Depois da Batalha

Os gritos do pátio foram se deslocando às pressas pra rua. Porrada! Porrada! Era uma platéia composta por meninos e meninas de diversas turmas. Era um acontecimento de rotina que nunca perdia seu encanto. Passava do meio dia. Os professores saiam pelo outro lado, tomando o quarteirão de lá, que dava pra avenida principal. Eles saiam pelo portão grande, longe do estacionamento e das ruas mais movimentadas. Ali haviam árvores predispostas a serem arquibancadas, casas desabitadas que não os incomodavam e ainda contribuíam ao delimitar o espaço dos lutadores mais covardes: e toda aquela configuração inflamava os espíritos, da platéia aos gladiadores, eles sabiam que viviam uma tradição: as lendas diziam que ali, nas suas respectivas eras, seus pais também digladiaram, e os pais de seus pais, assim até o início dos tempos…

O Gordinho não queria lutar. Havia caído numa emboscada. Seu adversário queria de volta sua honra, uma vez que a mesma fora maculada no instante em que foi denunciado à professora. O Gordinho questionava sobre quando ele o havia denunciado, uma vez que passara as aulas tentando terminar o trabalho de geografia. O adversário, saboreando o medo de sua presa, rodeava-o como se fosse um galo de briga. Cala a boca e venha aqui preu te mostrar quê que acontece com dedo duro. A plateia gritava em êxtase. Era um moleque magrelo, carismático e ligeiro. Deu duas voltas no Gordinho e chutou a sua bunda. Mais gritos e efusivas risadas. O outro estava com medo e a euforia da plateia não ajudava muito. Era maior que seu adversário mas não conseguia se mover. O magrelo sorria e erguia os braços como fazem os campeões nos filmes de boxe. As meninas pareciam as que mais se divertiam e isso afetava de forma diametralmente oposta aqueles dois lutadores. Os outros meninos incentivavam o Gordinho forçando-o a se defender e meio que para que a luta não terminasse de forma tão rápida: como se defendessem o bom combate. Que Combate o quê! O Gordinho, no meio daquele algazarra, estático e ao mesmo tempo trêmulo, nada conseguia fazer. Me deixa passar, balbuciava pateticamente. O adversário chutava a sua bunda. As meninas riam. Os meninos lamentavam. Deixa eu passar! Seu algoz se inflou no arrojo que os gritos e risos fomentavam e, de repente, deu um tapa na cara do Gordinho. Na televisão, na internet, nas músicas e filmes, o Gordinho havia visto personagens que num impulso de valentia se auto defendiam e ainda davam uns bons sopapos nos adversários-opressores metidos à besta, como se, de repente, descobrissem uma força interna descomunal que se expande e infla os músculos, tornando o invencível que sempre foi. Mas aquele pensamento durou apenas uma fração de segundo, apontando uma saída nobre, uma situação nova pra ele, algo que quase o elevou, o fez encarar aquele combate , mas que durou apenas aquele frágil e fugaz segundo. E simultâneo ao evaporar dessas ideias recebeu um soco no estômago e caiu sem ar no chão. Era prática, claro! Aquele moleque magrelo brigava toda semana e ganhava todas. No início, ainda na quinta série, ele apanhava e muito dos caras da oitava, o que era uma covardia e que lhe serviu pra alguma coisa. Agora não: eram garotos da sétima série contra garotos da sétima série. Sem covardias. E ainda por cima com um de estatura menor contra um adversário maior e esse adversário maior estava caído no chão. O pessoal seguiu o vencedor.

Passava do meio dia e meio. O gordo se levantou gemendo, pegou os cadernos do chão, limpou-os e decidiu pelo que achava certo: foi até uma delegacia próxima relatar o que havia lhe acontecido. A delegacia mais próxima ficava no centro, uns dez ou quinze minutos de caminhada. O menino humilhado foi, debaixo daquele sol impiedoso, decidido a por um fim naquelas crueldades que frequentemente aconteciam na sua e em outras escolas. Ele cria naquilo como se fosse a crença numa revolução. A outra versão mais provável era a da vingança, onde, no seu subconsciente, um ódio incomum sorria da imagem do adversário magrelo trancafiado numa cela suja, com outros marginais tão desqualificados de humanidade quanto ele. E ia assim, soterrado nesse misto de sentimentos angustiantes e conflitantes. Chegou na delegacia perto da uma. Narrou a um policial o que havia acontecido com lágrimas nos olhos, quase soluçando. O policial, talvez pra se livrar do tédio que vem depois de um almoço farto e que é tédio por não poder adormecer no sofá que fica nos fundos da delegacia, permitiu a entrada do menino na sala do delegado. Entrou com na sala forjando um ar sério que o delegado, que estava de mal humor, rebateu com um olhar de fúria. Uma hora te pego, Correia, E outro replicou o olhar ao delegado mal humorado e saiu. O menino narrou o acontecido novamente, agora com mais firmeza e ainda mostrou o uniforme sujo, os cadernos amassados e a mancha vermelha na imensa pança branca. O delegado fazia apenas uns grunhidos. Anotou alguma coisa no papel e disse ao garoto que no dia seguinte resolveria aquele problema, que não se preocupasse com aquilo. Mas o menino queria algo imediato e o delegado, sem paciência alguma, pediu pro policial Correia retirar o menino da sua sala.

Ele não vai fazer nada, não é? Creio que não, garoto! Tem coisa mais importante acontecendo no mundo, filho, não vai dar pra perder tempo com isso, desculpa aí. O menino tentou protestar com uma sofrida conjunção adversativa. Ao que o policial retrucou: Não adianta garoto, essa é a verdade. Escute, vá pra casa tome um banho, conte pros teus pais e tudo vai se resolver. No meu tempo a gente era obrigado a saber se defender na escola, hoje em dia, deus me livre se lhe der um conselho desses. Mas o que eu posso fazer é isso: pedir que fale com seus pais e espere por eles: vai dar tudo certo.

O menino tomou o caminho de volta perto das duas da tarde. Cansado, faminto e ainda mais humilhado. Na cabeça arquitetava vinganças que não teria coragem de executar. Suava bicas. Sonhava o tempo todo. Sentia vergonha de ter de voltar pra’quela escola e sentia, ainda mais, ódio daquele moleque metido. Ao chegar em casa as panelas em cima da mesa fez com que esquecesse tudo aquilo. Tomou uma panela nas mãos, misturou tudo que tinha nas outras panelas naquela que mantinha entre os braços e foi pro sofá, onde, enquanto assistia televisão, devorava colherada atrás de colherada. Ao fim da refeição adormeceu ali mesmo. Acordou perto das cinco da tarde, abriu a geladeira em busca de alguma coisa a pra beliscar. Nesse instante uma chuva torrencial caía lá fora. Ele encontra uma vasilha de doce, toma posse da mesma e volta pro sofá. Come metade do doce e fica passando de canal em canal, até que cai a noite e um de seus pais entra em casa e o faz, de imediato, brigando pela sujeira que o menino deixou pela sala. Ele balbucia alguma coisa mas permanece do mesmo jeito diante da televisão. Até que se vê obrigado a se levantar, tomar banho e ter de utilizar o computador do pai pra uma pesquisa. Tenta ligar o computador e nada. Pai, quê que tá acontecendo com o computador? O pai responde do banheiro que avisou que havia levado o disco rígido do computador pra consertar. Então ele volta pro sofá e voltou ao ritual de antes, passando de canal em canal até que chegasse a hora do jantar.

Tubarões de Água Doce

Maurílio, também conhecido como Magrão, abriu a janela do quarto sem nenhuma pressa. Anda logo, cara. Era André, o pedreiro. Magrão esfregou os olhos, passou depois a mão na cabeça e só então perguntou o que ele queria.  Tem um trabalho ali, tô precisando de ajuda, cê tá afim? Magrão precisava de grana, mas sabia que aquele cara ali era problema. Setenta conto o dia, grana fácil! É, é boa grana, pensou Magrão. Cê não vai ficar me esculachando igual da última vez, né? André sorriu, constrangido. Qual é?, esquece aquilo, o trampo é suave, a parte pesada já fiz tudo sozinho, é só acertar uns detalhes… anda, me diz aí, vai ou não? André estava construindo um deque que avançava por sobre um lago artificial na chácara de um tal doutor. Uma vez na chácara Magrão ficou impressionado com o lugar: árvores imensas, pedras brancas assentadas pelos caminhos, bancos estranhos espalhados por todos os lugares, assim como redes coloridas nos galhos das árvores mais baixas, cachorros peludos correndo por todo lugar, um casarão entre dois bosques, sons de pássaros cantando o tempo inteiro, pequenos jardins espalhados pelo lugar, cada um com uma cor predominante… Num desses jardins um senhor podava algumas plantas. André passou direto, nem bom dia disse. Magrão o seguiu, sem olhar pros lados, pensou ser aquele senhor um empregado qualquer. Velho maldito, disse André assim que chegou no deque, no mesmo instante Magrão percebeu a encrenca que havia se metido.  Porra André, tu vai me meter noutra furada, cara! Relaxa moleque: olha que belezura, hein? Sou ou não sou foda? Fiz essa porra praticamente sozinho, com esse velho caduco me enchendo o saco. Pisa ali, se quiser pode pular, nem o chão é mais firme que isso aqui, e sabe por quê? Porque foi eu quem fez, caralho! E gargalhava. Magrão inquietou-se, não sabia ao certo o que fazer, sentia vontade de ir embora, de largar tudo, voltar pra casa, fazer uns currículos, procurar trabalho numa indústria qualquer, ou trabalhar de badeco numa oficina automotiva… Passaram-se vinte minutos e ele na mesma posição, sem saber o que fazer. André soltava grunhidos por conta dos pregos que segurava com a boca, mas não exigia nada do rapaz. Magrão não sabia se perguntava o que tinha de fazer ou se dava as costas e sumia dali. Fazia frio, o brisa matutina parecia aumentar a intensidade do frio mesmo com o avanço das horas do dia e as árvores antes tranquilas se inquietavam, os pássaros cantavam cada vez mais alto, e não fosse pela luz dura do sol vazando pelas copas das árvores tremulantes a sensação de que uma tempestade se aproximava ganharia cada vez mais força. O tempo passava e Magrão permanecia na mesma. Fora uma ou outra ferramenta, André não exigia muito dele, e isso o deixava cada vez mais confuso. Teve uma hora que sentiu vontade de perguntar qual era a sua função ali, mas sentia medo da resposta, e depois lembrou da distância, não sabia qual era o caminho de volta. Situação bizarra, mas ele saiu de casa sabendo no que ia dar aquilo: da última vez testemunhou um bate boca pesado entre André e o dono da obra, quase saíram no braço. Mas André era o melhor pedreiro da região, sabia fazer de tudo e com uma habilidade tão incrível que as pessoas o contratavam sabendo que, apesar de suas grosserias, todos os contratempos valeriam a pena. André sabia de suas qualidades e foi se tornando cada vez mais truculento, mais arrogante e até desleal nalguns pontos.  O café tá pronto André, gritou o senhor que estava no jardim, dando alguns passos de um dos jardins em direção ao deque. Não, agora não, ah olha só: tá aqui meu ajudante, tá bom pro senhor? gritou.  Não, André, eu não disse que você tinha de trazer um, falei que seria bom você ter alguém pra te ajudar, você poderia cair daí, por exemplo… André fez um grunhido e gesticulou algo no ar e aquilo fez com que o doutor parasse de falar. Vá lá Magrão, agorinha eu vou, assim que dar um jeito na porra dessa madeira, parece que ela tá envergando… O doutor fez um gesto para o rapaz que ficou desnorteado, olhou para o pedreiro e depois para o doutor, o vento sacolejava as árvores e a fome doía no estômago: seguiu o doutor. Ele é sempre assim, né? Magrão balançava a cabeça de maneira irresoluta, sem saber como se posicionar diante do assunto. Contratei por ser bom de serviço, o pessoal fala muito bem dele, me avisaram sobre seu temperamento peculiar, mas fazer o quê, né? Chegando na varanda do casarão, Magrão sentou-se num banco feito de tronco de árvore velha, mas estilizado, bastante bonito, aliás, todos os móveis pareciam feitos de outras coisas, reaproveitados, de um marrom meio escuro.   Veja, aqui tá o café e o leite, e ali, olhe, tem alguns bolos que eu mesmo fiz, e aqueles biscoitos ali, aqueles amarelados, minha filha trouxe ontem, são deliciosos, ela é boa cozinheira, mas não se acanhe, vá, coma. Magrão colocou o café com leite numa xícara e pegou um dos biscoitos; eram realmente deliciosos e ficaria apenas neles não fosse a suspeita de que o doutor o observava, então decidiu por pegar um dos pedaços de bolo. Estava tão gostoso quanto o biscoito, mas havia um quê de canela, algo sutil, mas que deixava o sabor do bolo mais interessante que o do biscoito. Sentiu o sabor de canela? disse André surgido do nada. Melhor bolo que comi na minha vida, você sabe desse negócio de bolo, hein doutor? André parecia outra pessoa, mas ainda sim um tanto desequilibrada: ele colocou café no copo, cortou três pedaços de bolo e enrolou num guardanapo e ia saindo avexado. Antes, se virou e disse: Bora moleque, pare de me enrolar. Ué? respondeu Magrão olhando para o doutor que sorriu e fez um gesto confuso. O deque estava praticamente pronto, André preparava os acabamentos, mas havia algo que o incomodava, mas ele não dizia nada sobre, apenas soltava sons entrecortados, como resmungos ou talvez se valesse de outra língua pra expressar o que lhe perturbava. Magrão lhe entregava uma ou outra ferramenta, mas gastava a maior parte do tempo observando o lago, os jardins, as árvores, os caminhos de pedras brancas: sentia vontade de ir por determinados rumos pra ver onde dava tudo aquilo. Foi se tornando sereno com o abrandar dos ânimos do pedreiro. André se fechava cada vez mais nos seus afazeres, ensimesmado, às vezes parecia que nem se lembrava do ajudante. Magrão percebeu o doutor vindo do casarão, aquela frágil sensação de serenidade se foi.  Tô precisando de uma ajuda ali, você pode me emprestar seu ajudante. Vá, vá… respondeu André sem se virar. O que você faz da vida?  Nada, só estudo. Tô terminando o ensino médio. Vai fazer o quê, qual faculdade? Não sei ainda. O doutor perguntava com a cabeça dentro de um sótão que ficava no andar de cima do casarão. Eles entraram pelo corredor depois da cozinha e subiram por uma escada no final desse corredor e lá em cima havia outro corredor e diversos quartos, quase como num hotel: era enorme o casarão. No final desse corredor se encontrava a entrada pro sótão. Aqui, pegue isso aqui, cuidado, coloque aí no chão, aliás, coloque ali, com cuidado, por favor.  Eram embalagens escritas com umas letras e uns desenhos estranhos. O doutor desceu com um saco menor, pegou uma das embalagens no chão e o rapaz a outra. Foram pelo caminho que levava até o deque e depois seguiram uma das trilhas de pedra, aparentemente a mais longa.

Tudo bem aí, seu André? Tá tá, respondeu, ríspido.  Ele é muito engraçado, sorriu o doutor. Venho lhe perguntando por que não arruma alguém pra lhe ajudar, mas ele sempre respondia de forma grosseira, mas acho que ele se cansou das minhas perguntas… mas tudo bem, as pessoas são assim, né? Magrão não sabia o que responder, apenas o seguia. No percurso descobriu como era ainda mais belo tudo aquilo que tinha para depois do que se via do deque: árvores ainda maiores, casebres abertos, jardins, um imenso canil vazio, e uma serra de um verde-escuro se desenhava lá no horizonte. O lago terminava por ali, e havia uma lancha encalhada na margem. O doutor falava de outra coisa, mas a percepção do rapaz queria dar conta de tudo aquilo que ia surgindo. Aqui, eis meus aquários. Não é bonito?  Magrão ficou ainda mais impressionado! Era uma casa grande, não tanto quanto o casarão, e sem paredes, quer dizer, um único cômodo, e eram vários os peixes, de todas as cores e tamanhos, nos diversos aquários.  Bonito, não é? repetiu. Compro a maioria da Ásia, sou fascinado por essas espécies, mas esta aqui é minha favorita, meu xodó, tubarão da Malásia, são tubarões-de-água-doce, veja, que beleza: estes dois são chamados de Pangasius Myanmar, mas no lago há outras espécies como o Arius Arenarius e também… Como assim? Tem tubarão no lago? perguntou o rapaz assustado. Sim, faz algum tempo soltei alguns aí pra ver se se criam, se crescem, pra ver o que acontece. Mas olhe aqui: alguns não passam de 50 centímetros: são pequenos, não há pelo que se preocupar, olhe esse outro aqui, por exemplo… O doutor discorria sobre as espécies, alimentações, sobre a cultura do aquarismo, as águas da Ásia, mas o rapaz só pensava no lago infestado de tubarões. E aí cara? vai passar o dia aí conversando? berrou André à meia distância dos aquários. Deixa eu ir, disse o rapaz como que voltando à realidade. Esse doutor é maluco, viu, é cada coisa que ele inventa, vai na conversa dele pra você ver. Magrão permanecia em silêncio. Esses ricos desse tipo aí, por falta do que fazer ficam inventando coisa, mas não é pro nosso bico não, fica viajando nessas coisas aí não, pisa no chão que daqui a gente não cai, viu!  Magrão permaneceu um bom tempo calado, encostado no parapeito, observando o lago. Tubarões-de-água-doce. O lago era extenso, de água escura, de um verde-escuro. A vista do deque deixava tudo mais bonito. Sentiu vontade de ir até à margem, mas teria de esperar até que André se acalmasse. O doutor não apareceu mais e pelo resto do dia Magrão ficou ali, olhando o outro trabalhar e pensando tanta coisa que nem sabia ao certo donde vinha tanta pergunta a lhe perturbar o juízo. Ao fim do dia o doutor apareceu.  Aí ó, amanhã, graças a Deus, e antes do meio-dia, termino tudo. Certo certo, sem problemas, André… ah, vem cá, rapaz. Qual seu nome? Maurílio, mas o pessoal me chama de Magrão. André fez cara feia, Magrão se enrubesceu. Preciso de ajuda aqui, Maurílio, queria alguém interessado em aprender sobre peixes, plantas, alguém pra me ajudar, tu se interessaria? Magrão, sem saber o que dizer, esboçou um riso opaco e disse algo confuso. Ok, caso se interesse venha aqui amanhã e a gente troca uma ideia melhor, ok? No carro voltaram em silêncio. Magrão se sentia incomodado, mas algo dentro dele vibrava, era uma alegria misturada com medo, com receio, e até angústia. André olhava de forma dura pra estrada, parecia irritado. Mas ele era sempre assim, então não dava pra saber se estava irritado com a proposta do doutor ou sabe-se lá com que. Na porta de casa André tirou uma nota de cem e deu pro rapaz, que quase foi enxotado do carro. Ele olhou e viu que era mais que o combinado. Pode ficar, tem nada não. Ah, você passa aqui amanhã, disse, encabulado. Ê moleque!… Vê se acorda cedo que não vou lhe chamar não, já esteja de pé e na porta quando eu chegar. Magrão não foi pra aula, ao invés disso foi até a casa de um primo que tinha computador e internet,  pretendia pesquisar sobre peixes. Mas o primo havia saído, então ele esperou um pouco ali, conversou um bocado com sua tia; então, percebendo que o primo demoraria ainda mais, decidiu andar por aí, estava ansioso pela chance de emprego, e não apenas isso, de um aparente bom emprego: um interessante emprego: e que emprego. Nunca antes nada havia surgido de maneira a lhe causar tamanha impressão, mas não tinha com quem conversar, era preciso segurar a onda e por isso decidiu andar por aí até o sono bater: era o que restava. Seu primo chegou tarde e lhe ligou, mas o cansaço bateu e Magrão resolveu ir dormir. À noite sonhou com filas e mais filas de pessoas. Ele tentava escapar de uma fila e caia noutra fila, e as filas, às vezes, eram compostas ora por gigantes ora por anões, e parecia noite e as pessoas não tinham rostos. De tanto buscar escapar das filas e procurar por uma porta qualquer pra escapar dali acordou cansado e bem antes da hora. Sua mãe, que sempre madrugava para o trabalho, estranhou vê-lo de pé tão cedo. Tomaram café e conversaram amenidades. Ela parecia contente, ele parecia perdido. Se despediram. Magrão se preparou e foi para a porta da rua. Faltavam vinte minutos pras sete. Dali até sete e ponto André passaria, era pontual, quer dizer, chato até com essa coisa de horário. As ruas do bairro estavam desertas, uma ou outra pessoa cortava o vento frio com passos firmes, tudo estava tão quieto como em todas as manhãs. Surgia qualquer barulho de carro ele pensava ser André, mas não… nada. Passava das sete e meia e nada. Lembrou do rosto dele dirigindo no dia anterior. Tentou lembrar o caminho, nada. Havia voltado tão atordoado que esquecera de observar o trajeto. Nem o nome do doutor ele se lembrava direito. Ah não, André… suspirou. Alguns dias se passaram e Magrão havia desistido de procurar pelo doutor, não sabia onde o médico trabalhava, aliás, nem se era médico ou juiz. Havia imprimido vários currículos e tão desanimado andava que fazia dias que nem pra aula ia. Certo dia, quando as coisas estavam voltando ao normal, André aparece, buzinando igual louco. Ô moleque: se arruma aí, bora. Bora pra onde, cara? respondeu da janela do quarto, um tanto irritado.  A porra do velho só me paga se eu te levar até lá, mas o que diabos cê falou pro velho, hein moleque? Anda se arruma vam`bora que tô atrasado. Magrão desapareceu da janela. Velho filho da puta, André suspirou e desligou o motor do carro.

O Reflexo

A menina era problema. Ninguém mais sabia o que fazer. Quinze anos apenas. Na época estava suspensa das aulas, envolvida com umas pessoas suspeitas. Diziam que andava fumando maconha às escondidas, dentre outros entorpecentes mais pesados. Diziam de tudo pelo bairro. Logo logo aparece prenha, diziam uns. Ou morta, sentenciavam outros. No bairro todos sabiam que a coisa não ia terminar bem. Um dia foi pega cometendo um delito. Foi levada à delegacia. As amigas conseguiram fugir. Foi pega sozinha.

Quantos anos cê tem, menina?

Quinze.

Ah, é? Ele quer te dar só um susto.

Mas é ilegal!

Pior que é. Mas fazer o quê? Quem manda é eles lá, fia…

Não pode, sou menor de idade. Não me chame de fia, você não sabe quem eu sou!

Mas vai por mim, isso aqui é melhor do que descer. Lá embaixo o bicho pega,,,

Foda-se, quero sair daqui!

Se descobrir um jeito mostra pra gente…

Não quero papo! Fica na sua aí tia?

Ha ha ha ha. Beleza então…

Quem tentava em vão abrandar os ânimos da menina era uma mulher de pouco mais de 30 anos que parecia ter passado dos 40, de nome Lídia. Havia sido detida por agredir uma velha num bar. Estava ali fazia um dia já, o delegado disse que era pra ela poder pensar melhor sobre o que fez. O novo delegado, que por benevolência lhe deu essa chance de reflexão, era um homem que havia assumido aquela região da cidade fazia pouco tempo e trazia métodos nada ortodoxos que agradava boa parte da comunidade local. Lídia tinha duas filhas: uma de quatro e outra de dois anos. A de quatro nasceu no ano em que ela passou pro regime semiaberto e a mais nova nasceu assim que terminou de cumprir sua pena. Mas não lidava muito bem com as crianças, por isso elas viviam com a avó. Na noite anterior havia dado uns tapas numa velha fofoqueira lá no bar do Alemão. A velha jogou um copo nela que arremessou de volta uma cadeira. A velha desmontou. O pessoal achou que a velha tinha morrido. Alguém chamou a polícia, ela disse que não fugiria, que assumiria o que fez porque a velha merecia. A polícia chegou no mesmo instante que a ambulância, mas a velha já estava de pé e cheia de palavra contra sua agressora.

A menina não suportou a pressão e começou a gritar, repetindo que era ilegal aquela atitude do delegado. Na cela havia mais cinco mulheres, que pareciam querer dormir. Lídia começou sorrir, sabia o que aconteceria em seguida. A menina começou berrar mais alto e com isso fez uma das detidas se levantar, ir até ela e lhe aplicar um murro daqueles na boca do estômago.

Cala a porra da boca, pirralha!

A menina cai no chão meio que sem ar. Lídia meneou a cabeça ao ver a menina cair gemendo. Depois sorriu. Aos treze anos Lídia foi presa pela primeira vez, foi jogada numa cela pior que aquela e depois foi transferida pro Batalhão, onde até hoje fica o albergue pra jovens infratores. Nem lembrava mais por que tomara aquele rumo na vida, parecia ser seu destino. Mas nas consequências daquela primeira prisão ela sempre evitou pensar. Não falava sobre aquilo com ninguém, nem nos momentos de bebedeira extrema. No dia daquela primeira prisão seu pai, que se dirigia à delegacia pra saber o que tinha acontecido, atravessou com a moto a frente de um ônibus e morreu no local. Depois que saiu do Albergue foi morar na rua. Depois sumiu. Conheceu outras cidades. Voltou. Entrou pesado no submundo do crime. E por fim foi presa, e como já era de maior, desceu pro presídio. Pegou seis anos de punição. Ficou fechada dos vinte aos vinte e seis.

Na condicional descobriu que estava grávida de um dos guardas prisionais que era casado. Sozinha e de barriga criou coragem e procurou a mãe. Ela lhe abriu as portas, resignada. Quando a primeira nasceu os olhos da avó brilharam, e ao pegar a neta nos braços pela primeira vez foi como se enfim conseguisse redescobrir a vida. Lídia odiou aquela cena toda. Anos depois voltou a se encontrar com aquele guarda prisional e novamente engravidou dele. A mãe recebeu a notícia com alegria. E com alegria recebeu a outra neta. Livre das filhas, Lídia ficava vagando sem trabalho ou perspectiva, bebendo, se drogando, fazendo bicos, e na maioria das vezes se prostituindo pra levantar uma grana. Mas pro submundo da criminalidade ela não voltaria, era uma promessa que fizera a si mesma: havia sofrido muito na cadeia. Vivia em bares sujos, com homens casados e/ou tipos mais suspeitos, mas sabia como não cair no vacilo de cometer algum crime, sabia qual era o limite, e vagueava até ele com perícia. Causava brigas quando bêbada e por se achar mais valente que qualquer outra mulher – e até uns homens – arrumava confusão o tempo inteiro. E aquela era a sua primeira noite detida após tantos anos de vida noturna vadia. Maldito delegado novo. A mãe nada falava, e parece que até preferia assim, preferia as coisas do jeito que estavam, do jeito que iam, Lídia não tinha jeito não: e mais, desde que deixasse suas netas em paz, tanto faz tanto fez. A mãe recebia uma pensão, e vivia bem com essa pensão, mas não dava um centavo à Lídia.

A menina tentou se levantar, mas o estômago ainda doía. E sentia medo. Mas parecia que ia manter o silêncio, estava acuada. As outras detentas, depois daquele soco, despertaram e ficaram conversando e esnobando a menina. Lídia sentiu vontade de ir lá e provocar a pirralha.

Quando se é novinha assim a gente se acha pra caralho né sua… antes que completasse a frase veio a imagem de seu pai. Ela ficou sabendo da morte dias depois do enterro. Sentia raiva da mãe por conta disso: quando saiu do albergue foi direto pra rua. Só quando presa e condenada, anos depois, que ela sentiu algum remorso pela morte do pai: foi obrigada a pensar principalmente quando na solitária, um dos momentos mais difíceis na prisão. Depois conseguir descobrir como recalcar aquelas imagens.

Cê é como eu! Pirralha idiota! Vai se fuder bonitinho na vida! Olha pra mim e vai sacar qual é o seu futuro, sua idiota!

Quase não conseguiu segurar o riso de deboche. Um sentimento obscuro fervia dentro de si e transbordava num riso nodoso. Era como um espelho refletindo a sua primeira juventude, daquele jeitinho ali mesmo, amedrontada dentro do albergue depois de tomar um soco na boca do estômago, caída no chão da cela, sem saber o que fazer.

A gente é a mesma coisa, pirralha.

Daí se ouviu uma movimentação nos corredores. Sons de chaves, surge um homem com o delegado que num movimento rápido abre a cela. O homem adentra e puxa a menina que estava encolhida no chão e a abraça. Os dois choram. Abraçados eles saem, o delegado fecha a cela e antes diz pra Lídia, com olhar duro: Espere mais um pouco aí, tá? Você não vai sair hoje ainda não, acho que você vai ter uma surpresa não tão muito boa, e saiu pisando duro. Tão rápida a cena que pareceu um sonho pra Lídia, que do fundo da cela, já sem aquele sorriso demoníaco, de dentro da escuridão, da mais profunda escuridão viu no rosto daquele que viera resgatar a menina as feições de seu pai.

O Demônio dos Outros

I

Um dia Dária, a administradora de uma pequena empresa de limpeza de obras situada na última rua do bairro B., chegou mais cedo no trabalho e surpreendeu o Pastor jogando sal em todo o galpão. Esse Pastor era um rapaz de uns 22 anos, magro, com uma face sofrida, envelhecida, com trejeitos que faziam suas cicatrizes no lado esquerdo do rosto se tornarem ainda mais assustadoras. Era esforçado, mas não conseguia aprender muito, mas ainda sim tentava. Dária percebia isso e respeitava, mas o tratava com dureza como fazia com os demais funcionários. Havia se convertido havia pouco tempo e já se tornara auxiliar de pastor. Se convertera ainda na prisão, e quando conseguiu a liberdade saiu com um lugar garantido na congregação. O líder da comunidade havia descoberto o rapaz durante os cultos na cadeia municipal, e dedicou muita energia para que ele seguisse o caminho evangélico: havia percebido que o rapaz era inteligente, bem articulado, e poderia desenvolver com muita facilidade o dom da palavra. Assumiu como pastor auxiliar e logo seria pastor adjunto, mas já pregava nos cultos de quinta, estava indo bem, mas ainda não podia ser remunerado pela congregação, então precisaria, por um tempo, trabalhar no mundo pra ajudar a esposa e o filho pequeno. Foi o líder da congregação que arrumou emprego pra ele naquela empresa. Pediu para que tivesse fé, disse que sabia que ele venceria as dificuldades, e o rapaz aceitou o desafio. Mas ele gastava muita energia tentando superar os problemas, que eram muitos: e ele não tinha habilidade alguma pro trabalho braçal: não conseguia assimilar bem os mais simples afazeres. Mas ele não era mal educado ou grosseiro como os outros funcionários, mas havia algo que vibrava no seu interior sempre que Dária reclamava de algo mal feito por ele. O Pastor trabalhou 30 dias ali e foram 30 dias em que Dária mandava ele refazer as suas obrigações. A administradora tentava ter paciência, sabia que ele estava se esforçando. Mas ela ficou fora de si quando viu o sal grosso sendo alucinadamente jogado no galpão.

Mas o que você tá fazendo? – Ela gritou.

Tô santificando este lugar, tô limpando isso aqui! – Ele respondeu com a mesma voz embargada de sempre.

Largue isso agora, você não tem o direito de fazer isso aqui! – Dária gritou ainda mais alto.

Não vou parar, não obedeço mais a você, serva do demônio! – Um berro acentuou a última palavra, quase como se tivesse enlouquecido.

O encarregado chegou bem no momento do último grito do rapaz e ajudou Dária a convencê-lo de que aquilo não estava certo. Ele jogou o copo de sal na direção de Dária, em um gesto que resumiu todo seu desprezo por ela e saiu, para não voltar mais. Dária respirava com calma e permaneceu um tempo olhando o vazio, parecia estar buscando energias pra prosseguir.

Mas que coisa, dona Dária, nunca tinha visto isso! Mas olhe tome cuidado, esses tipos aí…

Como que está o pessoal, tudo certo?

Tá sim, dona Dária.

Como que vamos fazer com a vaga do Pastor? Mas logo hoje?

Sim, mas eu já sabia dona Dária, esse rapaz aí…

Era uma bomba relógio, dava pra ver… – Ela complementou. ajeitando a bolsa no ombro e procurando o rumo do escritório.

Olha, tem meu sobrinho, ele é de menor, mas dá pra segurar a bronca, pelo  menos até o fim de semana: e ele parece ter mais que 16, ele é grande, e dá conta do trabalho, se a senhora quiser mando chamar agora…

De menor…

Ninguém vai ficar sabendo…

Você cuida disso?

Cuido, deixa comigo.

Vou ter que arriscar, ou é isso ou estamos todos ferrados.

Deixa dona Dária, deixa comigo, vai dar tudo certo.

O resto do dia foi de muito esforço pra Dária. O olhar do ex-funcionário a perseguia. Não sentiu medo, mas a advertência do encarregado vinha logo no encalço daquele olhar: ambos em loop, perturbando sua percepção e atrapalhando a plena execução das suas atividades. Não sabia se avisava ao marido, se procurava ajuda de alguém, se estava sendo leviana ao deixar aquilo daquele jeito. Mesmo assim decidiu que não faria nada, nem contaria ao marido, nem polícia, nem ninguém: o marido, polícia ou qualquer outra pessoa que percebesse nela o medo só traria mais problemas pra uma semana que seria demasiado difícil. Tinha de suportar toda a pressão.

II

No dia do pagamento o Pastor apareceu no escritório pra receber seus dias trabalhados. Dária pensou que não o veria mais e se surpreendeu ao vê-lo: parecia que havia se passado muito tempo desde aquela confusão.

Bom dia. – Ele disse, cabisbaixo. Estava vestido de forma diferente, as roupas denunciavam que algo de radical havia acontecido. Lá fora estava parado um Chevette azul com mais dois caras dentro. Ele havia voltado pro crime, ela pensou.

Me desculpe por aquele dia lá… – Ele tentou não parecer tímido.

Tem nada não, e como tá a família, e a igreja?

A família vai mais ou menos, mas a igreja eu larguei, aquilo lá num é pra mim não, eu tenho de resolver meus corre é na rua mesmo. Não consigo levar essa vida aí não, eu sou bicho solto, meus corre é outro mesmo, na moral, nem sei como vocês aguentam isso aqui não. – Disse de uma vez, como se tivesse ensaiado.

É, é difícil mesmo, entendo o que você quer dizer, assine aqui ó, aqui também, e aqui. Ela entregou o envelope com o dinheiro e ele pegou meio desajeitado. Antes de sair ele se virou, meio relutante, e disse:

Desculpe por aquele dia, sério mesmo…

Deixa pra lá, não foi nada.

Eu sei… E ainda deixei a senhora na mão…

Mas deu tudo certo.

Ainda bem, de qualquer forma me desculpe.

Dária sorriu.

De qualquer forma cuidado, e se precisar de outra chance pode vir que as portas estão abertas.

O rapaz corou as bochechas, esboçou um movimento com a cabeça e saiu apressado. Dária ficou mal, sentindo que talvez tivesse soado falso a sua postura. O Encarregado logo entrou na sala e vendo Dária reflexiva tentou extrair algo dela.

Mas que coisa, dona Dária…

Você viu isso, seu Helô?

Pois é, esse aí logo aparece morto. Uma pena.

Uma pena, ela repetiu. Viver é enfrentar os demônios da gente e os demônios dos outros… Demônios pra todo lado… – Dária disse suspirando e depois de um tempo complementou: O mundo tá cheio de gente pra todo lado, não adianta fugir não, a gente tem de enfrentar, viver é guerra mesmo, tem pra onde fugir não. – Repentinamente, como se desse por encerrado de vez aquele assunto, ela pediu os recibos do carregamento que acabara de chegar.

Helena

I

A professora escreve no quadro negro enquanto comenta sobre as provas, a sala está totalmente dispersa. Alguns falam baixo entre si, outros mexem no celular, o resto dorme. A professora, uma mulher de meia-idade e de estatura baixa e cabelos encaracolados escuros, pede silêncio sem se virar, o texto que escreve no quadro negro vai se tornando longo.

Vocês não estão copiando! Tá difícil sala, é tema de prova, já falei, vocês não me escutam, depois não reclamem. – Todos, de repente, fingem prestar atenção ao perceber o timbre de irritação da professora. Todos menos Helena.

Quem é aquela ali? – A sala diz que é Helena, em tom de algazarra, já esperando a punição.

Acorde aquela mocinha pra mim, você aí mesmo, acorde ela. – Helena levanta a cabeça sem saber o que está acontecendo, tira os fones de ouvido.

Saia da minha sala agora, saia, aqui não é hotel, não faço questão de aluno desinteressado! E se alguém mais quiser sair que saia! – Helena passa pela professora e coça os olhos e boceja e coloca de volta os fones de ouvido nas orelhas. – Não vou tolerar mais isso nas minhas aulas, chega! As provas tão aí, o problema é de vocês!

Helena procura um lugar pra se sentar no pátio da escola, deixa o caderno sobre o colo e mexe no seu celular. Depois de um tempo ela se levanta e procura um bebedouro. No caminho encontra Giza.

Falei pra você não entrar naquela aula. – Helena não responde. – Mas que desânimo. Credo! Nós vamos vazar daqui! O portão tá destrancado, quer dizer, o Lucas destrancou quando saiu e deixou aberto. Bora?

Só o Lucas?

O Paulo e o Júnior vão também. Sei lá se vai ter mais alguém, esses que falei eu tenho certeza! Vamos andar por aí, sei lá, beber algo…

Sei não…

Se eu fosse você iria, o Lucas, cê sabe…

Lá vem você de novo.

Bora, porra. Sai dessa vida. Se ficar aqui a diretora vai te fragar, e vai ser bem pior.

Sei não… Depois você faz alguma gracinha com o Lucas…

Esquece esse papo de Lucas, foi mal. Não tá mais aqui quem falou. Vamos dar um rolê por aí e só, na moral, só isso.

II

Helena, Giza e outros três garotos andam pelas ruas. Se empurram enquanto cantam as músicas que sai do celular de um deles. Helena parece outra, mais solta e disposta a brincar.

Quem vai buscar? – Giza interrompe a cantoria.

Cadê o dinheiro, ué?

Mas de novo?

Como assim de novo? – Os meninos brigam entre si.

Se liga, você não me deu nada ainda, malandrão, só falta sua parte aqui!

Eu vou com você!

Precisa não, vou rapidão! – Responde Lucas.

Os outros se sentam na calçada enquanto esperam. Um deles liga o som do celular.

Desliga isso aí Júnior, e escuta isso aqui, baixei hoje, pira nesse som! – Ouvem a nova música em silêncio.

Esse som é doido de mais! – Diz Giza. – Passa pra mim!

Passo nada, vai ficar na vontade. – Antes que Giza proteste Lucas reaparece. Dividem a bebida em copos e a música continua.

Se liga nessa passinho.

Que merda de dança..

Que nada, sou mestrão nessa porra…

Tá indo bem, mas falta rebolar mais, cê parece uma vassoura!

Como assim não sei rebolar? Se liga nisso.

Credo mano para, porra.

Paro não, aqui ó, bem na sua cara! – Todos riem da situação.

Ensina ele aí Lucas, diz Giza.

Peraí, segura meu copo Helena. – Lucas começa a dançar e logo Giza se joga entre eles. Depois de um tempo Lucas se senta ao lado de Helena.

A Lacraia te botou pra fora da aula? – Helena não respondeu de imediato, tomou um trago da bebida. Faz careta.

Essa parada tá horrível.

Era o que o dinheiro dava, o Paulo nunca contribui. – Depois de um silêncio Helena responde à primeira pergunta:

Aquela mulher é um saco. – E depois de outro tempo remenda:

Lacraia…

O Paulo que deu esse nome pra ela. Mas não parece? – Giza para de dançar.

Tá muito fraco isso aqui.

Tá mesmo Giza.

Mas tá muito fraco mesmo! – Reitera Giza.

Bora dar um grau nessa merda, me dá uma grana aí Paulo, pra deixar isso aqui  mais forte.

Mas que saco, aqui ó, só tenho cinco!

Já é alguma coisa. – Os outros tiram o que restava de dinheiro nos bolsos e Lucas sai em busca de reforçar a bebida. Helena parece a mais alta da turma e também parece a mais descontraída: eles se empurram, cantam, parecem amigos de longa data.

Quem tá a fim fumar um? – Diz Paulo.

Tem aí?

Tô ligado num chegado meu ali, ó!

Mas você num tava sem grana?

Nada, sempre tem, pro bagulho ele sempre tem! – Ironiza Giza.

Pra maconha sempre tenho mesmo, num curto álcool não, num me dá tanta brisa assim. Borá lá comigo! As meninas esperam a gente aqui.

Vou nada!

Beleza, seu otário! Me espera aqui galera.

III

Paulo vasculha o celular em busca de uma música nova. Giza se afasta com a amiga na desculpa de procurar um lugar pra mijar.

Ele não é uma gracinha?

Quem? Ahh…

Nah, para vai Helena! – Helena não responde. Andam até chegar num posto de gasolina. Na volta Giza fala qualquer coisa enquanto Helena parece não prestar atenção.

Nossa parece que já tô alta, mas parece que não vai passar disso!  – Diz Helena, interrompendo a amiga.

Presta atenção: eu dou um jeito com os meninos e tu se vira com o Lucas, vê se num vacila.

Você não presta mesmo.

E aí, que demora, onde cês tavam, demoraram pra porra!

Tava mijando, caralho, cê tá parecendo minha mãe!

Achei aquele som lá, anda logo, minha bateria tá acabando.

Calma! Tô bêbada já! – Grita Giza.

Guarda minhas coisas aí, tô com medo de perder. – Helena entrega os cadernos pra Giza.

Joga essa porra fora.

Tô falando sério.

Tá tá, coloca aqui, e deixa de drama.

Cuidado com meu fone.

Que se foda o fone!

Não, me dá aqui o fone.

Que se foda esse fone!

IV

As ruas estão desertas. Já passa das onze da noite, mas eles não parecem se importar. Helena está conversando com Lucas, ambos se destacam do grupo.

Você mora perto da Giza?

Não, mas com certeza vou ter que dormir na casa dela hoje.

Você mora longe?

Não é tão longe. Quantas horas, hein?

 Deixa eu ver. É onze e quinze.

Cara, essa bebida tá muito ruim!

Tá mesmo. Achei que ia melhorar, só piorou. – Os dois sorriem.

Mas é melhor que aquela aula lá. – Helena percebe o pessoal acelerando o passo, logo somem. Depois de um tempo em silêncio Lucas puxa Helena e lhe dá um beijo que é de pronto correspondido. Logo se encostam numa parede. Se beijam por um tempo.

Vamos ali. Ele puxa Helena pela mão e a leva duas ruas abaixo. Entram numa viela mal iluminada. Voltam a se beijar. Eles vão tirando parte das roupas. Suspiram.

Aqui é seguro, não tá a fim?

Não sei…

V

Os dois estão em busca dos amigos, em silêncio. Helena parece forçar indiferença, enquanto Lucas olha algo no celular.

Ela não responde. O que a gente faz?

Tentei também, deu nada.

Já é madrugada… Vamos pra minha casa, moro aqui perto.

Acho que não.

Mas tá muito tarde pra você ir sozinha.

Não dá nada.

A Giza deve tá chapada e o celular do Paulo tá dando direto na caixa, mas que merda… – Depois de um tempo ele toma coragem e diz que a levará até em casa. Helena não responde, procura algo no celular.

É sério, não vou deixar você ir sozinha.

Não precisa, na moral mesmo.

Te deixo na porta da casa da Giza.

Não precisa, já falei mano! – Foi meio áspera.

Não quer ligar pra alguém, chamar um conhecido – Insiste Lucas.

Tá de boa, sério mesmo. – Responde com menos acidez.

Não posso deixar você ir sozinha, vai ser foda.

Pode sim, é de boa, até amanhã.

Ela se vira e continua a descer a rua. Ele fica parado sem saber o que fazer. Parece decepcionado. Ela continua andando, e de repente olha pro celular e para no meio da rua. Se vira pra trás. O rapaz ainda está lá, parado.

Me diz uma coisa, você tem um fone de ouvido pra me emprestar? Acho que perdi o meu.

Tenho.

Amanhã te entrego.

De Boa, mas cuidado, hein.

Vou cuidar dele sim!

Não, cuidado com você.

Dá nada, sou cria, valeu pelo fone.

Ela coloca o fone de ouvido e vai embora.

Lucas a observa até que ela desaparece. Reluta em segui-la, ao menos à distância, mas aquela dureza dela o desencoraja, então toma a direção de casa. Depois de alguns passos, não suportando a ideia de deixá-la sozinha naquelas ruas, desiste de ir pra casa e sai em busca de Helena. Desce correndo pela rua da direita até a quadra de baixo, respira e toma a da esquerda, vê um vulto, é Helena. A alcança, controla a respiração ofegante, e se põe a caminhar ao lado dela. Helena percebeu ele se aproximando e não disse nada. Motocicletas barulhentas cortam ruas distantes, cachorros latem pros gatos nos telhados e os dois seguem em silêncio pelas ruas vazias.

A Mulher do Maranhão

Vem cá, Maranhão, sente aqui!

Só se me pagar uma.

Cê já tá bêbado?

Tô nada, vou fazer um quatro, ó… – Maranhão tentou se equilibrar numa das pernas e quase caiu: no reflexo alterado pela bebida tentou se apoiou na mesa e quase levou toda bebida ao chão. O pessoal passava mal de tanto rir. Sujeito folgado. Vivia sendo sacaneado pelo pessoal e gostava disso. Era só aparecer gente nova no bar, ele se encostava no sujeito procurando um jeito de explicar seu apelido, e caso o novato demonstrasse algum interesse a primeira coisa que dizia era que, na verdade, ele era paraense e não maranhense.

Nasci em Carolina, na divisa do Maranhão com Tocantins, mas só nasci mesmo, porque no dia seguinte eu tava indo pra Belém.

Deixe de ser burro, homem! tu nasceu foi no Maranhão, não importa se tu se mudou uma hora depois.

Quem sabe sou eu!

Tu é muito burro, Maranhão… – Mas ele teimava e com aquela mansidão de sempre, argumentando sem muita fluidez que se é mesmo é do lugar onde se cresce, não do lugar onde se nasce.

Era de estatura média, queimado de sol, um típico maranhense: digo nesse tom porque minha mulher é de lá, e quando os irmãos dela descem pra cá parece que ao mesmo tempo sou quem subo pra terra deles. Maranhão adorava uma cachaça! Adorava até demais. Era preciso, vez ou outra, que o encarregado da obra prometesse umas doses após o expediente para que ele se dedicasse ao trabalho com um pouco mais de seriedade. E adiantava por pouco tempo. Ele ia se desleixando, folgando aqui e ali, até se relaxar de vez, e caía na lerdeza de sempre enquanto os outros se matavam para cumprir as obrigações do dia. Coitado do encarregado, de vez em quando ele vinha aqui, mas nunca reclamava, parece que ele gostava do Maranhão, ou sentia pena, sei lá.

Meu estabelecimento é tipo um pequeno armazém: de manhã vendo pães e bolos e biscoitos, essas coisas, e dá até pra fazer uma comprinha básica e tal; depois do meio dia isso aqui vira praticamente um bar, apesar que tem gente que faz compras aqui sem se incomodar com a algazarra. Foram as inúmeras obras de expansão do bairro que criaram essa peculiar dinâmica no meu estabelecimento. Apesar disso nunca tive problemas. Mas o Maranhão vivia procurando um jeito de me ferrar: bicho folgado, conversador, metido a mulherengo! Era preciso enxotar o cabra quando a madrugada chegava, ou até antes, quando ele estava numa daquelas fases das mais difíceis. Às vezes ele dormia na calçada, bem aqui na entrada. Lavava o rosto no banheiro lá de fora, comia do pão com manteiga que eu preparava pro meu desjejum e tomava do café que era pra minha manhã, e por fim se arrastava até a construção que ficava à duas quadras daqui. Tinha fim de semana que era ainda mais difícil, ele dava o dobro de trabalho: dançava nas mesas, mexia com o pessoal na rua, cantava alto, cochilava sentado e derrubava os copos no chão, quebrando também as garrafas. Era tanta algazarra que o pessoal sentia o lugar sem graça quando Maranhão vez ou outra desaparecia. Era estranho isso, mas ele sumia por uns dois ou três dias.

Certa vez, depois de desaparecer por uns dias, ele entrou aqui com um camarada parecido com ele, um tal primo seu, muito parecido mesmo, tão folgado quanto. O primo se enturmou de primeira.

Ei, tu sabe pronde o Maranhão vai quando some? – E o primo respondeu:

Pra casa da mulher dele!

Achei que ela morasse num albergue…

Nada, moço, essa desgraça é casado!

Como assim casado? Olha o jeito dessa peste, pelo amor de deus, que casado o quê!

Mas moço, eu tô te falando que essa desgraça desse primo meu é casado! E a mulher é a coisa mais linda do mundo. – Sacou o celular do bolso e mostrou uma foto de uma festa onde havia uma mulher bastante bonita, cabelos lisos escuros, rosto arredondado, pela morena, os olhos de um brilho sem igual, sentada ao lado de um Maranhão bem-vestido e aparentemente muito bêbado. Maranhão se ria no canto, enquanto tentava cantar uma música qualquer: estava quase travado de bêbado.

Aquela história não colou muito. Podia ser armação dele com o primo, querendo pregar uma peça no pessoal. Mas dias depois, na obra, alguém fuçou no celular dele e viu outra imagem da mesma mulher, e havia uma criança na foto. Pessoal passou a não entender bem o porquê do Maranhão ser do jeito que era. Mas ele conseguia desarmar qualquer um com aquele sorriso indolente, com suas histórias indecentes, e aquele cantar desafinado que modificava as canções ao ponto de soarem estridentes e irritantes.

Os dias passavam e ele conseguia, com todo aquele tino pra vadiagem, manter seu encarregado irritado, e depois do expediente mantinha o bar entretido com sua fala arrastada e histórias que nunca davam em nada. Numa dessas o primo aparece ali de novo. Era dia de pagamento e o pessoal estava muito animado, uma farra só. Maranhão dançava e tentava xavecar as mulheres na rua. Fui à cozinha e quando voltei percebi o pessoal amontoado na porta do bar. Maranhão havia desmaiado. Pronto, pensei, o cabra morreu no meu estabelecimento! O primo foi lá e o abanou umas duas vezes e mandou que colocassem o moribundo sentado numa cadeira ali mesmo, na porta.

Calma gente, isso acontece de vez em quando.

Mas aqui nunca havia acontecido dele apagar assim, e ainda tão cedo. 

Pense num homem louco – disse o primo enquanto ajeitava o desacordado: Teve um casamento de um parente nosso que este doido desmaiou na pista e mal foi socorrido, este maluco bem aqui, mal o socorreram e ele já tava de pé dançando de novo, oxe! Não é de ver que este cara aqui, da vez que andou pras bandas de São Paulo se meteu numas de fazer testes de remédio? Isso mesmo: trabalhou pras farmacêuticas de lá, olha as ideias! Ganhava uma grana boa, mas o doido não podia beber, e bebia escondido. O pessoal da indústria lá descobriu que ele bebia, daí foi dispensado. Desde então vez ou outra ele desmaia assim, apaga do nada, e tu acha que se foi, que já era: que nada! Agorinha vocês vão ver. Acho que ele vai passar por isso pelo resto da vida; lá em casa a gente já tá é acostumado. Só deixe ele sentado aí, assim, deixe, vá, deixe assim que logo ele volta ao normal. 

O primo se parecia muito com Maranhão, o jeito de falar então… Se passariam por irmãos tranquilamente. Mesma estatura, mesmo timbre de voz, mesma petulância. Ambos pareciam com os meus cunhados. O pessoal chamou o primo numa mesa, que passou a ser chamado de Maranhão 2, e foram perguntar sobre a vida secreta daquele sujeito estranho apagado na mesa lá do lado de fora.

É um sujeito de sorte, disse o primo, um sujeito de muita sorte. Cada loucura que esse maluco já se meteu. Num é de ver que um dia… – de repente o desacordado cai no chão de novo. Todo mundo se levanta. Maranhão se põe de pé, apoiando na cadeira, parecia meio tonto ainda. E mal se segura de pé e já pede outra dose de pinga. O pessoal cai na gargalhada. O primo vai até ele e pede que pague uma dose.

Que dose o que seu vagabundo, tu é que tá me devendo.

Mas acaba pagando a bebida. O primo não falou mais nada sobre o passado, parecia gostar do Maranhão e preferia andar atrás dele, fortalecendo a algazarra que o parente desencadeava com muita sem-vergonhice.

Poucos dias depois Maranhão largaria tudo por conta duma carona que subiria pro Norte. O encarregado, que não aguentava mais aquela situação, e vendo a hora do sujeito morrer numa dessas bebedeiras, aceitou o pedido e fez o acerto. Maranhão não se despediu de ninguém: sumiu com uma carona que ninguém sabia ao certo onde ele tinha arrumado.

Ontem, vindo da casa da minha sogra, vi o primo do Maranhão atravessando a rua. Estava com sua família. Alias,  era o que parecia num primeiro momento. Brigava com o menino, enquanto a mulher o empurrava. Quase fui lá procurar saber do Maranhão, mas deixei pra lá, até porque a briga com a mulher e o menino estava se tornando algo mais sério: e o menino chorava e o primo xingava a mulher de tudo que lhe vinha à mente enquanto ela gesticulava com furor, dando tapinhas nas costas dele. Mas logo a briga deu uma amenizada e então atravessaram a rua. Quando chegaram do outro lado percebi que aquela mulher se parecia muito com a da foto, a dita esposa do Maranhão. E era mais bonita que na foto, um belo corpo, os cabelos  escuros e lisos, cabelos de índio… Se não fosse a mesma mulher da foto, seria sua irmã gêmea. Talvez fosse mesmo a mulher do Maranhão, talvez o primo estivesse cuidando dela até que o Maranhão voltasse. Os segui por um tempo, mas faltou coragem pra uma abordagem. Eles tomaram a via principal e depois entraram numa rua estreita que dava num cortiço que era também o final da ruela. Memorizei o endereço. E fui embora. Quem sabe um dia desses eu não apareça por lá pra saber o que aconteceu com o Maranhão.

Lara

Não daria o braço a torcer. O marido conhecia bem o gênio dela, e por isso mesmo sabia que não adiantaria nada tentar explicar coisa alguma.

– Isso mesmo, saia, saia, me deixe em paz! Saia!

Assim que ele saiu ela permaneceu sentada, repetindo a postura de sempre: recolhia as pernas para cima do sofá como se sentisse frio e olhava para a estante como se ela fosse o ponto de partida para outro lugar. E naqueles instantes seus pensamentos poderiam alcançar lugares ainda mais distantes que o infinito. Mas havia o marido, força motriz de toda desagradável situação.

– Maldito!

Ficou remoendo o acontecido durante um bom tempo.   Na mesma posição.  Ele voltaria meio ébrio. Faria alguma graça. Tomaria banho. Pediria o jantar. Caso não tivesse –  uma vez que isso explicasse a gravidade da briga – ele tomaria um banho e se deitaria, manso.

– Maldito!

Passou a pensar em se vingar. Mas como?  Sempre a mesma coisa, os mesmos pensamentos, a mesma postura.

– Um dia esse otário vai ver só! Mas…

Mas por que não agora? Ela pensou.

– Quer saber?

Desfez a postura de uma vez. Um pequeno rato estava havia um bom tempo parado no meio da sala observando ela e seus pesares. Depois da primeira manifestação de asco dela, um sufocado grito de desespero,  ele passou a mexer o focinho como que tentando decifrar aquela nova postura.

– Ah bicho nojento! Socorro! Sai sai!

Mas nada, o ratinho permaneceu no mesmo lugar. Tentou se abaixar pra pegar o chinelo. Mas sentia repulsa, tanta repulsa que não completava a ação. Ratos e baratas eram as coisas das quais mais sentia nojo. Certa vez tomara coragem e tocara numa cobra de estimação na casa de uma prima, estava meio embriagada e o pessoal da festa havia insistido muito. Mas se fosse uma barata ou rato ela não aceitaria o desafio nem estando muito bêbada ou que estivesse em jogo muita grana.

– Ai ai, sai bicho, sai!

O rato fez menção de ir até o sofá!

– Não não… sai sai!

Ele avançou um pouco mais.

– Sai daqui, SAI DAQUI!

Começou a dar pulos no sofá. O coração acelerado faltava sair pela boca; desesperada, começou a berrar e chorar enquanto sapateava em cima do sofá.  E fez aquilo por um bom tempo. Talvez a comicidade da situação deva ter assustado o ratinho: ele desapareceu como surgiu, sem que ela percebesse.

Ela sentou no sofá e ficou soluçando. Manteve os pés encima do sofá e foi se acalmando aos poucos. Voltou o olhar para estante como se dali conseguisse atingir o infinito.

Algum tempo depois o marido abriria a porta da sala.

– Ainda, do mesmo jeito? Quando vai passar essa raiva? Olha o que eu trouxe pra você… Olhe aqui…

Mas ela ficou do mesmo jeito, pés recolhidos sobre o sofá e o olhar fixo na estante.

– Só você mesmo, Lara, Só você! Vou tomar um banho…