Depois da Batalha

Os gritos do pátio foram se deslocando às pressas pra rua. Porrada! Porrada! Era uma platéia composta por meninos e meninas de diversas turmas. Era um acontecimento de rotina que nunca perdia seu encanto. Passava do meio dia. Os professores saiam pelo outro lado, tomando o quarteirão de lá, que dava pra avenida principal. Eles saiam pelo portão grande, longe do estacionamento e das ruas mais movimentadas. Ali haviam árvores predispostas a serem arquibancadas, casas desabitadas que não os incomodavam e ainda contribuíam ao delimitar o espaço dos lutadores mais covardes: e toda aquela configuração inflamava os espíritos, da platéia aos gladiadores, eles sabiam que viviam uma tradição: as lendas diziam que ali, nas suas respectivas eras, seus pais também digladiaram, e os pais de seus pais, assim até o início dos tempos…

O Gordinho não queria lutar. Havia caído numa emboscada. Seu adversário queria de volta sua honra, uma vez que a mesma fora maculada no instante em que foi denunciado à professora. O Gordinho questionava sobre quando ele o havia denunciado, uma vez que passara as aulas tentando terminar o trabalho de geografia. O adversário, saboreando o medo de sua presa, rodeava-o como se fosse um galo de briga. Cala a boca e venha aqui preu te mostrar quê que acontece com dedo duro. A plateia gritava em êxtase. Era um moleque magrelo, carismático e ligeiro. Deu duas voltas no Gordinho e chutou a sua bunda. Mais gritos e efusivas risadas. O outro estava com medo e a euforia da plateia não ajudava muito. Era maior que seu adversário mas não conseguia se mover. O magrelo sorria e erguia os braços como fazem os campeões nos filmes de boxe. As meninas pareciam as que mais se divertiam e isso afetava de forma diametralmente oposta aqueles dois lutadores. Os outros meninos incentivavam o Gordinho forçando-o a se defender e meio que para que a luta não terminasse de forma tão rápida: como se defendessem o bom combate. Que Combate o quê! O Gordinho, no meio daquele algazarra, estático e ao mesmo tempo trêmulo, nada conseguia fazer. Me deixa passar, balbuciava pateticamente. O adversário chutava a sua bunda. As meninas riam. Os meninos lamentavam. Deixa eu passar! Seu algoz se inflou no arrojo que os gritos e risos fomentavam e, de repente, deu um tapa na cara do Gordinho. Na televisão, na internet, nas músicas e filmes, o Gordinho havia visto personagens que num impulso de valentia se auto defendiam e ainda davam uns bons sopapos nos adversários-opressores metidos à besta, como se, de repente, descobrissem uma força interna descomunal que se expande e infla os músculos, tornando o invencível que sempre foi. Mas aquele pensamento durou apenas uma fração de segundo, apontando uma saída nobre, uma situação nova pra ele, algo que quase o elevou, o fez encarar aquele combate , mas que durou apenas aquele frágil e fugaz segundo. E simultâneo ao evaporar dessas ideias recebeu um soco no estômago e caiu sem ar no chão. Era prática, claro! Aquele moleque magrelo brigava toda semana e ganhava todas. No início, ainda na quinta série, ele apanhava e muito dos caras da oitava, o que era uma covardia e que lhe serviu pra alguma coisa. Agora não: eram garotos da sétima série contra garotos da sétima série. Sem covardias. E ainda por cima com um de estatura menor contra um adversário maior e esse adversário maior estava caído no chão. O pessoal seguiu o vencedor.

Passava do meio dia e meio. O gordo se levantou gemendo, pegou os cadernos do chão, limpou-os e decidiu pelo que achava certo: foi até uma delegacia próxima relatar o que havia lhe acontecido. A delegacia mais próxima ficava no centro, uns dez ou quinze minutos de caminhada. O menino humilhado foi, debaixo daquele sol impiedoso, decidido a por um fim naquelas crueldades que frequentemente aconteciam na sua e em outras escolas. Ele cria naquilo como se fosse a crença numa revolução. A outra versão mais provável era a da vingança, onde, no seu subconsciente, um ódio incomum sorria da imagem do adversário magrelo trancafiado numa cela suja, com outros marginais tão desqualificados de humanidade quanto ele. E ia assim, soterrado nesse misto de sentimentos angustiantes e conflitantes. Chegou na delegacia perto da uma. Narrou a um policial o que havia acontecido com lágrimas nos olhos, quase soluçando. O policial, talvez pra se livrar do tédio que vem depois de um almoço farto e que é tédio por não poder adormecer no sofá que fica nos fundos da delegacia, permitiu a entrada do menino na sala do delegado. Entrou com na sala forjando um ar sério que o delegado, que estava de mal humor, rebateu com um olhar de fúria. Uma hora te pego, Correia, E outro replicou o olhar ao delegado mal humorado e saiu. O menino narrou o acontecido novamente, agora com mais firmeza e ainda mostrou o uniforme sujo, os cadernos amassados e a mancha vermelha na imensa pança branca. O delegado fazia apenas uns grunhidos. Anotou alguma coisa no papel e disse ao garoto que no dia seguinte resolveria aquele problema, que não se preocupasse com aquilo. Mas o menino queria algo imediato e o delegado, sem paciência alguma, pediu pro policial Correia retirar o menino da sua sala.

Ele não vai fazer nada, não é? Creio que não, garoto! Tem coisa mais importante acontecendo no mundo, filho, não vai dar pra perder tempo com isso, desculpa aí. O menino tentou protestar com uma sofrida conjunção adversativa. Ao que o policial retrucou: Não adianta garoto, essa é a verdade. Escute, vá pra casa tome um banho, conte pros teus pais e tudo vai se resolver. No meu tempo a gente era obrigado a saber se defender na escola, hoje em dia, deus me livre se lhe der um conselho desses. Mas o que eu posso fazer é isso: pedir que fale com seus pais e espere por eles: vai dar tudo certo.

O menino tomou o caminho de volta perto das duas da tarde. Cansado, faminto e ainda mais humilhado. Na cabeça arquitetava vinganças que não teria coragem de executar. Suava bicas. Sonhava o tempo todo. Sentia vergonha de ter de voltar pra’quela escola e sentia, ainda mais, ódio daquele moleque metido. Ao chegar em casa as panelas em cima da mesa fez com que esquecesse tudo aquilo. Tomou uma panela nas mãos, misturou tudo que tinha nas outras panelas naquela que mantinha entre os braços e foi pro sofá, onde, enquanto assistia televisão, devorava colherada atrás de colherada. Ao fim da refeição adormeceu ali mesmo. Acordou perto das cinco da tarde, abriu a geladeira em busca de alguma coisa a pra beliscar. Nesse instante uma chuva torrencial caía lá fora. Ele encontra uma vasilha de doce, toma posse da mesma e volta pro sofá. Come metade do doce e fica passando de canal em canal, até que cai a noite e um de seus pais entra em casa e o faz, de imediato, brigando pela sujeira que o menino deixou pela sala. Ele balbucia alguma coisa mas permanece do mesmo jeito diante da televisão. Até que se vê obrigado a se levantar, tomar banho e ter de utilizar o computador do pai pra uma pesquisa. Tenta ligar o computador e nada. Pai, quê que tá acontecendo com o computador? O pai responde do banheiro que avisou que havia levado o disco rígido do computador pra consertar. Então ele volta pro sofá e voltou ao ritual de antes, passando de canal em canal até que chegasse a hora do jantar.

Os Remanescentes

Moro bem ali, naquele prédio amarelo – disse enquanto lutava contra as imperfeições da pista. No meu andar quase todo mundo se foi…

Pisou no acelerador tentando aproveitar o sinal amarelo.

Somos três, os remanescentes. Eu, pra lá dos setenta; um outro, deve ter passado dos oitenta, um velho rabugento; e uma senhora, também com uns oitenta e poucos anos, ela foi muito amiga da minha falecida mulher. Esses dois quase não saem: não faço a menor ideia do que eles passam o dia fazendo. Eu não dou conta não, preciso fazer alguma coisa. Trabalho por prazer, sabe? Gosto do que faço. E esse negócio de aplicativo eu tiro de letra. Me dou bem: as pessoas não acreditam que um velho como eu consegue trabalhar como motorista de aplicativo. E olhe aqui, trabalho com vários apps.

Para o carro quase em cima da faixa. Ele se mantem calado, como se estivesse repassando tudo o que tinha me dito. Assim que o sinal abre o carro se põe em movimento e ele retoma a palavra.

Apenas três: os remanescentes dessa guerra absurda. A vida é uma guerra, moça! Pareceu pensar em algo mais elaborado, mas desistiu de dizer. Durou um pouco mais esse último silêncio.

Por esses dias resolvi descer um pouco mais tarde, não lembro se ia trabalhar… nem sei o que ia fazer naquele dia… Não preciso trabalhar, trabalho porque gosto, igual falei pra senhora: trabalho quando quero. Então, nesse dia desci às nove. E nós três nos cruzamos. Acho que fazia uns seis meses que não nos víamos. Nem bom dia, moça, qual seu nome?

Lívia.

Então, dona Lívia, nem bom dia…

Pode me chamar só de Lívia.

Oxe, nunca, dona Lívia. Pareceu perder o fio da meada.

Eu não vou dar o braço a torcer, se eles não querem falar comigo, também não falo com eles.

Silêncio.

Da parte deles sei que morreram todos! Nem um neto, primo, sobrinho, nada! Só nós três nesse mundo, morando no mesmo andar, vizinhos, companheiros de viagem, e ninguém se fala, ninguém se cumprimenta, nem nada, como se fôssemos estranhos… E aí eu pergunto: pra quê tudo isso? Sabe…

Dobrou à esquerda.

Droga, não era por aqui, mas ali eu dou um jeito, conheço isso aqui como a palma da minha mão. Vai ser até melhor. Pego a Rua X, viro na… humm.. Ali na segunda esquina e vai ser até mais tranquilo chegar até o elevado.

Outro silêncio.

Tô perto, entende?

Perto do quê?

Da morte.

Não diga isso não, o senhor tem muito chão pela frente.

Ou pro fundo. Ele gargalhou e complementou de pronto: Aos oitenta anos você pode precisar de ajuda. Sem falar na solidão.

Fiz um gesto afirmativo com a cabeça e desviei o olhar pra fora do carro.

A senhora mora lá na saída pra rodovia, né? É muito perigoso?

Depende, hoje em dia tudo anda tão perigoso: é preciso ter cuidado o tempo inteiro. Mas antigamente não era muito não.

Tô pensando em me mudar pra uns predinhos ali, perto da saída, tem um panfleto em algum lugar… ali, isso! Tá vendo? Parece um bom lugar.

Sim, parece mesmo…

Vou largar aqueles dois fantasmas pra lá… – disse como que pra si mesmo.

Passou o elevado e a cidade pareceu que fora construída dentro de um buraco. O sol já declinava e pareceu um sonho tudo aquilo. Depois de algum tempo adentramos as ruas do meu bairro.

Mostrei os predinhos, tentando me reconectar com o motorista, que se mantinha ensimesmado. Mas não adiantou muito: terminamos a viagem em silêncio.

Pronto! Tudo certo, Dona Lívia – disse enquanto encerrava a viagem no aplicativo.

Enquanto eu saía ele me disse:

A vida é curta, dona Lívia, jamais se esqueça disso.

Apenas sorri, enquanto um irresoluto gesto escapava da minha mão direita antes de fechar a porta do carro.