boa, meu moleque é só alegria, a mulher continua só a treta, mas olha eu também mano, tá ligado? Mas a vida deu uma aliviada, e a vida é cabulosa né vei, na moral mesmo.

Aí chegamos lá no bar e tal, aí ajeitei as bikes do lado da mesa. E ele começou a descer sem dó. Mano, fiquei alto pra caralho. Até sinuca rolou. Eu tava alegre, daquele jeito, falava tudo da minha vida, e o Ferruge num falava nada pessoal, parece que queria resolver uns assuntos da época da firma lá, falar do passado. Aí entrei na dele:

Mas cê tinha que se impor, Ferruge! Cê vacilava pra caralho.

É difícil pra mim. Até hoje. Mas naquele tempo os cara abusava demais.

Era engraçado, falei sem perceber e o Ferruge me olhou com dureza. Ele foi ficando sombrio. Largou o taco e voltou pra mesa. Eu terminei a partida com outro mano lá, eu tava contente, saca? Vei, nessa a gente foi até perto das 9 da noite. Imagina. Eu me esqueci de casa, dos perrengues, das canseiras, de todas as paradas: caralho, que dia foi aquele, me sentia como antigamente, perdido no mundão. Porra, onda massa. Daí que naquele grau voltei pra mesa e ele ja emendou na mesma:

Eu nem precisava daquele trampo. Mas eu ficava porque tinha que enfrentar aquela situação, mas não sabia como.

Uai Ferruge, cê quer mesmo falar só do passado né?

Só quero conversar.

Só sobre o passado! Relaxa mano. Porra, bora voltar pra sinuca. Já era, passou, tá enterrado! Me diz aí: e sua mina, é massa mesmo?

Casei porra nenhuma mano, tava mentindo, eu minto pro pessoal das antiga. Continuo o mesmo bosta.

Acendeu a luzinha de alerta, mas a noite avançava, e aquela cerva tava tão boa, fazia tanto tempo que não experimentava aquele tipo de rolê, saca, que acabei me deixando levar, e mais se ele queria desabafar então que mandasse bronca, foda-se.

Eu sou um covarde. Eu odeio tudo nessa vida, mas me odeio dez vezes mais, mas nunca tenho coragem pra nada, queria acabar com tudo.

Calma aí, Ferruge.

Meu nome é Carlos, cara! nunca curti essa droga de apelido. Mas aí o outro Carlos, o Carlão, ele que inventou isso. Pegou porque me irritei. Aí já era.

Apelido mano, é apelido, relaxa. Desce mais uma aqui, ei, ô maluco, desce outra aqui!

Cara como eu odiava aquela porra de firma. O dia que abriram minha marmita e derramaram óleo de máquina e ficaram esperando eu comer…

Essa foi engraçada. E quando sumiram seu crachá e cê num conseguia bater o ponto e ficou lá um tempão?

E a máquina, aquilo quase decepou meu braço.

Ah, dessa achei graça não.

E o líder não fazia nada.

Carlão era sangue bom, quê que será que foi feito dele?

Eu tentei matar ele, mano.

Olha as ideia do Ferruge, falei sem pensar e sorri um riso torto.

Fiquei muito tempo planejando, muito mesmo.

Quê que cê fez?

Afrouxei os parafusos das rodas dianteiras… Numa reunião saí pra ir ao banheiro e fui pra garagem, sabia como tirar aquelas calotas, era moleza, tinha deixado a chave mocada, sabia o tamanho dos parafusos e tudo. Calculei o quanto deveria deixar frouxo até que com a velocidade…

Caralho mano! Cê tá falando sério?

É a real! Aquele dia foi cabuloso. Senti um medo desgraçado. Faltei os dois dias seguintes. Me vi preso. Foi tenso, mano. Ficava assistindo TV e ouvindo o rádio esperando a notícia do acidente. Mas aconteceu nada. Bicho sortudo da porra esse Carlão. Nunca falou nada sobre na firma, mas era como que soubesse que eu tinha feito aquilo. Mas ele parou de pegar no meu pé como antes. Os outros que continuaram a me sacanear. Logo pedi conta e sumi, o remorso me matava. Me sentia um monstro, e o fato dele parar de me zuar me deixava ainda mais bolado.

Fazia algum sentido o que o Ferruge dizia. Cê lembra, mano, que as coisas deram mesmo uma mudada antes dele sumir da firma? Mas porra, o Ferruge tinha saído lá da puta que pariu, quase 5 anos depois, pra enfiar cerveja em mim e confessar seu quase crime. Ou crime mesmo… Mas como o Carlão se safou dessa é que não sei. Num era a hora dele né, deve ser isso. E cê lembra que o Carlão tinha um Golf Sapão, turbinado, adorava andar chutado, porra, imagina mano…

Vivi na escuridão mano, continuou o Ferruge com a voz embargada, foi um tempo difícil. Caí numa deprê fudida. Ninguém imagina o inferno que foi.

E eu só ouvia. Parecia que de repente eu entendia as coisas de outra forma. Tava ficando muito bêbado e a lucidez era outra, mas ainda era lucidez.

Faz pouco tempo voltei a sair de casa, viver sozinho. Mas minha mãe me arrumou médico tratamento remédio…

Porra Ferruge, tenho que vazar, mano, tá ficando tarde. 

Tô ligado, valeu por me ouvir aí mano. Quer levar umas latinhas pra tomar em casa?

Tá maluco, já vou levar maior esculacho, mano.

Leva bebendo então, ué, já que tá fudido mesmo…

Faz sentido, uai mano, se pá desce aí então.

Mano, nessa fui até o outro dia com ele. Dali por diante lembro de mais nada. Vem umas paradas assim tipo umas lembranças do que falei. Parece que comecei a mandar altas ideias sobre tudo que ele tinha falado. Devo ter falado coisa pra caralho. Parece que ele chorou, não sei. Parece que até eu chorei. Porra esqueci a bike no boteco, nem sei como cheguei em casa, acordei na rede, perdi o dia de trampo, vei, que fita que me meti, maluco do céu! Mas mano, que dia sinistro, na moral. Que rolê foi aquele! Nunca mais trombei o Ferruge, mas queria, saca? Queria mesmo. E nem sei bem o por quê. Tem hora que penso: sai fora desse cara, potencial suicida e assassino: mano olha os tipo de doido que a vida fabrica, porra. Mas sei lá, acho que falei alguma coisa de importante, tem hora que rola umas lembranças cabulosas mesmo, mas não acesso direito que que rolou, até sonho com isso às vezes, mas é tudo muito confuso. Queria trombar ele pra saber o que virou depois disso, como ele tá. Na moral, parece que o que eu disse serviria pra mim também, tá ligado? Nessa de chapar cê acessa altas ideia que cê nem sabia que elas tavam ali, tá ligado? Fico tentando lembrar, vem só a sensação do momento, sentado na calçada, falando pra caralho sobre algo muito importante… Ah cê tem que vazar mano? De voa, porra de papo estranho que eu arrumei também, né? É a bebida mano, ela sempre me deixa assim… Mas aí, tá na hora de parar, vou pra casa também, logo a mulher me liga braba…, Mas aí, bom te reencontrar vei, cola lá em casa qualquer dia desses.

Um Homem Santo

Depois de um dia inteiro gravando CDs pirata num quarto pequeno e sem ventilação saíamos na tentativa de vender uma boa parte daquele material. Mas sempre que conseguíamos uma certa quantia encerrávamos o expediente, comprávamos um vinho ou outra bebida mais pesada para ser misturada com outra bebida e então ligávamos pro Carlos, que não demorava muito aparecia lá pelas imediações do Estadinho, onde preparávamos as bebidas e assim iniciávamos um processo que se estendia madrugada adentro. Andávamos sem rumo, os três, conversando geralmente sobre o passado, enquanto bebíamos ou o vinho barato ou o misturado de bebidas da qual, muitas vezes, nem sabíamos a procedência, mas sempre como se fosse a melhor bebida do mundo. Naquele tempo não havia muita perspectiva, as coisas iam mal: não falávamos sobre o futuro e muito menos sobre a falta de perspectiva presente, buscávamos nos distanciar dos problemas. Falávamos sobre o passado, apenas sobre ele, e quando era pra gerar polêmica recorríamos sempre aos assuntos místicos. Carlos era filho de um ex-pastor, mas a fé de Carlos era inabalável, e quando bêbado ela se tornava ainda mais firme. Ele dizia que um dia largaria a vida louca e se dedicaria a algo mais sério dentro da antiga congregação de seu pai. Eu era o mais cético, e gostava de provocar os outros dois, que frequentemente se irritavam com a minha falta de fé.

Certo dia a chuva nos pegou logo no início da bebedeira e na correria encontramos refúgio num bar onde alguns caras jogavam sinuca, decidimos ficar ali esperando a chuva passar. Alguns conhecidos chegaram. O dono do bar percebendo que éramos amigos da malandragem da área deixou que bebêssemos o que estava escondido na minha mochila, sem precisar ter de mentir, indo ao banheiro toda hora fingir que precisávamos mijar. Os caras que chegaram contaram como, mais cedo, haviam escapado da polícia graças ao dono daquele bar. Eram tipo uns pilotos de fuga, e dos melhores: os serviços daqueles caras eram requisitados em quase todas as quebradas da cidade. A bebida deixava tudo ainda mais impressionante: as narrativas de fuga, a chuva que caía torrencialmente, a cor amarelada do ambiente, o gosto acre da bebida, o som das bolas de bilhar que estalavam enquanto os jogadores berravam… E assim passamos um bom tempo ali até que a chuva abrandou e saímos a caminhar: nos despedimos dos malucos e do dono do bar e dos caras que jogavam bilhar e pegamos a rua. Nem nos distanciamos muito a chuvinha apertou de novo. Tivemos de dar um tempo debaixo de um toldo velho de um mercado abandonado.

A água torrencial que cobria o asfalto faltava pouco nos encharcar sempre que um carro passava apressado. A gente estava um tanto ensopado, mas o álcool roubava a sensação de frio e deixava outra coisa no lugar, como, por exemplo, um certo estado de espírito melancólico, que buscávamos espantar evitando o silêncio. Bem ali que começamos a contar certos acontecimentos passados, e sempre buscando as coisas mais estranhas na memória. Eu sempre inventava muita coisa, a partir de fatos verdadeiros, mas aumentando e muito, e creio que eles faziam a mesma coisa. Carlos falou algo sobre seu pai e percebendo a brecha resolvi perguntar por que ele tinha largado esses lances de igreja. Carlos, que não gostava de falar sobre o assunto, disse que ele teve uma visão e não suportou a verdade.

Que verdade? o outro perguntou. A verdade, uai – Carlos respondeu irritado – a Verdade que vem de Deus mesmo. Deus mostrou pra ele como as treta acontece na igreja e meu pai não aguentou a pressão. Eu tinha chegado da escola mais cedo e tava esquentando o rango quando ele entrou em casa como se tivesse visto um fantasma. Sentou no sofá e ficou ali, sem falar nada, a noite inteira. Minha mãe achou que era uma das paradas que rolam com ele, saca, dessas que meu pai sempre tinha, sabe, que rolam sempre depois do culto, tipo experiência mística. Mas não. No dia seguinte minha mãe acordou e preparou o café aparentemente tranquila. Eu acordei atrasado e dei com meu pai na sala e perguntei se tava tudo bem. Sim sim, ele disse, mas dava pra ver que não tava nada bem não. E foi assim até a noite. Na hora do jantar ele disse que tava largando a congregação de vez. Minha mãe, imaginando ser apenas uma fase, falou nada, mas eu fiquei meio assim, achei que logo logo ele ia voltar a beber como antes de se converter. Os dias passaram e ele parecia atormentado por mil demônios e não falava muito e parecia sofrer pra caralho com aquilo e até dava pra sacar que ele tentava falar, mas não conseguia de jeito nenhum. Um dia aconteceu: ele bebeu, tomou todas, chegou bastante chapado em casa. Disse pra mãe que precisava conversar comigo e me esperou no mesmo sofá onde ele tinha ficado a primeira noite em claro, e quando cheguei em casa ele me colocou sentado na sua frente. A mãe tava na cozinha, chorando. Eu fiquei maluco com aquilo e tava me segurando de raiva, mas queria saber o que ele ia dizer. Aí ele falou sobre a visão que teve. Falou que Deus apareceu pra ele depois do culto e revelou seu processo sagrado de atuação. Filho, meu pai disse com a voz cheia de cachaça, a vaidade nos cega, foi o que Deus me mostrou! Ele tentou se levantar apoiando no meu ombro e falou algo sobre uma série de imagens enigmáticas, e que foi nas séries de imagens que ele entendeu como as coisas se davam. Eu, meu filho, não valho nada e Deus usa os cafajestes no seu plano! E só os que não possuem valor algum que são os escolhidos! Quantas vezes eu não percebia que inventava minhas pregações e me envaidecia da minha capacidade de inventar justificativas pros textos bíblicos e como minha vaidade se inflava ao ver as pessoas com seus olhos brilhantes devorando minhas palavras e como eu me sentia importante por tudo aquilo. Naquele dia entendi a armadilha em tudo. Eu não suportei quando as imagens encadearam… Mas que porra de desculpa é essa pai, eu gritei. Que desculpa mais estúpida! E fui pra cima dele e dei um tapa no seu rosto, ele desmontou no chão! Seu cachaceiro de merda! eu gritei… Minha mãe correu e tentou me segurar e me acalmar, mas eu tava maluco de raiva. Os dias passaram e meu pai não conversava comigo e nem eu com ele, mas ele não bebeu mais desde então. Se dedicou ao trabalho e aos poucos as coisas foram voltando ao normal, até que um dia voltou a falar comigo e eu com ele, pai né mano, num tem jeito! mas não falava nada sobre a igreja ou aquele dia em que lhe dei um tapa na cara.

Um ano depois, mais ou menos, um amigo de meu pai, o Mauro, me encontrou na rua e perguntou sobre ele, falei que tava de boa, trabalhando e tal, que não voltaria à igreja, mas que ninguém falava mais nada sobre o assunto, nem eu nem minha mãe, e no fim das contas minha mãe vivia mais feliz como as coisas iam. O Mauro disse, me puxando prum canto, que no dia da última pregação saiu mais cedo porque tinha que receber uns parentes em casa e depois disso foi até a igreja pra ver se encontrava meu pai pra pegar a chave do salão, já que era sua mulher que limpava a igreja nas quintas feiras. Ao virar a esquina, e assim ele me contava todo afoito, diz que deu de cara com uma forte luz vindo de dentro da igreja e correu até lá assustado e chegando cada vez mais perto a luz foi desaparecendo e quando ele entrou na igreja a luz sumiu por completo e foi aí que ele viu meu pai desmaiado, perto do altar. Disse que meu pai demorou um bom tempo até despertar, e que ao abrir os olhos pareciam um outro homem, mais velho talvez, mas bastante radiante. Disse que falava em línguas e se tremia todo, como se algo corresse pelo seu corpo. Mas logo ele foi voltando ao normal. Eu vi Deus, foi a única coisa que meu pai disse. Quando alguém da família diz algo, a gente já vai preparado pra desmentir e jogar na cara os vacilos e todas as coisas que a gente já sabe do passado e tal, mas ao ouvir aquele cara eu meio que me balancei: ah… a gente sabia que ao Mauro aumentava uma coisa ou outra, mas repetindo as coisas que meu pai tentou me dizer quando bêbado, aquilo me deu um frio na espinha, fiquei agoniado. Eu sei que você brigou com seu pai, ele me disse, tente conversar com ele, nunca contei nada disso pra ninguém, e tentei conversar com seu pai, tentei convencer ele a voltar, mas ele não me ouve, diga que ele precisa voltar pra igreja, você precisa me ajudar, ele é um homem santo! Lhe foi dado um dom e ele precisa contar isso às pessoas, peça pra que ele volte à igreja. Não falei nada, balancei a cabeça e vazei.

Você não quer que a gente acredite… ah pelo amor, cara! eu disse, forçando um riso irônico. Eu boto fé, disse o outro, já ouvi muitas coisas assim por aí. A chuva abrandou, mas não percebemos. Uma hora você vai trombar com alguma coisa e você não vai conseguir explicar e vai ser Deus tirando uma com sua cara, disse Carlos. Porra nenhuma, eu retruquei enquanto tragava a bebida. E aí, falou com teu pai sobre o que o cara te disse?, perguntou o outro ainda interessado. Não, não tive coragem, fiquei com vergonha por ter batido nele. Mas já pedi perdão a Deus, e Deus me entendeu, com certeza. Um dia, depois desse encontro aí com o Mauro, cheguei bêbado e tentei pedir desculpas pro velho e queria também saber como eram as imagens e o que mais ele tinha visto, mas ele não disse nada, me abraçou, disse que não guardava mágoa, mas já não se lembrava mais. Ele tá pra se aposentar, parece que virou um homem santo mesmo, mas de uma maneira bem estranha, sabe, santo apesar de não orar mais, nem ler mais nada, muito menos tocar no nome de Deus. Eu já acho que ele continua religioso, mas de uma forma mais elevada.

Nós ficamos calados por um tempo e, no fundo eu também queria saber quais eram as imagens que o pai dele havia visto, mas não daria o braço a torcer, ficaria calado. Eu conhecia o velho, era um homem enigmático mesmo, quando fiquei amigo do Carlinhos fazia um tempinho que o pai dele não congregava mais e ele, vez ou outra, aludia ao fato, mas nunca se demorara no assunto como naquele dia. Passava das três da matina e a chuva não dava trégua. Amanhã vamos ver se a gente consegue vender mais que hoje hein, porque tá foda… tentei quebrar o silêncio. Mas nada disseram. Você não leva nada a sério, Carlos disse, por fim, e comecei a rir e eles falaram que um dia eu entenderia, e nem bem disseram isso sugeri que fôssemos embora, a chuva não pararia mesmo e o cansaço batia forte. Eles concordaram e fomos embora com a chuvinha nos acompanhando, enquanto eu ficava zombando de toda e qualquer fé.